Vozes na tela

"Com o ouvido e cheiro apurados, os homens desse tempo [século XVI] tinham, sem dúvida alguma, o olhar penetrante. Mas não tinham posto de lado ainda os outros sentidos”. LucienFebvre, 1947, O Problema da Descrença no Século XVI
Pondo de lado qualquer nostalgia medieva, o memorioso Febvre ilustra o calamitoso processo de especialização que lamarkianamente nos tem feito perder uso dos sentidos (o olfacto hoje em dia só serve para tirar as moelas do lume). A cultura moderna padece de um centrismo visual que não poderia deixar de ter repercussões num certo estreitamento dos indicadores da atracção (estranhamente Febvre não fala disto). Refiro atracção exactamente porque é nessas primícias do desejo que o domínio da visão é mais esmagador. Nalguma medida, a intimidade define-se pelo advento do tacto e pela importância que o olfacto adquire na fenomenologia do aconchego.

Já a voz é um elemento que não se dobra a este tipo de crescendo íntimo. Ela não aparece com o estreitamento da relação. Para o bem e para o mal, está sempre lá. Num ambiente cultural que a remete à quase clandestinidade, ela, a voz, não deixa de ser uma espécie de eminência parda: uma presença raramente tematizada mas responsável por importantíssimas nuances nas empatias erótico-sentimentais.

Depois há o contra-texto, e aqui queria chegar: aquelas presenças em que a voz, por singular, arrepiante, avassaladora, cativante, chorosa, se faz tema exuberante e ancora os demais sentidos. No cinema acontece-me muito. Não é raro o caso de actrizes que fatalmente fascinam pelo modo como baralham a hierarquia sensorial. Nelas o corpo visível é questão menor, tudo em mim é ouvidos. Alguns exemplos: Ludivine Seigner, Cate Blanchett, Lauren Bacall, Scarlett Johansson, Adrienne Shelly, Katherine Hepburn.



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