Casamento entre pessoas do mesmo sexo

Sobre este post do Vasco Barreto:

Concordo com o Vasco quando ele diz que nenhum fundamento jurídico separa a discussão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, de um lado, do casamento incestuoso e poligâmico, do outro (embora não seja indiferente ao sábio fundamento legal que Isabel Moreira apresentou no P&C). No entanto, para sabermos com quem discutimos, vale a pena identificar as duas linhas de ansiedade que têm trazido o casamento poligâmico e o casamento incestuoso à presente discussão.

1- A ansiedade conservadora. É posição daqueles que são contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas que, à falta de melhores argumentos, ou com receio de exporem o seu conservadorismo, avançam com um suposto radicalismo (tudo ou nada) que mais não pretende do que gerar anti-corpos em relação a qualquer extensão legal do casamento-sacramento.

2- A ansiedade genuinamente radical. É a posição daqueles que entendem que a transformação social deve ser fundada numa desconstrução epistemológica sem distinção de causas identitárias, de movimentos sociais ou de exclusões crescentemente reconhecidas como candentes. Esta posição não faz qualquer concessão ao tacticismo político.

O texto do Vasco Barreto dialoga inteligentemente com o segundo grupo (se o existe). No entanto, e aqui concordo com o Miguel Vale de Almeida, enfatizar a necessidade desta discussão enquanto incontornável pode fazer o jogo do primeiro grupo: o jogo dos conservadores camuflados de Judith Butlers indígenas. Fugir a outros debates, como explicitamente fez o Paulo Côrte-Ral nos Prós e Contras, evitando falar da adopção, pode ser uma evidência de temor (João Galamba), mas também pode ser um sinal de maturidade política e de sentido estratégico.

Eu, porque sou lido em regime de semi-clandestinidade, posso dizer tranquilamente que sou a favor do casamento entre irmãos. A quem está obrigado a outra visibilidade percebo perfeitamente que se cinja às discussões com pertinência social e identitária, que evite anti-corpos, ponderando, a cada passo, da viabilidade política da sua agenda. Nenhuma capitulação. Às vezes tudo é nada. Sem fatalismo, avançamos sempre criando outras exclusões.
Judith Butler: it is important to resist that theoretical gesture of pathos in which exclusions as simply affirmed as sad necessities of signification. The task is to refigure this necessary “outside” as a future horizon, one in which the violence of exclusion is perpetually in the process of being overcome."



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