Jamais

Primeiro o Simplex, agora o Jamais. O cabeçalho “Jamais” capitaliza inteligentemente a trapalhada da OTA como símbolo da falibilidade do furor reformista e infra-estruturante do governo de Sócrates. No entanto, ao designarem de “Jamais” o novo blog de apoio ao PSD, os seus autores incorrem, a meu ver, em dois equívocos:

1- Afirmação pela negativa. Embora seja normal que a oposição use a crítica ao poder como plataforma argumentativa privilegiada, vivemos um momento em que opinião pública, mesmo à direita, começa a ressentir a ausência de uma lógica propositiva na candidatura de Manuela Ferreira Leite. Nos últimos dias a principal candidata da direita tem sido crescentemente confrontada com a aparente perpetuação de uma lógica meramente contestatária, sem apresentação de alternativas construtivas, bem como com o tardar do programa de governo que, por estes dias, já deveria estar disponível para a discussão pública. Neste quadro, as declarações de Aguiar Branco antecipando um Programa de Governo minimalista confirmam o pressentimento geral: o PSD não tem ideias concretas ou, temendo sufragá-las, pretende limitar a sua agenda a uma oposição à obra e às propostas de Sócrates. Assim, ao assentar num jamais que equivale à recusa de um segundo turno de Sócrates, o blog recém-criado sedimenta, desde logo, uma linha que, embora aceitável nos partidos associados ao contra-poder, começa a ser insustentável para um partido que tem legítimas aspirações a assumir os destinos do país.

2- "Jamais" remete para um “nunca mais!” que se percebe nalguns momentos pungentes da história das sociedades: guerra, genocídio, totalitarismo, catástrofes ecológicas. Ainda que a hipérbole pertença ao âmago do discurso político, a utilização do "Jamais" resulta numa demonização desproporcionadada do que foram os últimos quatro anos do mandato de Sócrates no quadro histórico da democracia portuguesa (até para os seus maiores críticos). Se fosse possível dizê-lo sem paradoxo: é uma hipérbole excessiva que banaliza a história.



<< Home