Ronaldo, Madrid e 94 milhões

Sou uma pessoa muito compreensiva e, por razões que apontei, consigo entender que as pessoas embirrem com o Cristiano Ronaldo. Aquilo que não concedo é que lhe menorizem o futebol. Ronaldo é um jogador assombroso com poucos paralelos históricos seja no valor utilitário para as conquistas da equipa, seja no valor estético-artístico para o património do jogo.

Mais, a partir do momento em que o seu repertório de fintas começou a ser estudado em cursos de formação profissional pelos defesas laterais do futebol inglês, a partir do momento em que as dobras sofreram uma alteração conceptual para serem activadas preventivamente, a partir do momento em que as entradas a pés juntos se insinuavam como a resposta Indiana Jones para tanto malabarismo, Ronaldo, sabiamente instruído por Fergusson, com a ajuda da mobilidade do ataque do Manchester (destaque-se o papel sacrificial de Rooney), soube fazer uma assinalável transformação de extremo desequilibrador para avançado goleador. Deparando-se com um beco evolutivo imposto pelo corporativismo dos defesas, sempre pressurosos em juntar forças para pôr fim à humilhação do drible, Ronaldo adaptou-se de tal modo que hoje se atreve a pouquíssimos dribles (drible, enquanto logro ensaiado, diferente de arranque em velocidade no 1 para 1). Como dizia alguém numa tirada chauvinista sobre certa cantora repleta de outros dotes: "cantar para quê?". Ronaldo cabeceia como um Jardel, chuta com os dois pés como ninguém, tem um arranque colossal, (acho que perceberam a ideia, e também não quero chegar ao ponto de lhe elogiar os pontapés de baliza). Para não parecer inteiramente acrítico, diria que lhe falta visão de jogo capaz de potenciar a qualidade do passe vertical e uma melhor definição dos contra-ataques quando assume a primeira posse. Quanto ao sub-rendimento da selecção, está na altura de assumirmos que aquilo é uma equipa de segunda. Para lá do novel perfil do Prof. Carlos "Pardal" Queiroz, cabe perguntar: quantos jogadores portugueses actuam hoje como titulares incontestáveis em equipas de topo do futebol europeu? Respondo: Bruno Alves, Raul Meireles, Ronaldo, Bosingwa e Pepe. Muito pouco.

Estou convosco se acaso desprezam Ronaldo por ser um básico sem gravitas, por ter elimando o (meu) Porto com aquele pontapé obsceno, por ser presumido sem estilo ou, mesmo, por pura inveja (excelente argumento, aliás). Agora, se querem mitigar a valia do jogador que nas próximas horas será transferido para o Real Madrid por 94 milhões de euros, não contem comigo. Se um jogador acostumado à seriedade do Manchester resistirá desportivamenete ao circo madrileno -- mesmo que ao lado de Kaká, um atleta de Cristo com passes divinais --, isso é outra questão.



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