Feliz 2009

"Que razões há para postular que já existe o futuro?" Borges, Outras Inquirições
O reveillon é um rito movido por medo ancestral. Primeiro, o medo metafísico que não exista um futuro, depois, o medo ritual que o ciclo dos anos cesse caso se suspenda a adoração festiva que pontua as passagens. A fé no futuro antes de ser subjectiva e biográfica, afeita a balanços e objectivos, é a reacção colectiva ao pânico da extinção calendária do tempo. A ansiedade da contagem decrescente nasce da incerteza de continuarmos pelos negativos adentro.

O som e o sentido

"Pronto, já bateu."

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"A Erotomania, ou loucura amorosa, é grande enfermidade"

Medicina Teológica, 1794:

"O segundo grau (o primeiro é a nostalgia) a que sobe a enfermidade do amor, é a Erotomania, ou aquele amor com que em silêncio se busca a presença do objecto amado, suspira-se em segredo, e quando os amantes se encontram, tratam-se com um respeito singular, mas porque na Cidade e no Campo nada fazem sem relação ao seu dito objecto amado, julgando uma vezes que o estão vendo nas pessoas com quem falam e outras vezes escrevendo seus nomes até sobre as cascas das árvores; já dirigindo-lhe a palavra como se estivessem presentes, já entregando-se a extravagâncias fantásticas, imitando enfim ao valente D. Quixote nas loucuras que lhe sugeria seu amor à sua amada Dulcineia;por isso se chama a este amor Erotomania, enfermidade, ou loucura amorosa.

Há duas espécies nesta enfermidade dos amantes: a primeira, : a produz nos enfermos a tristeza e o retiro; amantes gostam da solidão, fogem da sociedade, e continuamente são afectados de uma doce melancolia; correm às vezes com abundância de seus olhos lágrimas, suas vistas são ternas e apaixonadas, suas posturas, seu falar, seu andar são lânguidos, em uma palavra toao o seu viver é um doce delírio de que gostam suas almas.

A segunda espécie de Erotomania é aquela que produz efeitos mais vivos, onde os enfermos perdem o apetite de comer e dormir, sustentam uma inquietação oculta que os devora, ciúmes que os consomem, mil desejos violentos que os agitam e um fogo oculto que os abrasa, com que as funçôes de seu espírito se alteram bem depressa e os amantes caem então em um delírio frenético, a que sucede o furor e a raiva que os conduzem a precipícios funestos.

...devem pois os Senhores Confessores saber que esta enfermidade ataca principalmente aquelas pessoas que não tendo ainda muito uso do mundo, ou que só o tem, possuem um génio mui dócil e afável em que qualquer objecto faz impressões que sobrevêm de novo.

Precauções necessárias para acalmar a agitação dos humores, diminuir a sensibilidade dos nervos, que são as duas causas imediatas de toda a Erotomania. 1. Por remédios refrigerantes, e adoçantes, como sangrias, sanguessugas, purgativos antiplogísticos, banhos frios, leite misturaio com chá de Golfães e as emulsões das quatro sementes frias. (...)"

in
Dias, Manuel, 1989, Exorcismos e Feitiços da Medicina Popular, Mem Martins: Europa-América.

Simetria

Passeio-me pelo Jugular e deparo-me com uma série de posts (Miguel Vale de Almeida, Palmira F. Silva, João Galamba) que, a propósito do conflito Israelo-palestiniano, assumem a posição inatacável, a posição de quem reconhecendo a distribuição mais ou menos equitativa dos erros em conflito (ou a enorme complexidade da questão, na formulação da Palmira) se coloca acima da discussão para denunciar a clubite reinante. Não é que estejam falhos de razão, não estão, mas o que a mim me incomoda, mais ainda que do que a sobranceria discursiva do olhar-de-deus, é o modo como conseguem negligenciar a desproporção das relações de poder para se enlevarem com as facilidades da simetria.

