Elizabeth Fritzl (act.)

Poucas pessoas têm a noção de que Elisabeth Fritzl começou a ser sexualmente abusada pelo pai aos 11 anos, ou seja, sensivelmente 7 anos antes de ser levada para o inominável cativeiro onde acabaria por viver mais de duas décadas. Tudo começou, pois, pela mais trivial das modalidades no abuso sexual de menores.

A Áustria de Joseph Fritzl, como noutro momento a Casa Pia, chega-nos como que demarcando o horror. O mal é circunscrito nos territórios, supostamente insólitos, onde a vilania do abuso se articula com determinadas lógicas organizativas, quase burocráticas, que ao longo dos anos vingam cumprir tranquilamente os seus propósitos.

O tratamento mediático do caso Fritzl, ou da Casa Pia, não permite que estabeleçamos quaisquer elos com aquele que é o trivial abuso sexual de menores em Portugal, seja no recato dos lares, seja nas muitas instituições de internato pelo país. Pelo contrário, os media fazem-nos crer no insólito, histórico e geográfico, do abuso atroz. "Era um sujeito muito pacato e simpático, ninguém imaginava que fosse capaz disso", frase sintomática de um espanto ignaro.

Não digo nada de novo, mas lembro que a disposição para nos fascinarmos com a excepcionalidade dos "monstros totais", como sempre que se discute a perigosíssima "humanização" dos fautores do Holocausto (ainda recentemente vieram uns tantos patetas rasgar as vestes por causa do filme The Reader), só serve à ocultação do mal que nos é vizinho, só serve ao espanto perante a complexa humanidade, tão próxima da nossa, dos perpretadores de formas atrozes de abuso e violência. De algum modo, o simpático vizinho que abusa da filha agradece o fascínio mediático pelos monstros austríacos, essa confortável comunidade imaginada de abusadores arquetípicos.



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