Feira

Enquanto a fina flor andava na Fnac a aproveitar os dias do aderente, eu corria as bancas da Feira do Bairro Norton de Matos a fim de umas achegas à minha toilette invernal. Com a popularização de Foucault, a minha identidade depende cada vez mais dos consumos de desprestígio.

O som e o sentido

"Roubas-me sempre os lençóis."

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O som e o sentido

"Está à espera de alguém?"

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O som e o sentido

"Tem tabasco?"

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O som e o sentido

"Acordei-o?"

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Claude Lévi-Strauss: 100 anos

Claude Lévi-Strauss (n. 28-11-1908)


"Durante semanas inteiras, nesse planalto do Mato Grosso Ocidental, tinha estado obcecado, não mais por aquilo que me rodeava e que eu não voltaria a ver, mas por uma melodia muito batida que a minha recordação ainda empobrecia mais: a do Estudo número três, Opus 10 de Chopin, na qual me parecia, por uma ironia a cujo amargor eu também era sensível, que tudo que deixara para trás de mim nela se resumia" (Lévi-Strauss, Tristes Tropiques).

Chopin, Estudo Op. 10 Nº 3

Avulsos

"Só compreendemos a ausência ou a morte de um amigo no momento em que esperamos dele uma resposta e sentimos que ela não existirá mais; por isso, primeiramente evitamos interrogar para não ter de perceber esse silêncio; nós nos desviamos das regiões de nossa vida em que poderíamos encontrar esse nada, mas isso significa que nós as adivinhamos." Maurice Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção

Que o Porto não repita o erro da Marta Leite Castro

Lisandro Lopez

Renove-se esse contrato.

Alfarelos

Segundo o Público, escolher o nome dos filhos a partir do lugar onde foram concebidos está a virar moda séria. Paris Hilton e Brooklyn Beckham são apenas alguns dos exemplos mais conhecidos.
Depois daquela loucura no inter-regional com o irlandês, enquanto não se cumpriam as regras, Lara ainda pôs a hipótese de um Alfarelos O'Donnell.

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As I am

A Charlotte iniciou a corrente, a Sara desafiou-me. Não sem me sentir sobre-exposto, aqui está o meu cromo:


Passo a corrente ao Pedro Vieira.

Once (2006)



Para os devidos efeitos, o realismo do screenplay concilia-se com aquilo que há de mais verosímil no romantismo exacerbado. Na verdade, mais que a vocação efabulatória, tanto quanto a nostalgia, é a possibilidade real ou verosímil de uma história que coloniza a subjectividade romantizada. Temos pois um delicioso musical não mais meloso do que tantas vidas submetidas à dúvida razoável ("e se..."). O romantismo como uma dolorosa "hermenêutica da suspeita".

Upgrade your template

A fim de umas funcionalidades inúteis, o blogger faz-me proposta indecente: "Upgrade your template". Já foi tentado, não resulta. Quanto ao template do blogue, elegante generosidade de uma estranha, nem pensar.

6-2

Proponho que Queiroz vá mais 10 anos para adjunto de Fergusson até estar realmente preparado para desempenhar funções como treinador principal de equipas séniores, quanto mais de selecções de topo. No que diz respeito aos comentadores da TVI -- os mesmos do Sporting-Porto--, apesar do meu optimismo doentio, concedo, seria patético acreditarmos numa qualquer margem de progressão.

Entretanto, ele voltou:
Maradona

Democracia

É escusado tentarmos perceber se Ferreira Leite acredita ou não na democracia. Apesar de tudo, os tempos são outros, que a democracia não acredite nela é mais do que suficiente.

Dias Loureiro

O PS não quer que dias Loureiro seja ouvido em audição parlamentar. Há momentos em que a família deve esquecer pequenas diferenças.

Manuela Lenin Ferreira Leite

"E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia"
Ditadura do proletariado, versão "o povo, essa maçada".

Bogart-Bacall


[Sid Avery, 1952] Lauren Bacall e Humphrey Bogart, LA.


Juntos, na saúde e na doença ("Bogart-Bacall syndrome").

