DiCaprio

A propósito do Revolutionary Road, dizia o grande João Lopes que Leonardo DiCaprio é "provavelmente o actor mais subtil da geração de 70". O elogio em si, ainda que provocatório, não choca inteiramente quem vem acompanhando o percurso de DiCaprio, mas tive duas convulsões ao tentar conciliar-me com a adjectivação. Dei por mim a pensar que, falando em subtil, o único adjectivo que jamais me ocorreria para definir DiCaprio, João Lopes quis fazer um duplo statment. Concedamos, Leonardo DiCaprio fez-se um excelente actor e é um óbvio caso de exponenciação cronológica da arte de representar. Mas aquela cara é todo um programa. Seja em The Aviator, Blood Diamond, The Departed ou Revolutionary Road, fico sempre com a sensação de que sigo um excelente actor que em nenhum momento consegue fazer-me esquecer que sigo um excelente actor. Todo ele é esforço de representação e vontade de escapar aos constrangimentos impostos pela sua corporalidade. Ou seja, DiCaprio é um óptimo actor que nunca consegue ser convincente -- e muito menos subtil. À excepção de Celebrity, aquela carinha laroca é inverosímil em todas as personagens que tem incoporado (até a do Titanic). O que tem feito de DiCaprio um actor notável é o seu esforço em vencer o marcado abismo entre a figura de efebo e as personagens que lhe têm calhado em sorte (escolhidas a dedo, na verdade). Isso não é necessariamente mau, confesso o prazer em ver DiCaprio usar o sobrolho para arreganhar densidade à face, o prazer em ver os trejeitos que usa para seniorizar a presença, o prazer de o ver pegar no cigarro para se masculinizar perante mulheres feitas. A arte de DiCaprio, e a fatalidade provisória da sua juvenília facial, é ser um meta-actor, um actor que expõe a magnitude da inverosimilhança a ser vencida pela qualidade da representação, um actor que nos tira do filme para nos manter atentos aos momentos de "suspensão da descrença", os raros momentos em que somos devolvidos ao filme. Nesse sentido, Revolutionary Road é um registo que convém a DiCaprio, um filme de actores onde o excesso da linguagem teatral é deixado a descoberto.
Depois queria falar da Kate Winslet para chegar ao Mickey Rourke, mas fico à espera que vocês vejam o Wrestler.

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