The Reader e o Holocausto

Num post anterior recebi um comentário em que, a propósito de uma alusão de passagem feita sobre o caso Fritzl, me pediam que esclarecesse a posição em relação ao filme The Reader (O Leitor). Confesso que andava a evitar falar do assunto, aberta e longamente.

Normalmente respondo a assaltos primários ao meu sistema nervoso com o princípio de energia mínima, de modo que, com frequência, divido as discussões entre as que valem a pena e as que não me merecem a arrelia. Pois bem, o mero contacto com as críticas feitas ao O Leitor exigiu-me um controlo respiratório para além das minhas possibilidades (ainda procurei a bomba de asma que usava na adolescência, mas fez-me desistir o perigo de arritmias, a probabilidade de a bomba estar fora de prazo e, finalmente, o facto de não a ter encontrado).

Para evitar equívocos e carapuças usurpadas convém esclarecer com que espécie de críticas agora dialogo: 1. com críticas lidas em língua estrangeira (não me cruzei com tamanhos primarismos na imprensa indígena); 2. com críticas que reduzem o filme a um fracasso ético e moral sobre o Holocausto (estou de bem com quem ache o filme uma merda, sinceramente acho que a minha própria recepção ao filme ficou favoravelmente enviesada pela miséria lamacento-canina dos óscares).

Demarcações feitas, há que definir alvos mais rigorosamente para, por assim dizer, humanizarmos a discussão. Proponho dois: 1) o artigo de um senhor chamado Ron Rosenbaum na Slate; 2) a declaração, feita aos microfones da rádio, de Pedro "Rosenbaum" Mexia quando resumiu o O Leitor a uma "prostituição do Holocausto" -- não queria nada enervar-me com o Mexia, mas estava na casa de banho com o rádio ligado e já não fui a tempo de o afogar no banho de imersão (o rádio).

Pois bem, há três elementos que me fazem puxar da bomba de asma:

1- Sensibilidade estético-política. Aqueles que são os primeiros a dar o peito contra depreciações do objecto fílmico ou literário por razões políticas, ideológicas e morais são também os primeiros a querer impor o uso compulsivo de pinças e uvas de látex quando determinados temas, de que se julgam os guardiões sentimentais e ideológicos, são trazidos colação. O politicamente correcto é um arremesso muito conveniente, claro está, quando não mexe com a sensibilidade dos atiradores de serviço.

2- Pessimismo antropológico (à la carte). Por alguma razão que nunca percebi muito bem, há quem prefira pensar nos autores de crimes hediondos como seres destituídos de humanidade, como monstros imersos na sua psicopatologia, como óbvias encarnações satânicas. Por muito que eu compreenda o conforto destas visões na demarcação dos agentes do mal que comporta, tenho-as por utópicas e perigosas. Utópicas porque idealizam o mal, supondo-o provindo de seres destituídos de humanidade, de paixões, de complexidades, de contradições. Perigosas porque nos tornam incapazes de reconhecer em nós, e naqueles que nos são próximos, potenciais carrascos. Isto vale para uma experiência como a do Holocausto, sublinhando o poder de um regime ideológico totalitário para se imbricar na nossa humanidade. Mas vale também para as circunstâncias individuais, seja para representar a possibilidade de coexistência de diferentes faces sociais num sujeito (um violador, um assassino pode ser um excelente pai de família, um profissional competente), seja para assinalar o abismo que sempre espreita: o mais generoso dos homens quando acossado, seduzido, desesperado ou humilhado é capaz de horrores que nos seriam inimagináveis.

Portanto, falemos no modo como A Queda representava Hitler, falemos no modo como O Leitor apresenta Hanna Schmitz, o instrutivo é a apresentação do ser humano que nos é semelhante, nas suas ambições, complexidades, emoções e recalcamentos. Nada disso constitui um "branqueamento" do Holocausto ou dos seus agentes, constitui sim um retrato realista, não maniqueísta, dos caminhos tortuosos que a história dos totalitarismos sulca na intersubjectividade dos seus contemporâneos. Honra-se a memória do Holcausto tendo por perto a noção de que o que aconteceu está longe de ser insólito ou irrepetível.

Os crimes cometidos pela personagem encarnada por Kate Winslet são, segundo alguns, submersos na relação empática que o filme promove para com : a) na atenção excessiva conferida ao tema da iliteracia enquanto estigma biográfico; b) na afeição que somos convidados a criar pela personagem em nome do amor vivido com Michael Berg. Esta é, parece-me, a objecção moral mais cabível de ser feita ao filme (não li o livro em que se baseia). No entanto, entendo que é uma objecção que desmerece aquele que é exactamente o grande mérito da narrativa: o desconforto e a culpa que instalam no espectador.

Em primeiro lugar, defendo a verosimilhança. A ideia de que a participação no Holocausto teria que privar Hanna de desejos, paixões ou preocupações de prestígio social, parte de um olímpico alheamento acerca dos processos de recalcamento e auto-justificação activados por quem foge do confronto com uma culpa potencialmente esmagadora -- em termos de condenação social e de remorso íntimo.

Em segundo lugar, defendo a pertinência. O Holocausto constitui um abismo que figura inevitavelmente como momento horripilante na história da humanidade e na história da civilização Ocidental. Muitos dos valores e das instituições que se sufragaram após a II Guerra Mundial, e que hoje nos regulam, nasceram de uma determinação em criar mecanismos capazes de evitar que algo de semelhante se repitisse. Nesse sentido, o Holocausto, além de ser um espelho com que as conquistas da modernidade se devem continuamente confrontar, representa um momento fundador das relações entre os Estados na arena internacional, representa, por exemplo, o momento fundador para a emergência e consolidação da gramática dos direitos humanos acima das relações de soberania. É mais que lícito que, tal como a política e a ética, as artes procurem exaurir as questões que são levantadas pelas muitas vidas que ficaram no Holocausto, mas também, pelas que lhe sobreviveram.

Desqualificar a história daqueles que viveram ao Holocausto, como vítimas ou como agentes do III Reich, porque desproporcionadamente tematizadas, é ignorar o quanto somos já dele herdeiros.

Em terceiro lugar, defendo a má-consciência que o filme promove. Ao deixar que nos comovamos com uma história de amor em que, vimos a saber, a protagonista teria sido uma guarda nazi directamente responsável pela morte de judeus, o filme coloca-nos numa posição análoga de Michael Berg. Sentimos culpa por aquilo que sentimos. Esse agonismo composto por uma contradição dilacerante entre o amor e a resoluta condenação do passado de quem amamos -- ou amámos -- será, porventura, o tema do filme. Não deixo de ficar perplexo ao dar conta da tanta gente que conseguiu reduzir o filme a uma crítica moral -- inteiramente gratuita e equivocada -- sobre o Holocausto.

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