O complexo de Ibra

Há muito de verdade na graça de Mourinho após o jogo com o Palermo: Ibrahimovic tem o defeito de só marcar golos bonitos. Tenho que concordar. Para facturar mais assiduamente Ibra teria que se libertar de certa exigência estética para então cortejar, com outra desfaçatez, ressaltos, remates enrolados, frangos, golos com o rabo. Ibrahimovic padece de estreiteza de imaginação predatória por motivo de um vínculo demasiado apertado com a beleza extrema. Vendo-o jogar percebemos o quanto as suas execuções, ainda que ansiosas por golo, ainda que devotadas à causa comum, procedem limitadas pelos rigores da elegância e por uma débil transigência para com a glória fortuita. Oxalá que não se estrague.

Avulsos

"escolhido:
A tentação é mais uma forma da arrogância."

José Bragança de Miranda,
Reflexos de Azul Eléctrico

Yesterday Man

"É tanto mais uma função da democracia dar voz aos cidadãos, quanto eles fechem a matraca até terem algo para dizer."
Bons olhos o leiam. Julinho, silêncios como o seu, senão da bondade da tortura,  provam da urgência de um constrangimento enunciativo que iterativamente  (e interactivamente, pois claro) crie uma expectativa capaz de elicitar a coisa dita ao mesmo tempo lhe prefigura o valor. O "algo", se quiser, como posteridade dialógica a despeito de Habermas ou da democracia (o narcisismo partilhado refuta Habermas, e no entanto credita-o). Por falar nisso, aguardo resposta (refuta-me que eu gosto). 

Browser

Uso o Internet Explorer para instalar o Firefox. Uso o Firefox para instalar o Chrome. Com requintes de "na tua cama com ela", o explorador resulta sempre explorado.

Savora

É triste ter que chegar a esta idade para perceber que a mostarda sozinha faz uma excelente sande.

Socialismo de oportunidade

A certa altura, Vítor Constâncio dizia que no sistema de capitalismo e mercado livre em que vivemos certas fraudes são simplesmente impossíveis de detectar no momento em que acontecem. Estranhamente, o PCP e o Bloco não pegaram nisto para embalarem na crítica paradigmática de um contrato social largamente subsumido aos imperativos de acumulação capitalista. Como não fosse essa a discussão, e não era, indignaram-se com as assombrosas falhas da regulação estatal e propuseram medidas legislativas para melhor controlar os esquemas manhosos do mundo financeiro. Curiosa inversão em que nem um nem outros podiam levar a sério as próprias palavras: enquanto Constâncio sacudia a capota com uma fantasiosa crítica ao capitalismo, o PC e o Bloco fingiam acreditar no capitalismo regulado pelo Estado da hegemonia (aka bloco central).

"Finalmente um talk show com conversas e rubricas interessantes"

Sinceramente, vide: "O Programa do Aleixo".

Exorbitar disfunções

Por estar ciente dos desequilíbrios do plantel e por perceber que Jesualdo não consta da lista de convidados à festa em que todos os anos se repartem as comissões entre os administradores da SAD e os empresários electivos -- aquilo que em linguagem desportiva se chama a "definição do plantel" -- bem tento entrar na cabeça do homem tomando como boa a hipótese de que ele define os onzes animado por algum tipo de racionalidade (apesar de tudo Philip K. Dick tinha uma cabeça mais acessível). Tem sido um esforço exaustivo e sinceramente sinto que desistiria não fosse o facto de esta violência empática me ter levado a descortinar um importante princípio lógico; refiro-me à identificação de um meticuloso plano de formação, em curso, pelo qual Jesualdo visa conferir rudimentos básicos de lateral-esquerdo a todos atletas legalmente inscritos no Futebol Clube do Porto (Benitez, Tomás Costa, Mariano Gonzalez, Pedro Emanuel, Fucile e Lino já fizeram esse módulo; Guarin, Hulk e Aurora Cunha aguardam oportunidade) .

O Sporting jogou melhor -- nada me custa dizer que merecia ganhar. O Porto, algo dependente do espírito combativo, de alguns lampejos individuais e da capacidade de aceleração do Rochemback, esteve, mais uma vez, obscenamente dependente da sorte. Até porque conseguiu ser a equipa mais roubada (note-se que Bruno Paixão coloca a fasquia muito alta), facto que, talvez injustamente, ajuda a mitigar a sensação de uma vitória injusta. À sorte da vitória, junta-se a sorte moral que faz do Porto a vítima verosímil do jogo de ontem. É muita sorte.

Pelo sim pelo não, no próximo jogo estarei prevenido com uma generosa caixa de Lexotan.

