Angola é nossa, se Deus quiser

Mentiria se dissesse que não estou surpreendido com o acompanhamento da visita do Papa a Angola na imprensa portuguesa. Chegámos ao ponto de ter directos da RTPN e da TVI24 num sábado à tarde (os canais generalistas não andam menos comovidos).

Não deixa de ser estranho verificar o quanto a explosão mediática de Angola tem sido conciliada com um olímpico desprezo pelo vasto país, aquele que não figura na êxtase dos negócios ou na solenidade das visitas de Estado. Já que a nossa imprensa está tão apostada na reprodução dos sempre excitantes momentos de ritualização da "relações bilaterais", talvez fosse expectável que produzissem alguma informação sobre a realidade social do país. Não falo apenas no sentido de uma crítica social à opulência das classes dirigentes -- o que não deixa de ser uma omissão mortal--, até porque documentar Angola reduzindo-a à imoralidade das assimetrias económicas seria de um reducionismo simétrico daquele que hoje temos. Falo sim de um mínimo pudor em acrescentar alguma matéria, documental e informativa, a uma Angola que só nos chega na versão fato e gravata.

No entanto, a forma como a visita do Papa está a ser seguida representa abismos de outra espécie; a presumida pertinência mediática do evento para a realidade portuguesa assenta em duas efabulações da nostalgia: 1- a convicção de que angola ainda é nossa; 2- a convicção de que ainda somos um país de católicos (somos, mas em termos de inconsciente colectivo, não no interesse pelos rituais da Instituição). A visita do Papa a Angola tem servido para expor uma uma geografia simbólica que pelos artifícios da nostalgia situa Portugal entre o Vaticano e as Colónias. É coisa para lhes passar.



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