Ponto Contra Ponto

Há várias razões que me poderiam levar a ser um entusiasta do modelo do novo programa de Pacheco Pereira, o Ponto Contra Ponto. Gosto, em primeiro lugar, do modo como o programa rompe com a cadência do tempo televisivo dominante, de como permite o justo curso do pensamento sem o truncar ou sem o disfarçar com o habitual diálogo cénico (como Marcelo e Vitorino na RTP). Nesse sentido, prefiro a honestidade da "missa" à ilusão forjada por um dispositivo de contraditório que, na verdade, apenas reforça a autoridade da homilia, fantasiando-a de diálogo ao mesmo tempo que a adapta aos ritmos da televisão. Em segundo lugar, aprecio o exercício semiótico que Pacheco Pereira ensaia ao tentar olhar para os significados que muitas vezes se encontram subtilmente embutidos na produção mediática. Em terceiro lugar, valorizo o cuidado de Pacheco Pereira na reiterada assunção da sua perspectiva parcial, do seu lugar enquanto mais um produtor de opinião.

Isto dito, vamos ao que não resulta. Melhor dito, às razões que fazem fracassar um modelo que à partida me interessaria. Por muito que isto pareça óbvio: o esboroar deste modelo televisivo liga-se à falta de controlo de Pacheco Pereira sobre o facciosismo da sua opinião, à pulsão quase-libidinal que enceta o substantivo do seu discurso e que raras vezes lhe dá margem para a sofisticação intelectual. Vamos por partes.

Primeiro, a missa de facto constitui um registo honesto, poderia ser a expressão de uma inteligência crítica que, em última instância, até nos poderia aproximar das mundivisões do autor (sem que isto fosse um imperativo, somos capazes de nos dobrar à inteligência crítica de pessoas que não nos converterão a coisa nenhuma e que mesmo assim enriquecem o nosso olhar sobre determinado fenómeno). O problema é que Pacheco Pereira sacrifica qualquer veleidade de inteligência crítica ao modo ostensivo com que nos quer converter, seja à sanha anti-sócrates, seja à campanha pela sua protegida, seja ao medo pela extrema-esquerda, seja à cruzada contra o politicamente correcto. Há todo um hiperventilar de lutas antigas, algumas das quais agora dramatizadas pelo tempo de franca campanha eleitoral. Por exemplo, se a evocação de Vitorino Nemésio pretendia inicialmente defender um certo tipo de televisão, Pacheco Pereira não resistiu em resvalar para uma elegia das suas rugas, alusão cujos paralelos com Ferreira Leite foram mais que gritantes (já no outro dia elogiava Churchill com uma “subtileza” assustadora). Se a alusão ao livro de João Gonçalves pretendia exaltar um estilo de prosa de alguém capaz de ser irritante e desalinhado (demos de barato), Pacheco Pereira conseguiu escolher o mais elementar dos posts apenas porque, sem qualquer concessão ao estilo, nele se falava desabridamente mal de Sócrates. Não vale a pena incomodar Freud. O problema deste tipo de adesão ostensiva a uma trincheira, muito além de qualquer underground proselytism, é que tende a molestar a riqueza intelectual da análise e colide com as próprias tentativas de conversão (a seguir naquela linha tão belicamente filiada, sem contraditório, Pacheco Pereira acabará falando só para os convertidos)

Em segundo lugar, a sedução que o exercício semiótico poderia exercer capitula tanto perante a frugalidade dos exemplos colhidos (o que nos diz que as anúncios de emprego no correio da manhã aumentaram com a crise?), como, mais uma vez, perante o compulsivo dirigismo político que vigia cada período em que Pacheco Pereira aparentemente anda ali em busca dos conotativos – que, logo se percebe, já trazia de casa.

Em terceiro lugar, a assunção do Ponto Contra Ponto como um programa de opinião, sendo importante e de enaltecer, casa mal com a sistemática insinuação segundo a qual Pacheco Pereira se apresenta como uma voz acossada pelos tempos difíceis, pelo politicamente correcto, pela cultura do espectáculo que se apossou dos media, pelo controle governativo da comunicação social, pela inveja e maledicência que milita nos blogues, pelo mau jornalismo que atenta contra a sua seriedade, etc. A presença mediática de Pacheco Pereira, bem como o facto de presidir sem contraditório a um programa de opinião, torna pouco sério o exercício de vitimização a que tantas vezes se entrega.

Pacheco Pereira não teria que ser subtil, não teria que demarcar a semiótica da propaganda, não teria que se sentir menos acossado ou perseguido, tampouco estaria obrigado a ser intelectualmente sofisticado (no que teria por onde, não se duvide). O que resulta estranho é ele entregar-se ao Ponto Contra Ponto aliando tamanho primarismo bélico à ilusão de nos expõe algo da ordem da subtileza ou da finura de raciocínio, resulta estranho apresentar-se em prime time como a vítima célebre, como o representante das vozes silenciadas. (Replay)



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