Avulsos

"Sarah palin has been tagged and reintroduced into the wild." Jon Stewart, Daily Show

Avulsos

"Nation Finally Shitty Enough To Make Social Progress: (...) Carrying a majority of the popular vote, Obama did especially well among women and young voters, who polls showed were particularly sensitive to the current climate of everything being fucked. Another contributing factor to Obama's victory, political experts said, may have been the growing number of Americans who, faced with the complete collapse of their country, were at last able to abandon their preconceptions and cast their vote for a progressive African-American." The Onion

O senhor Borges


Borges, na voz da empregada que o serviu ao longo de 30 anos. Por lá passam o Beppo, a senhora Leonor, o Adolfito, Viviana Aguilar, María Esther, os três dentes. Sobre Maria Kodama, recentemente recebida em gala ali para os lados da Biblioteca Nacional, melhor não falar.

Avulsos

"Todo o romance é histórico." Saramago, Pessoal e Transmissível
Acho que Saramago falava de livros, não liguem.

Change

A mudança trazida por Obama ao mundo já se começa a notar: o Porto ganhou um jogo.

McCain

Segui com atenção o discurso de McCain. Do ponto de vista estritamente textual, não me custa reconhecer que foi o melhor discurso da noite. Obama, numa atitude conciliadora e presidencial, sóbrio e contido, não quis exaltar demasiado a sua narrativa pessoal como uma teleologia racial da história americana. Não foi auto-centrado e sobretudo evitou usar um tom triunfalista que hostilizasse deterninada América que continuará inconformada com a sua eleição (por exemplo, nos estados do Sul Obama teve menos votos que os seus antecessores democratas, sinal que ali race matters). Obama passou ao lado de um discurso épico mas manteve a inatacável postura ética que revelou ao longo de toda a campanha: não lhe cabia, como a Martin Luther King em 1963, inflamar a esperança, cabia-lhe aceitar serenamente o desígnio de uma nação reconciliada com o seu passado racista, cabia-lhe carregar com sentido de responsabilidade o peso da esperança nas nas suas costas: a esperança de um mundo multi-lateral pós-Bush e a esperança numa economia mais regulada.

O discurso de McCain mostrou todos os paradoxos que marcaram o seu percurso como candidato republicano. Falou com a dignidade e a grandeza de um self-righteous man, o mesmo que recusou ser libertado do Vietname para cumprir o código militar segundo o qual os primeiros detidos são os primeiros a partir -- com isso passou dois anos mais sob continuadas torturas; o mesmo que tem atrás de si uma carreira política marcada pela independência e pelo respeito dos adversários partidários; o mesmo que nunca se quis confundir com a direita religiosa e que soube demarcar-se de Bush em questões tão cruciais como a tortura. Mas enquanto ele falava, cumprimentando amavelmente o adversário, os seus apoiantes apupavam raivosos, incapazes de conceber qualquer referência elogiosa a Obama. Seria confortável pensar que naquele momento duas visões se esgrimiam, a decência de McCain e o fundamentalismo das bases republicanas. Mas infelizmente esse não é bem esse o caso.

O paradoxo e a contradição estão no próprio MCcain e no modo errático como conduziu a campanha. A verdade é que por demasiadas vezes se deixou levar pelas tácticas sujas do GOP que tudo tentou para levantar uma dúvida razoável sobre a ameaça Barack Hussein Obama. McCain a certa altura demarcou-se da sua história pessoal para cumprir os princípios estratégicos do GOP emblematicamente assinalados com uma inenarrável Sarah Palin. Palin, de uma confrangedora indigência intelectual, foi a principal voz de uma série de golpes baixos: Obama é um abortista, passeia-se com terroristas, é um socialista, não sabemos quem ele é, etc. Enquanto McCain aceitava a derrota falava um velho McCain de cujas visões políticas não podia discordar mais (política externa, política fiscal), mas que me merece todo o respeito. Mas aqueles apupos que, ao longo da campanha, ele tanto alimentou quanto calou são também parte da sua aceitação: o memorando de uma campanha suja, uma campanha que não seria a sua, mas que levou o seu nome.

Great expectations



À espera de ouvir Obama discursar.

Champagne

Já estive mais sóbrio.

Isto está lindo (por uma vez, sem ironia)

Ohio, já está. New Mexico, já está.

Saramago

Reparei agora que o Saramago também está a seguir as eleições em franco live blogging.

Eu sou assim, pouco avisado

O Champagne está no frigorífico. Sabendo da carga implicada em soltar aquela rolha e mais sabendo da longa noite que me espera, foi no mínimo imprudente não me ter munido de uma grade de minis.

