Recomeços

Compreendo bem que o Miguel Vale de Almeida eleja, como principal perigo, a possibilidade de as próximas eleições entronizarem uma Ferreira Leite secundada por Paulo Portas. Não é por isso que o seu recente post é menos desconcertante.

Vamos por partes. Começando por dar razão ao MVA na campanha que lançou contra Ferreira Leite, também acho pouco sensato que sensibilidades à esquerda do PS continuem a agir como se a prioridade ainda fosse tirar maioria absoluta ao PS – pouco sensato não porque essa agenda esteja esvaziada de cabimento para quem identifica a linha política do PS como uma óbvia traição do que fosse um projecto de esquerda, mas porque a hipótese de maioria absoluta terá morrido de “morte morrida” depois das eleições europeias (se a vitória do PSD poderia roubar votos ao PC e ao BE em favor do voto útil, a clara derrota do PS também impôs uma dinâmica de perda quase impossível de ser revertida para as alturas de uma maioria absoluta).

Entendo, por isso, que as sensibilidades à esquerda do actual PS, sem abandonarem as óbvias prerrogativas de oposição ao poder dos últimos 4 anos, devem recalibrar o discurso que chegou às Europeias, ou seja, devem apontar baterias mais seriamente ao perigo do regresso da direita. Não que o melhor seja esperar o pior, mas importa ter a consciência de que pior é possível.

Um outro aspecto da declaração de voto do MVA (nisto estou próximo do que diz a certa altura o José Gusmão) é a persuasão (ou intuição) acerca do peso assumido por um activismo público historicamente centrado na questão LGBT e, nele, o peso da promessa feita pelo PS em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como se percebe neste post, a promessa feita pelo “provável futuro primeiro-ministro”, mesmo que na ressaca do lamentável 10 de Outubro, gerou no MVA um entusiasmo justificado pela iminência de uma importantíssima conquista, uma conquista no quadro de uma luta antiga (a luta dos movimentos sociais LGBT que se teria constituído num dos esteios da fundação do BE) que foi alargando a sua esfera de influência até surgir no programa de um partido com ambições de governo. É à luz do desejo de que esta promessa seja cumprida que, porventura injustamente, descortino algum wishful thinking no MVA em relação à ideia de um PS tão mais contaminado (para usar as palavras do Daniel Oliveira), um PS menos neoliberal, menos ligado aos interesses instituídos e menos conservador (ressalva: em termos de valores Sócrates é menos conservador que o partido, e muito menos do que o partido das distritais a que alude o Daniel Oliveira).

Seja como for, desta tomada de posição do MVA resultam duas questões que me parecem interessantes e substantivas. A primeira, identificada pelo José Gusmão, tem a ver com dois perigos que se tocam: o perigo de uma agenda política monotemática e o perigo de cristalização da luta contra a homofobia no casamento entre pessoas do mesmo sexo (não entrando num velho debate, este perigo é tão mais premente quanto a adesão à conquista parcial aventada pelo PS possa significar uma quebra na solidariedade identitária que tem sustentando a agenda mais ampla que, como o Miguel afirma, germinou no movimento LGBT e veio a verter-se como esteio fundamental na agenda de compromisso que fundou o BE -- especulo).

A segunda questão tem a ver com o dilema do voto útil para evitar um governo de direita (da direita à direita do PS). Neste particular tenho ideias claras (uma raridade). Identifico duas dimensões: o voto e o discurso público (isto é, o discurso das campanhas partidárias e o discurso dos esquerdalhas com voz pública). Na opinião e no discurso público, creio que as sensibilidades à esquerda do actual PS devem ter presente o perigo de um retorno PSD/CDS como a mais importante frente de batalha. No voto, perante um eventual dilema entre lógicas demasiado viciadas no contra-poder, por um lado, e, por outro, poderes "socialistas" demasiado à direita, nada como ser convictamente útil. Como? Forçando, pelo voto, um regime de pactos à esquerda que obrigue o contra-poder a assumir responsabilidades (até que os votos lhes ardam nas mãos). Da outra parte, resta esperar que o PS esteja disposto abdicar da terceira via, do bloco central, da rotatividade dos interesses, se não para se chegar convictamente à esquerda que estaria no seu ADN, pelo menos para evitar o regresso da direita -- versão salivante Portas/Ferreira Leite. (replay)

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