Casamento entre pessoas do mesmo sexo II

Duas réplicas ao post anterior fazem-me retornar ao local do crime. A resposta ao João Galamba não se conseguirá furtar a algum "linguajar pseudo/quasi-antropológico", a resposta ao Vasco Campilho será, como ele reclama, numa "linguagem acessível ao comum dos mortais". Não fico chateado com quem quiser saltar para o ponto 2.

1- A análise do João Galamba acrescenta à leitura das posições que eu tinha colocado do lado da ansiedade radical ["É a posição daqueles que entendem que a transformação social deve ser fundada numa desconstrução epistemológica sem distinção de causas identitárias, de movimentos sociais ou de exclusões crescentemente reconhecidas como candentes. Esta posição não faz qualquer concessão ao tacticismo político"] .

O João critica os "pseudo-revolucionários" para quem "a luta pela transformação da sociedade se torna num projecto estético-existencial, o conteúdo substantivo das diferentes causas é secundário; o que está sobretudo em causa é o permanente gesto formal de rejeição". Na leitura do João, o radicalismo genuíno, aquele que olha para a adopção e para o casamento poligâmico/incestuoso, não como fait divers, mas como aspiração mais ambiciosa, não deixa de ser conservador:

a) conservador nas suas consequências - a agenda do tudo ou nada inconcilia-se frequentemente com conquistas parciais ou locais: pelos anti-corpos que activa e pela fragmentação dos movimentos que lutam pela emancipação.

b) conservador pelo primado do formalismo - a rejeição de transformações pontuais ao privilegiar posições estético-epistemológicas que não fazem concessões ao tacticismo político, negligencia pessoas e vidas concretas cuja medida de felicidade não tem que ser instrumentalizada, nem adiada, pela arquitectura das grandes narrativas de transformação.

Aqui chegados devo dizer que concordo largamente com o João. No entanto, a acusação feita aos autores designados pós-modernos (Foucault e Judith Butler), enquanto representantes da linha pseudo-revolucionária de matriz estético-formal, parece-me algo gratuita.

Ao salientar que toda a proposta de transformação tende a alimentar-se e reproduzir a normatividade prévia, Foucault não redunda num cinismo em relação às conquistas parciais, funda, isso sim, um regime de vigilâncias críticas passíveis de levar as lutas transformadoras a questionar em que medida os seus avanços são os estritamente necessários para que tudo fique na mesma (a hegemonia/o regime disciplinar moderno concede o mínimo necessário para se perpetuar). A apologia engajada de Foucault com as micropolíticas prova da sua capacidade em fugir ao comprazimento estético-formal dos jogos de linguagem.

Já crítica a Judith Butler é mais justa para a presente discussão, porquanto ela tem assumido posições pouco entusiastas (to say the least) em relação à luta pelo casamento homossexual. Judith Butler entende que a luta pelo casamento é uma concessão à tutela do Estado sobre a sexualidade e uma concessão à hetero-normatividade (para ela no porvir não deveria haver género nem orientação sexual, só corpos e prazeres). Neste contexto, a citação que faço de Judith Butler, e que o João reproduz, tem um sentido irónico de voltar as palavras da autora contra a própria. Ou seja, nos termos em que a repesco, a citação é lida não na exigência de ligarmos as conquistas presentes a horizontes futuro; mas sim como forma de sublinhar que a ansiedade pelas grandes narrativas tem de saber olhar, sem cinismo teórico, para os imperativos de reconhecimento de pessoas e grupos socais concretos. A conciliação que procuro reside nisto: as micropolíticas nas conquistas do presente não podem redundar numa celebração ingénua, incapaz de perceber a exclusões que ainda levamos connosco (ou as novas exclusões que poderemos estar a criar).

2- O Vasco Campilho assinala a candura com que eu exponho o verdadeiro domínio da luta quando me julgo a coberto de um "regime de semi-clandestinidade". É verdade que fiz gala da minha irresponsabilidade para poder assumir as posições sem me preocupar demasiado com algum tacticismo, que às vezes entendo ser necessário em política. É verdade que o fiz um pouco por auto-ironia -- não resisto à estética depreciativa do eu, narcisismo imperdoável na discussão política. Mas também é verdade que estabeleço um contraponto mais sério entre capacidade de influência dos blogs, onde falamos uns para os outros, e a capacidade, por exemplo, de um programa como o P&Cs, onde a audiência e a identificação com uma causa exorbitam a responsabilidade de quem fala.

Respondo agora à tradução que o Vasco faz do meu post (basicamente eu proporia o casamento entre pessoas do mesmo sexo como um cavalinho de Tróia para a alijar o caminho para o casamento incestuoso/poligâmico e para a adopção por homossexuais -- estão a adivinhar as lágrimas e o ranger de dente que não será?).

Em primeiro lugar, vejo o casamento entre pessoas do mesmo sexo como algo importante em si. Porque iria acabar com uma discriminação de importantes repercussões legais na vivência da conjugalidade, e porque iria dignificar, social e simbolicamente, as relações entre pessoas do mesmo sexo, contribuindo, por isso, para o fim a discriminação vivida pelos gays em Portugal (gays que se suicidam pela incompreensão da família, gays que jamais se atrevem a sair do armário, gays que na vida social e profissional estão sujeitos às mais variadas formas de depreciação e marginalização).

Posto isto, cabe distinguir duas questões. a) a adopção por casais homossexuais; b) casamento incestuoso/poligâmico.

a) É óbvio que a possibilidade de adopção por casais homossexuais pode vir a beneficiar do caminho aberto pela legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eu sinceramente hesito quando me coloco a questão: será que as agendas não deveriam ser reunidas, à semelhança do que aconteceu em Espanha? Mas tendo em conta que "a sociedade ainda não está preparada" e que o PS não é o PSOE, aceito o pragmatismo de quem entende que se devem separar as agendas até a "sociedade estar preparada" ou até o poder político ganhar coragem.

b) Repito: eu sou favorável a que dois irmãos se possam casar. Quem teme a degenerescência da espécie pode ficar descansado que a fortíssima condenação social jamais permitiria que o facto se trivializasse. Mas há situações em que duas pessoas que se amam há muito vêm a descobrir que são irmãos (Vasco, não vês novelas?): não serei eu a achar que não se podem casar. Também sou favorável ao casamento poligâmico salvaguardado o princípio constitucional de igualdade entre os sexos. Como Vasco Barreto bem frisou, estas questões pouca afinidade têm com casamento homossexual em termos de agenda política: porque não têm uma dimensão identitária (não o diria do casamento poligâmico, dada a questão religiosa) e porque não têm sido defendidas politicamente como dimensões importantes de exclusão na sociedade portuguesa. Assim sendo, reitero o que disse, o casamento incestuoso está a ser usado fundamentalmente: a) como fait divers criador de alarme social para impedir o casamento gay: b) como sinal de sofisticação intelectual, por quem quer mostrar que pertence à verdadeira vanguarda dos costumes.

Comments:

Enviar um comentário

Comentários



<< Home