Primavera

Ao contrário do que julgam os alfarrabistas de Delft, sou uma pessoa bem documentada em relação às suas alergias. Há uns 15 anos o meu braço foi picado em toda a sua extensão: cada buraquinho da minha pele fofinha foi emparelhado com uma substância potencialmente alergénica. Concluídos os testes, fiquei a saber que sou alérgico aos ácaros que se passeiam no pó da casa. Consequências imediatas: adeus alcatifas felpudas. Mais: varrer, limpar ou aspirar o pó tornaram-se-me actividades interditas (não imaginam o pesar com que expliquei o facto à entidade maternal). Fiquei também a saber -- aliás era esta a grande dúvida -- que não sou alérgico aos pólens. Consequência imediata: a límpida persuasão de que nenhuma primavera me deveria justificar cuidados de maior e, muito menos, a reclusão.

Quinze anos depois, continuo encafuado em pó doméstico enquanto o mundo inspira o pólen dos decotes primaveris. O meu perfil alérgico continua por cumprir.



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