Nuno Rogeiro

Há pouco na SIC Notícias a fazer o número do "Eu vi o Obama primeiro".

Florida [1:09 GMT]

18% of precincts reporting:
Obama- 55%
McCain- 45%

Fonte: CNN

Azul

Deixo-vos um excelente site para irem pintando o mapa à medida que forem saindo os resultados. Sim, é possível pintar em negação.

Ponto da situação

De uma sms:
"Eu estou nervoso é com o Obama, o Sporting que se foda"
Garanto-vos, a coisa é séria.

In Bruges



A ver. Também recomendo a cidade que , num enredo mais afeito a todo aquele cozy outonal, conheci há precisamente 2 anos. Em ambos os casos, the coziness endures.

Sofrer em palco

Ontem no comício em Charlotte, Carolina do Norte, Obama teve de discursar poucas horas após saber da morte da avó. Firme, subiu ao palco e não se perturbou quando começou por homenagear a falecida octogenária como uma das muitas lutadoras na América, daquelas cujo nome não vem nos jornais, mas cuja vida dá conta de um dedicado empenho ao próximo. É só depois, quando Obama começa a enunciar a cassete retórica que tem usado nestes últimos dias, rally após rally, que damos em ver umas discretas lágrimas; a custo, ele vai tentando disfarçar. Impressionado pela densidade do momento, tento interpretar o tempo dessas lágrimas em várias hipóteses.

1- A comoção torna-se manifesta quando Obama retoma um discurso ensaiado, discurso que, por ter sido várias vezes repetido ao longo destes dias, o leva a abrandar a concentração e a deixar-se vaguear, já solitário, pela memória da avó.

2- A comoção torna-se manifesta quando Obama deixa de falar na avó e avança para a coisa política, de repente reduzida à sua dimensão ritual e performativa. A política espectáculo, pois. A necessidade de seguir em frente, de volta às mundanidades e às urgências da vidinha, é uma crueldade no adeus, uma crueldade particularmente difícil de consentir.

3- A comoção torna-se manifesta por força de uma justa auto-comiseração, porventura vinda da consciência do estoicismo que lhe estava a ser exigido ao ter de continuar na mais difícil das circunstâncias. Auto-comiseração também por saber que, por umas meras horas, por umas ridículas horas após 47 anos de coexistência, hoje, quando se souberem os resultados, não terá nenhuma mãe com quem partilhar as notícias.

Obama

Não sei se a clique local anti-Obama tenta proteger a esquerda das suas ilusões ou se, por outro lado, tenta salvar o mundo das convicções alimentadas pela ilusão. No primeiro caso, mais comum, temos um comovente paternalismo. No segundo, o medo de que a ilusão intervenha na realidade antes que ela tenha tempo de devolver a conta da fantasia. Esse medo seria razoável enquanto clássico receio da megalomania revolucionária, mas, como amavelmente nos avisam, esse perigo não existe (já o sabemos, Obama está longe de ser de esquerda, será uma realista, nacionalista, pró-Israel, defensor do Império). Na verdade, é o mero valor político da esperança que os repugna -- a que se junta alguma clubite (não confessa) na véspera de uma possível derrota.

P.s. A avó de Obama, a mulher que praticamente o criou, acabou de falecer. A um dia da eleição. Que abuso simbólico.

CAA, obrigado

Aqui temos um exemplo acabado das sábias contribuições da direita iluminada para ajudar a esquerda a lidar de forma menos equivocada com Obama. Pedante e básico? Apenas instrutivo. Mais uma vez, obrigado.

Por excesso

"Se a memória não me trai" é uma expressão corriqueira quase sempre usada para dar respaldo a uma inexactidão devida ao esquecimento. Certamente tenho os meus lapsos e não raro um nome fica a martirizar-me horas debaixo da língua. Mas acho abusivo que se invoque uma traição da memória para referir um trivial esquecimento. Se virmos bem, não custa perceber uma sabedoria perdida naquela expressão, jeitosa, isso sim, para denunciar as agressões de uma memória voluntariosa: a traição é sempre um gesto positivo e não uma omissão (para isso temos a memória que nos falha). E é mesmo assim que eu legitimamente me sinto traído pela memória, por excessos de lembrança que me roubam o sossego às tardes.

O dia à sua santa


Maddalena E' andata Via, Chico Buarque