4-0

"Esteve à vista o 5-0!". Eis o instante em que o Momento da Verdade me apareceu no zapping como uma hipótese inteiramente razoável.

Fareed Zakaria sobre Palin


(1:29): "(...) It's not she that doesn't know the right answer, it's that she clearly does not understand the question".
Mais aqui.

McCain

Não se admite tamanha vileza, tanto quanto sei a semana de McCain estava a ser suficientemente difícil.

Fisioterapia

Deitado no divã enquanto o meu abdominal é gentilmente massajado com ultra-sons, escuto uma voz queixosa num gabinete próximo: "Senhora terapeuta. Acho que não aguento mais!". Tratava-se de um senhor idoso que logo perdi entre o frenesi da clínica. "(...) Acho que não aguento mais!" Talvez partilhasse as implicações da maleita que ali o levou, talvez fosse o queixume aposto à dor da própria terapia. Não cheguei a perceber. O que me reteve foi mesmo aquele "acho", aquela aparente maleabilidade dos limites assim postos em dúvida: a dúvida existencial sobre a vida suportável, a dúvida corpórea sobre os limites de uma cura invasiva. Seria talvez um jeito diplomático de falar -- porque a dúvida também é uma forma sensível de comunicar certezas --, ou então, mais dramaticamente, seria a genuína espera de uma palavra que o doutrinasse sobre aquilo que lhe cabia aguentar.

Debate

Não creio que seja meu viés pro-Obama a falar se retenho do debate uma leitura que lhe é favorável. Afinal consigo conceber mamas mais ou menos bonitas apesar da minha situação psicanalítica. Obama tinha que se desfazer de três acusações: 1- É inexperiente e não conhece os dossiers de política externa; 2- Usa a retórica para fugir da substância e dos detalhes por que se faz a decisão política; 3- É demasiado palavroso e o seu discurso muito articulado não faz concessões às punch lines que tão bem chegam ao cidadão comum.

Esteve bem nesses pontos e nesse sentido a sua grande vitória, parece-me, foi mostrar-se inteiramente presidenciável:

1- Mostrou conhecimento e pose de Comandante-em-Chefe ao falar de política internacional (falou das frentes de conflito com acuidade, capitalizou o Iraque e marcou diferenças importantes, por exemplo, assumindo frontalmente a sua disponibilidade para se sentar à mesa com os inimigos sem pré-condições, o que é corajoso face à chantagem patriótica. Terá faltado uma ênfase maior no multilateralismo);

2- Sem atalhar complexidades passeou-se pela substância dos temas transmitindo a ideia que domina as miudezas, algo que sendo arriscado no impaciente jogo da campanha política só está ao alcance de oradores daquele calibre (e dos apreciadores de moelas);

3- Não tendo muitas frases publicitárias para oferecer soube falar à classe média, assim substituindo a eficácia dos slogans por uma abordagem que busca a empatia com os problemas do cidadão comum (a hipoteca, o tanque do depósito, o universidade dos filhos, o LCD).

Como seria de prever, a discussão económica favoreceu Obama que se preparou para justificar o bailout ao mesmo tempo que assumia uma posição crítica face à teologia (e teleologia) do mercado que domina o establishment. O facto do debate ter começado exactamente por aí, pela crise financeira, tem óbvio impacto naquelas audiências que aos 10 minutos ressentem o jet lag da viagem da cozinha para a sala. McCain respondeu bem com os números dos earmarks aprovados por Obama, mas ficou em cheque quando o barítono de serviço comparou as migalhas dos earmarks com o dinheiro que se iria perder com uma política tributária, defendida pelo republicano, de incentivo ao grande capital.

McCain, a meu ver: fez bom uso da sua biografia de serviço (auto-laudatório ma non troppo), refugiou-se demasiado no corte nas despesas como resposta ao descalabro económico, colou-se demasiado a Bush em relação ao Iraque, foi eficaz no arremesso de factos acusatórios (nem sempre verdadeiros) para destabilizar o adversário (o fact check vem depois e assim sendo semear a dúvida compensa).