Anti-semitismo, dizem eles

Vale ouvir a entrevista de Robert Fisk no Pessoal e Transmissível, ainda que seja só para atentar naquilo que ele diz acerca de quem o acusa de anti-semitismo (a ele e a quem se oponha às posições políticas do Estado de Israel). Pelo minuto 17:
"anti-semita (...) é a maior calúnia que se pode lançar sobre alguém que se atreva a criticar Israel. (...) Pessoas que usam a expressão anti-semita contra gente decente estão a tornar o anti-semitismo respeitável, o que é vergonhoso."

Capas insuspeitas



Dans Paris.

Aquecimento global homo

A comparação entre a heterossexualidade e as florestas tropicais só pode fazer sentido se considerarmos que a homossexualidade, tal como a poluição ou o aquecimento global, coloca en perigo o património heterossexual da espécie. Vá-se lá saber porquê, mas à igreja católica não custa imaginar um mundo em vias de não procriação, um mundo em que os heterossexuais paulatinamente vão cedendo aos encantos do aquecimento homossexual do planeta. A questão é que esse receio mais não é do que a límpida sacralização da homossexualidade enquanto algo que, se tolerado, substanciará uma tentação irresistível e, portanto, capaz comprometer o futuro da espécie (aliás, a oposição aos contraceptivos percebe-se melhor agora, porventura uma forma de combater a diminuição da natalidade num mundo em que a heterossexualidade, pouco segura de si, está em fatal retracção).

Dar razão ao papa é ratificar a homossexualidade como algo próximo de um instinto fatal. O que até se percebe vindo de onde vem, ora, deixemo-nos de rodeios: o desejo homossexual (reprimido, mal dirigido) é constitutivo da ICAR e, por consequência, dos medos fantasmáticos que ela exporta para o mundo. O facto é prosaico: a mundividência da Igreja católica tem uma orientação excessivamente gay, teleologicamente falando.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.


Playboy PT

Ouço no governo sombra que em 2009 Portugal contará uma edição nacional da revista Playboy. Alguém defende (seria o Mexia?) que o erotismo é coisa de somenos no eventual impacto cultural da revista, poderá tê-lo, isso sim, afirma, se a Playboy fizer jus a uma menos conhecida tradição de boa prosa. Curiosamente é precisamente no campo fotográfico que eu coloco alguma expectativa. Desde logo pela curiosidade em saber qual a iconografia erótica a ser adoptada. Se o modelo americano de luminosidade glamorosa, estilo photoshop explícito, com vínculo privilegiado às mamas; se o modelo brasileiro onde a afectação imagética dá lugar a uma estética mais crua, mais resolutamente carnal, e onde o anelo pelo bumbum secundariza grandemente a acareação às mamas.

Segundo, tenho curiosidade em verificar se a Playboy Portugal, à semelhança do que aconteceu no Brasil, contribuirá para tornar mais respeitável a exposição da nudez (aqui jaz a hipótese sociológica mais instigante: não, ainda não vimos tudo). Se assim for, poderemos ter trivializada a aparição de figuras públicas que doutro modo jamais tirariam a roupa para capas de revista. Isto é tão mais importante conquanto uma das narrativas eróticas mais persuasivas consiste exactamente no efeito de des-solenização (suponho que haja sites dedicados à matéria), enredo que exige a consistência de uma impossibilidade prévia.

Assim, aguardo por aquela que será a primeira decisão editorial de monta na definição da identidade da revista: a quem caberá a primeira capa? Sei que não me pagam para isto, mas sempre avanço com a sugestão majestática: Ana Ribeiro (jornalista, RTP).

Avulsos

Manuela Moura Guedes: Aqui entre nós: a política é uma coisa muito estranha!
Vasco Pulido Valente: "Estranha" não é a apalavra.
Se pensarmos nas profecias recentemente falhadas por VPV, esta resposta é ainda mais tocante.

30 dinheiros


Legenda: À direita, de costas, Paulo Assunção, actual jogador do Atlético de Madrid. Futuro traidor. Ao centro, uma estratégia localizante de Mateus 18:20.

Química

Partilhar posições preferidas para os clíticos.

Sem regras muito claras (pouco domino da gramática), defendo a próclise moderada -- acho que o suficiente para não melar demasiado a oração. Confesso que certas ênclises me perturbam.

