Entretanto na Palestina

Os declarados preconceitos na leitura histórico-política que faço da situação israelo-palestiniana cedem à gravidade humanitária do momento -- afinal o humanitarismo é a política dos tristes, em que desgraçadamente me instalo--, coloco-me nas proximidades da clemência como argumento dos pedintes -- o único argumento que o cínico realismo das relações internacionais remotamente consente.

Tratado o fervor da indignação com os habituais banhos de impotência, tento perceber o cálculo para a invasão israelita de um ponto de vista estritamente securitário (a protecção dos cidadãos israelitas), como se estivesse na pele de Ehud Barak. Excluo a hipótese de uma perversidade eleitoralista. Excluo o voluntarismo do ódio e postulo que o governo eleito mais não faz do que salvaguardar os interesses seus representados. Tudo teses generosas.

Israel procura destruir as condições logísticas que permitiam ao Hamas o lançamento de rockets, e, num sentido mais amplo, procura destruir o poder para-militar do Hamas (sub-repticiamente apoiado pelo Irão e pelo Hizbolah, eliminando também os seus quadros). Não acredito que depor politicamente o Hamas seja a agenda secreta porque ninguém é estúpido o suficiente para julgar que é assim que se fortalecem os moderados face aos extremistas. Procura ainda aproveitar a justificação política dada pelos rockets para uma incursão militar que venha a redundar num cessar fogo tão vantajoso quanto possível (já tinha feito o mesmo aquando do rapto dos soldados no Líbano). A questão é que com os recentes bombardeamentos e com a invasão terrestre em curso, a consequência sócio-política não pode deixar de ser o fortalecimento da base social, seja do Hamas seja de qualquer movimento extremista que, em busca de pretexto ou legitimação, apele ao ódio contra os interesses de Israel ou dos seus aliados.

Portanto, o cálculo israelita pondera o pró da fragilização militar de um inimigo localizado e identificado e o contra do acréscimo de militância anti-Israel que previsivelmente se gerará no mundo islâmico. Mesmo que o Hamas seja destituído em toda a linha dos recursos para-militares com que empreendeu os recentes ataques, não custa supor que a via terrorista, na Palestina ou noutro lugar do mundo, terá dramaticamente alargado o campo de captação de bombistas suicidas. Sem outras interrogações, com sincero esforço, não vejo de que modo os ataques em curso se possam vir a traduzir num acréscimo de segurança para Israel ou para os seus cidadãos.



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