Há lá muito quem coma

Dirijo-me à papelaria da esquina (como se costuma dizer, "literalmente", a livraria Triunfo fica mesmo na esquina) a fim deitar dois euros na sorte. À minha frente um senhor, pelo trajar salpicado sugeria que vindo directamente da obra, munia-se de raspadinhas suficientes para debastar uma unha de cera das compridas em menos de nada. Debruçado sobre o balcão, o nosso herói fazia-se pesar sobre o amparo das revistas cor-de-rosa que criteriosamente forram o balcão a fim de tentar o olho incauto de um qualquer comprador do New Musical Express. Tanto assim sopesava que, ao preparar-se para meter a mão à carteira, o nosso herói levou a capa de uma das revistas agarrada ao antebraço. No caso uma publicação com a fotofrafia de Carolina Patrocínio na capa a pretexto de ter sido abandonada pela mãe (ou seria o pai?) aos 12 anos.

Nada atrapalhado, o nosso herói apressou-se a socializar a situação: "Isto com o suor ainda lhe levo a loja atrás." O senhor Valdemar, um génio na arte de entreter os clientes nas proximidades dos seus artigos mais suculentos, não teve como se deixar ficar: "Cá para mim, a menina queria ir já consigo!" Pois bem, esta mínima sugestão de affair com a jovem apresentadora provocou no nosso herói um embaraço que não lhe poderíamos adivinhar. Gagueja, hesita, e, finalmente, numa daquelas enunciações fingidamente confiantes oferece uma versão adulta do clássico "também não queria." E que nos diz ele?: "Sr. Valdemar, pode ficar com ela. Sabe, há lá muito quem coma. Há lá muito quem coma. Se há... Há lá muito quem coma."



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