Sapato

Bush desviou-se a tempo mostrando excelentes reflexos. Ainda bem, se o sapato lhe tem acertado não ia resistir a ficar com pena, facto que poderia atrapalhar o limpo desprezo que lhe tenho. É nestes momentos que percebo que nunca daria um bom quadro revolucionário. Sou um mole.

Avulsos

"Cruyff siempre colocaba a un jugador en cada extremo, aunque no lo fuera. Guardiola también lo hace. Por desgracia, les vale casi cualquiera en esa posición. Y el tal "cualquiera, por más genio que sea, por mucho que se llame Messi, Iniesta o Henry, acaba yéndose al centro, incapaz de soportar la dureza y la melancolía del puesto. El medio centro está lejos de todo, pero tiene alrededor a sus compañeros. El extremo está aún más lejos de todo, incluyendo a sus compañeros, y sólo tiene tratos con un defensa empeñado en sacarle del campo a tarascadas." Enric González, El País.

Ladies Night

Alguns "autores" defendem a existência de duas linhas de mulheres: as que se conhecem na pista da dança e as que se conhecem na biblioteca. Trata-se de uma dicotomia arbitrária, para mais puritana, que demarca espaços de oferta cultural como se as pessoas não os variegassem. Insustentável? Nem tanto, pode ter pertinência como fetiche ou como superstição. Por exemplo, César descrê das mulheres achadas na pista. Não por alguma persuasão puritana, é apenas o sistema de defesa de uma alma azarada olhando para o passado como uma espécide de tragédia estatisticamente significativa.
No fundo, a tragédia é prosaica: não há bibliotecas abertas à hora em que a solidão lhe reclama companhia. O facto de ter conhecido Lara na Scotch também não ajuda.

É bom voltar a casa


Historietas da infâmia

A propósito da ida de Ronaldo para o Corinthians (após recuperar de grave lesão no Flamengo), a Marca lembrou-se de eleger os 20 maiores traidores da história do Futebol.

Sempre que um jogador parte numa traição infame, há algo no íntimo do adepto que se achega ao lamento celebrado por Nelson Rodrigues: "Perdoa-me por me traíres". O ódio ao traidor nunca vinga em calar plenamente a pergunta castigadora "onde é que eu falhei?"; nem toda a raiva aos conspiradores suprime o peso de uma injusta auto-flagelação. É nisso que traição se cumpre plenamente como perversidade. (o número de argentinos na lista dá conta de um requintado nominalismo, é cultura simbólica do traído definir como traição o futuro de um adeus).

"1) Figo. Del Barça al Real Madrid.
2) Roberto Baggio. De la Fiorentina a la Juve.
3) Ruggeri. De Boca a River Plate.
4) Sol Campbell. Del Tottenham al Arsenal.
5) Batistuta. De River a Boca.
6) Romario. Del Flamengo al Fluminense, previo paso por Vasco da Gama.
7) Cruyff. Del Ajax al Feyenoord.
8) Caniggia. De River a Boca.
9) Hugo Sánchez. Del Atlético al Real Madrid.
10) Mo Johnston. Del Celtic al Glasgow Rangers, previo paso por el Nantes.
11) Tardelli. De la Juve al Inter.
12) Luis Enrique. Del Madrid al Barça.
13) Krancjar. Del Dinamo Zagreb al Hajduk Split.
14) Paul Ince. Del West Ham al Manchester United.
15) Laudrup. Del Barça al Madrid.
16) Aldo Serena. Del Torino a la Juve.
17) Cáceres. De River a Boca.
18) Denis Law. Del Manchester United al Manchester City.
19) Schuster. Del Barça al Madrid.
20) Gatti. De River a Boca."

Ouvido numa lanchonete em Belo Horizonte

"Não estamos ficando mais. Não adianta, mulher bonita não sabe dar colo mesmo".

Nem tudo é Divinópolis

Como era bom de prever, toponímia à parte, é Ouro Preto que melhor se dá à encomenda de Santo Agostinho ("Divinópolis" joga claramente com a ironia). Num balanço ainda provisório, assim se cumpre a definitiva redenção de Minas Gerais

Divinópolis

Eu sei que isto parece estranho.