Mas o facto mais decisivo na estratégia de McCain, com interessantes implicações formais, foi a recusa em considerar Obama um par à altura: nunca o olhou nos olhos mesmo quando interpelado directamente e usou de um tom entre o professoral e o condescendente ("O Senador Obama não compreende"). Fico com a sensação que esta estratégia terá sido inteligentemente forjada para fugir ao mano a mano, mas parece frágil na medida em que ascendente experiencial de McCain não podia elidir o vasto saber discursivo ali patenteado pelo noviço, não ao ponto, pelo menos, de o reconhecer como adversário à altura . Por outro lado, Obama assumiu uma postura de respeito ético, e digo isto como juízo de carácter se quiserem, que obviamente pode ser confundido com ingenuidade: na atitude respeitosa com que ouviu McCain, pelo frequente uso de expressões como "o John tem razão" e, sobretudo, por insistir sempre em olhar para o adversário a despeito de este jamais lhe ter "dado a cara". A título visceral (uma espécie de a título pessoal, mas mais carnal) a imagem de McCain a olhar o chão enquanto Obama falava com ele fez-me lembrar aquela atitude tenebrosa de Carrilho quando se recusou a apertar a mão a Carmona. Obama defendeu-se dessa condescendência paternalista chamando-o sempre "Jonh". Se McCain ganhar será contra as minhas melhores vísceras.
Quinta temos Biden-Palin.

Avulsos

"Eu esqueço facilmente o mal que me fazem. Mas nunca perdoo o bem com que me iludem." Pedro Mexia, Estado Civil

McCain: uma hecatombe é isto


Letterman "The road to White House runs right through me".
Via 5 Dias

Mais um voo em roupa interior

Depoisda crise da Ossétia do Sul e da ameaça do furacão Gustav, McCain suspende a campanha para, diz ele, ajudar a resolver a crise económica em Washington. Com o recrutamento de Palin pelo meio a contribuir para festa, torna-se óbvio que McCain está inteiramente dependente de um estado de excepção para se apresentar como uma hipótese credível. Também está visto que o candidato adora desaparecer em busca de uma cabine para vestir o fato do herói musculado (das cores da bandeira, claro). Tanto assim que que o debate presidencial previsto para sexta fica adiado porque o bom do McCain está ocupado salvar vidas enquanto os outros sujam as mãos com politiquices. Estamos então nisto:
"It's not clear what exactly McCain is going to do in Washington. He doesn't sit on any of the relevant committees and everyone is already deep in negotiations. Still, he's coming anyway. It doesn't make much logical sense. The only way to understand it is politically: In a presidential campaign, the surest sign that a candidate is playing politics on an issue is when he claims not to be playing politics on an issue. (...) It's hard to believe that McCain's actions would pass his own laugh test."

Capital

Agora temos que esperar pelas crises do capitalismo neoliberal para o abjurarmos?

Dominguez

"A não ser que se diga que o Peixe estava "na senda" do Beckembaeur ou coisa assim."
Maradona, precisamente, é isso mesmo. Creio que o gerador de genealogias absurdas encontrou digno intérprete na eventualidade de eu me finar. Teríamos então Maradona na senda de Bruno Sena Martins.

P.s. Julgo ter batido o record nacional no tempo de reacção a um post. Gosto tanto do Google Reader.


Casamento

Agora disciplina de voto contra. Na próxima legislatura tudo a votar a favor. Nesta história do casamento homossexual o PS não está a apenas a dar um triste espectáculo de calculismo político, está também a fazer um cálculo errado.

Topless

Contra o topless só me move uma espécie de fetiche em relação ao contraste cromático. Como, por exemplo, assim se ilustra:


Erica Mader (em "Mandrake"), via E Deus Criou a Mulher

Boy next door

O futebol de Messi assenta num tipo físico singular (na senda do mítico Dominguez). À parte isso, é de uma simplicidade desconcertante. Perceber a cada momento que que não podes alcançar tamanha singeleza apenas potencia a ideia que poderias. Um imenso condicional.

Avulsos

"A América que eu conheço não será diferente daquela que a maioria opinadora conhece: a América mediada pela televisão e pelo cinema, uma América idealizada ou estereotipada, mas que, apesar de tudo, escolhendo as imagens certas, se aproxima das representações que dela fazem.
Seria sensato rever, por exemplo, Twin Peaks, que neste momento repete no canal FX, e aprender com o olhar cirúrgico de David Lynch a conhecer a América que votará McCain por causa de Sarah Palin. Imagino eu, claro, que nunca lá estive. Mas é tão fácil cair na ilusão de saber algo se tivermos as imagens certas." Sérgio Lavos, Auto-Retrato

Guardiola


Não é fácil levar a sério um ex-jogador que numa das suas primeiras decisões como treinador deixa sair Deco por 10 milhões de Euros.

Gostar de Homens ™


Hoje às 18:30. Ide lisboetas. Ide.

