Fidelis

Dentro das lógicas atribuições de um blog de esquerda, o Vasco abordava há dias as implicações do Kit de infidelidade enquanto “manifestação possível do sentimento de posse latente e da insegurança na relação”. A propósito, o I de hoje traz uma crónica em que Alberoni faz a apologia de uma fidelidade conjugal a ser fundada não tanto na renúncia como no sentimento e no hábito que nasce da intimidade amorosa. No entanto, conquanto pudessem ficar os leitores contritos com a prescrição do sociólogo (há livros dele que são magníficos receituários), eis que, páginas à frente, no mesmo jornal, o leitor é aliviado de alguma pressão com um paliativo na moda: “Swing, o outro remédio para a infidelidade.” É curioso que ambas as leituras da infidelidade pressuponham a necessidade de dar resposta, refreando ou legislando, aos desejos que ameaçam a monogamia previamente assumida. Esquecem-se do desejo de logro. De facto, imagino, o swing poderá responder à expressa vontade de ter sexo com outras pessoas, mas quem julga que os motivos para a infidelidade nas sociedades contemporâneas se ligam à na necessidade de diversificar parceiros de cópula está, mais uma vez, a ser indulgente com a exaltação desmedida do nexo libertação-sexo (Foucault explica). Imagino que Lacan explique esta outra coisa, mas o swing sequer dialoga com alguns dos móbiles essenciais da traição. A saber, primeiro, a resoluta recusa em legislar liberdades, democratizando-as para o casal, seja numa lógica de cumplicidade como o swing, seja numa relação, declarada aberta, em que cada um dá as suas voltas sem relatório de actividades (o egotista em regime mono-poligâmico aspira privatizar o alargamento de possibilidades no regime de clandestinidade). Em segundo lugar, o swing muito menos responde ao perverso desejo de enganar como afirmação de uma individualidade cansada de negociações bilaterais. Ou seja, o desejo de sexo como desejo de logro não se satisfaz com a legitimação do sexo extra-conjugal. Temos pois que o swing é um paliativo de curto espectro. Já Alberoni convida à coerência da persistência enamorada nos termos do clássico pack monogâmico – dura o pack o tempo da vigência do enamoramento, deduz-ze. É lícito supor que as pessoas não trairiam tanto se pensassem que quando estão a trair o parceiro também estão a desiludir o Alberoni. (Replay)



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