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Abel: "Todos os adjectivos que nos quiserem atribuir, nós vamos assumi-los".
Uma reacção inteiramente aceitável a esta declaração será a de quem se sentir compelido a percorrer o dicionário a fim de colher adjectivos, suficientemente insultuosos e escarnecedores, para poder descrever com requintes aquilo que se passou em Munich. Não querendo encontrar bodes expiatórios em todos os jogadores do plantel do Sporting, na direcção, no treinador, na ideologia fundamentalista de culto à formação, na avidez de Klinsman, ou no próprio Rui Santos, peço-vos contudo que deixem o Abel fora disto. Atentemos antes no modo refinado como ele define a fragilidade pública do atleta: a manifesta desprotecção perante um previsível surto de virulência adjectival. Na versão de Abel, estar na merda é estar à mercê dos adjectivos dos outros.

Saber estar na merda é, portanto, aceitar todos os adjectivos, não porque se presume uma imunidade do "eu" em relação aos momentos negativamente marcantes, ou em relação aos textos que deles falam -- isso seria negar a terrível eficácia dos estigmas como âncoras da memória colectiva (Paulo Madeira será sempre o jogador de Vigo) --, mas pela consciência de que os adjectivos, para o bem e para o mal, são exímios em levar os adjectivados para a cama (a fim de compromisso sério). Abel, aquele que é provavelmente o mais bem falante dos jogadores da Liga Sagres, ciente da inescapabilidade do abismo bávaro, fez o possível para não ir além de uma one night stand com o "breviário de insultos a equipas humilhadas". A zona mista é um lugar de difícil redenção.

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