Replay "R"

As realizações vão-se estilizando e a insegurança existencial segue-nos até ao sofá (por acaso, um móvel que não pratico). Lembro de um comovente cuidado nas transmissões desportivas de outrora, um esmero que temo nunca ter agradecido devidamente. Consistia este num "R" que piscava num dos cantos superiores da televisão de cada vez passava uma repetição. Contra toda a evidência, aquele "R" intermitente estava lá para nos lembrar que aquilo era, não a realidade a repetir-se, mas a gravação de um momento prévio. Hoje o "R" desapareceu, talvez por ser considerado redundante com a nossa percepção, acostumada aos truques do simulacro electrónico, talvez por uma evolução tecnológica que torne mais óbvia a disjunção entre o movimento real e a gravação lenta. A verdade é que a presença daquele "R" representava uma hipótese demasiado estimável: a ideia de que tudo pode acontecer outra vez, a inteira verosimilhança de uma repetição do real. Santo Agostinho e Borges perpassam na sala, o tempo sucessivo e mais uma das suas ficções. Sem o "R" nada é garantido, o sofá é um lugar de pavor cénico.

Palin: Populismo ou mundividência

O Pedro Mexia tem toda a razão nisto. No entanto, invertendo a margem do Atlântico como ponto de chegada da comparação, rumo, claro, às eleições americanas, valerá a pena assentir que a linha entre uma mundividência (constitutiva da segurança ontológica) e o populismo eleitoralista tem dado por lá nota de franca elisão (frise-se que Pedro Mexia não diz o contrário) .

Por exemplo, cabe perguntar (como fez recentemente Teresa de Sousa no Público) em quanto do mundo de Palin é que McCain se consegue reconhecer. Lembremos, em favor da tese dos valores arreigados, que karl Rove vendeu Bush sem necessidade de lhe descaracterizar a visão do cargo. McCain poderia ser um conservador inteiramente identificado com as referências que Palin incorpora e não haveria nisso sombra oportunismo eleitoral. Como não parece ser esse o caso, e face ao dramático guinar no "factor experiência", não creio impertinente que neste momento se interprete o apelo a "guns, babies, Jesus" -- seriamente sintetizado na escolha de Palin -- como um límpido passo populista de McCain. Pelos vistos, com bons resultados.

Freitas Lobo: o pós-hegeliano

"Luís Freitas Lobo existe neste mundo como argumento teológico: prova irrefutável de que a omnisciência é possível e está ao alcance de todos; mas dá imenso trabalho, e oblitera quaisquer outras virtudes." Rogério Casanova, Pastoral Portuguesa
Tenho alguma dificuldade em dar-me ao trabalho de rebater o argumento quando o estilo e a fineza da prosa chegam tão amplamente para o texto. Mas sob o perigo de um equívoco proselitismo anti-Freitas Lobo, sinto-me naturalmente obrigado a intervir. O que me magoa no texto do Casanova é que se ele queria exaltar o Carlos Daniel (que ainda no outro dia dissertava com acuidade sobre o império colonial holandês com apuradas incursões sobre a situação política de Martinica, isto em pleno Trio de Ataque) havia formas mais justas de des-sacralizar o Freitas Lobo. O argumento de uma imensa base de dados que oblitera virtuosismos é de tal modo ofensiva que, quando a li, cheguei a pensar retirar-me para Lanzarote onde, com uma ligação satélite a tudo que é canal de bola, gin tónico na varanda, Freitas Lobo poderia passar o resto dos seus dias a falar comigo esquecendo de uma vez este país de ingratos.

Não sendo mirabolante, a acusação de Casanova podia ser atirada com acerto, por exemplo, ao Olivier Bonamici da EuroSport. Ali o enciclopedismo vai ao cúmulo de seguir vários desportos e é mais que lícito reconhecer uma acumulação de Terabytes inverosímil fora de um perfil Rain Man. Ora, é bem verdade que Freitas Lobo pode saber umas coisas (aquilo chega a ser um pouco creepy às vezes), mas se peca por alguma coisa não é certamente pelo efeito esmagador do seu enciclopedismo.

Primeiro, porque ele recorre à base de dados com relativa parcimónia; como um cinturão preto que evita meter-se em desacatos, FL só começa a debitar ficheiros quando é ocasionalmente provocado pelo Carlos Daniel ou por algum jornalista incauto que queria saber demais.

Segundo, porque os defeitos de FL, que existem, não podiam estar mais nas antípodas do pecadilho que Casanova lhe aponta. Longe de ser um arquivo ambulante, Freitas Lobo é um comentador extremamente ideológico-- desculpem a má palavra. Ou seja, talvez excessivamente, ele pugna -- pugna é horrível, desculpem mais uma vez -- por uma abordagem ao jogo que reflecte a sua ansiedade pelo mundo melhor que idealizava ver reflectido em cada jogo, em cada opção táctica, em cada projecto desportivo, em cada contratação, em cada substituição, em cada "princípio de jogo". Ora, perdida que foi a sua utopia com o voo destrutivo do tempo, este extenuante exercício de melhorismo leva-o a olhar obsessivamente para os acontecimentos singulares, mesmo para um corte do Bynia, à luz de uma narrativa maior.

