O-O (duas notas)

1- O Derlei é uma pessoa que reacende a velha questão da justiça divina: será o acto humano ultimamente julgado pela intenção ou, antes, pelas consequências que enceta no incerto mundo dos mortais? Detectei no jogo de ontem duas agressões intencionais: Rochemback sobre Lisandro, Lucho sobre Derlei. Essas agressões poderiam, efectivamente, ter causado algum dano físico (aliás, desconfio que causaram). No caso da agressão de Lucho, tendão de aquiles e assim, poderiam mesmo incapacitar o agredido a voltar a jogar futebol (o Derlei anunciou que arrumará as botas em breve, mas não vale a pena acelerar processos).

No entanto, mesmo quando temos por contraponto a propensão do Bruno Alves para a lesão traumática (do adversário), ou a malícia impotente de Rochemback, estamos no campo da brincadeira de crianças se devidamente tomado em conta o perigo imposto por Derlei, à humanidade em particular, sempre tenta disputar uma bola -- Derlei tenta sempre disputar uma bola. O facto é que o jogo esforçado de Derlei eleva invariavelmente a parada às proximidades da velha questão Shakespereana.

Insisto: não acho que Derlei seja um jogador maldoso, sem ironia reputo-o de empenhado no modo como se entrega à disputa de cada lance – por mirífica que seja a hipótese de o ganhar. Mais, acompanho a carreira Derlei há tempo suficiente para ter por evidente a forma como ele concilia (intimamente) a virilidade que imprime ao jogo com um desusado amor pelo próximo (pronto, agora exagerei). No fundo, custa-me isto de uma pessoa bondosa e bem intencionada ter o poder de causar mais desgraça do que qualquer Heathcliff arraçado de Paulinho Santos – com o poder de impulsão do Bruno Alves e a disponibilidade para a porrada do primeiro Fernando Couto –, apenas porque é muito generoso no modo como se entrega.

2- A relativa falta de altura do Porto em nada justifica a confrangedora inaptidão para o usufruto das bolas paradas (aquelas cujo destino, depois de postas a mexer, bem entendido, é serem disputadas de cabeça na área adversária).

A jogar em casa, muito do futuro do FCP na presente época passa pela eventual disponibilidade de Jesualdo Ferreira para dedicar umas horas ao PowerPoint. Anseio por uma apresentação intitulada "contribuições para o estudo do que fazer a cantos e a livres descaídos para a linha" (prescindir de os marcar é uma é uma opção que deve ser considerada), de tal modo, desejamos, que essas jogadas tradicionalmente ofensivas, se reconvertam em jogadas de perigo para a baliza adversária, abandonando o seu presente estatuto de sineta de aviso para o contra-ataque dos visitantes.



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