Um cruzamento bem tirado nunca é um cruzamento bem tirado, mas sim a evidência de como o trabalho de formação teve a pré-ciência de privilegiar o 4-3-3 de tal modo que, nesta noite, pudesse surgir um extremo sabiamente maturado pelo seu actual técnico como médio interior do losango e assim soubesse explorar pela faixa o espaço entre linhas de molde a servir os avançados. Temos assim um excesso de interpretação, notório no comentário aos jogos, que por vezes subsume o lance à leitura táctica e historicista que dele se pode fazer. Querido Casanova, se alguma coisa oblitera a leitura da realidade futebolística de Freitas Lobo é o facto de ele ser um comentador ideológico na linha de um hermeneuta pós-hegeliano que não se libertou dos ancestrais vícios dialécticos e meta-narrativos.

Scolari who?

Até disto tinha saudades: numa noite infeliz, poder sentir como minha a tristeza de Portugal. De repente até me lembrei das lágrimas daquela noite em que Marc Batta, ao bom estilo colaboracionista, expulsou o Rui Costa contra a Alemanha. Era para ser a noite da glória de Pedro Barbosa, a noite de um apuramento épico para o mundial. Na verdade, nem fui grande entusiasta da escolha de Queirós, talvez por achar que nunca conseguiu ser um líder de jogadores com mais de 21 anos: as passagens pelo Sporting, pela África do Sul e pelo Real Madrid deram a entender alguma dificuldade na relação emocional com maiores de idade. Mas, por agora, pelo saber táctico, pelo sageza das convocatórias, pela gentlemanship que tão bem se lhe adapta ao carisma, confesso que está a vencer as minhas reservas iniciais. As elegias guardam-se para os momentos difíceis e depois desta derrota quase lamentei não ter um cachecol verde e vermelho por perto. Não é nacionalismo, é a afeição quem vem de uma proximidade necessariamente contigente: que fique claro que voltarei a torcer contra Portugal sempre que um paspalho de bigode impeça identificações de maior -- alguém lá em cima haveria de lhe reservar o Apocalipse tópico na sua passagem pelo Chelsea, falo obviamente da lesão do Essien. É provisório, mas sentido: Queirós, estamos juntos.

P.S. Uma curiosidade: na análise prévia ao Europeu, Queirós baixou as expectativas de Portugal lembrando a ausência de um goleador e de um defesa esquerdo ao nível do resto da equipa. Freitas Lobo, justificadamente temeroso com a forma de Petit, discordou de Queirós. Segundo ele a posição 6, decisiva como é no equilíbrio de uma equipa, mostrava-se mais problemática. Percebe-se agora porque Queirós não via aí um problema: Raúl Meireles.

Paulo Bento

Não sem pesar, leio a entrevista de Jesualdo Ferreira ao Público. Não sem pesar, vejo a entrevista de Paulo Bento à SIC-Notícias. Que ambos se mantenham a salvo de respostas apetecíveis à cultura do espectáculo é coisa que já não surpreende: ambos pertencem uma importante escola de pensamento que se dedica à tradução do fenómeno futebolístico em lugares comuns. No entanto, para quem tivesse dúvidas, estas entrevistas mostraram à saciedade que o secretismo, a diplomacia e a protecção do grupo acabam por não ser assim tão importantes na contenção que os torna soporíferos a falar de futebol. Para entreter as gentes, além de umas histórias com informação privilegiada -- provavelmente menos cativantes do que as que compõem o delicioso livro do Octávio Machado --, Paulo Bento e Jesualdo Ferreira não terão muito mais a dizer do que aquilo. E aquilo é fraco que dói. Numa Liga Sagres desprovida de protagonistas que aliem o saber da poda à mínima graça no confronto com os media, não deixa de ser notável como futebol o fantasioso vai sobrevivendo nas mesas dos cafés tão órfão de poetas vividos.

Avulsos

"Às vezes gostava de ser uma pessoa introvertida, sombria, desentusiasmada, reflexiva, enfim. Vejo pessoas na rua, no trabalho, nos blogues, que têm muito mais estilo que eu porque são assim, tristes, sérias, cujo rosto e actos são uma musculação facial e braçal da irrepetibilidade da vida. Mas não consigo. Há qualquer coisa em mim que falha no que concerne à possessão de melancolia." maradona, A Causa foi Modificada

I see dead people

No cabelo de Palin e nos dentes de Biden. Nada ali pertence ao mundo vivo.

intermezzo

Em viagem por estes dias, regresso terça ao convivio dos blogs.

Em jeito de homenagem


"o propósito de abolir o passado já aconteceu no passado e -- paradoxalmente -- é uma das provas de que o passado não se pode abolir." Jorge Luis Borges
Memória e gratidão. Au revoir, Quaresma.