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À espera de Pelé.

Vicente Moura

Fico a saber que Nelson Évora tentou impedir a expulsão de Marco Fortes da comitiva portuguesa. O retrato que dele fica, um campeão humano e solidário, não pode deixar de fazer lembrar o momento em que Vanessa Fernandes celebrou a prata, logo fazendo questão de aproveitar a mó de cima para se demarcar das declarações daqueles atletas que, ao contrário dela, suma atleta da pátria, não sentem a bandeira que representam. Mas Nelson Évora foi olimpicamente ignorado. Vicente Moura, irredutível justiceiro, não terá hesitado em apontar o caminho do aeroporto ao lançador do peso. Horas depois, cálice de champagne na mão, qual emplastro, fazia pose junto ao ouro de Évora. O espécime vai-se revelando mais abjecto a cada dia que passa.

Agora para irritar: sai cartilha

Lourenço, Pornoy's Complaint [O complexo de Portnoy, li a versão portuguesa], não sendo um romance político (decididamente), é atravessado por um existencialismo sexual em que o justo rumo do tesão -- segundo os seus termos que nunca meramente os da carne -- a todo momento se confronta com os rigores da ética sexual dominante e com as relações de poder pelas quais o sexo sempre procede. O retrato das hipérboles da libido sublinha o extenuante que é responder as demandas do desejo vis à vis com a ética e com as relações poder.

Eu, o magnânimo

Desejo sinceramente que o Guimarães consiga esta noite aquilo que lhe escapou na secretaria. O eixo dos queixinhas, agora perpetuado na forma de "relações privilegiadas com o Benfica", é castigo mais do que suficiente.

Ana Ribeiro

Abençoadas as férias das residentes. É que por estes dias o jornal 2 é apresentado por uma tal Ana Ribeiro. Googlei sobre. Facto irrelevante: consta tratar-se da meia irmã de Alexandra Lencastre. Facto relevante: acho que a crítica pátria anda distraída e custou-me horrores chegar à conclusão que o google imagens apenas reflecte essa escandalosa omissão. Se alguém der com uma foto dessa tristíssima face muito gostaria de a usar para ilustrar este post, post no qual, já terão percebido, se escreve um importante momento da história das ideias do panorama audiovisual português.

P.S As fotos possíveis já cá cantam. Os meus agradecimentos ao Ricardo e ao Carlos Azevedo.

Sex is overrated

"É o primeiro médio defensivo e o primeiro a sair para o ataque, daí a opção ter sido hoje o Raul Meireles, talvez o melhor médio em Portugal nas transições rápidas. Vamos tentar encontrar a melhor forma para estabilizar o sistema primeiro para depois partir para sistemas alternativos como, aliás, já fizemos hoje. A base e o modelo estão encontrados. Agora queremos evoluir." Jesualdo Ferreira
Como devem saber aqueles que me seguem as frustrações, aguardo pela mecanização de um sistema alternativo que permita fazer frente a 4-4-2 sólidos há tanto tempo que quando olho pela minha janela com vista para a Rua do Brasil chego a pensar que talvez tenha que me envolver pessoalmente no sentido de estabelecer um contrato promessa entre o neto de Maradona (o filho de Aguero) -- que, naturalmente, iria jogar ao lado de Lucho -- e o Porto (como se sabe a Sad europeia com melhores relações com a argentina). Os confrontos fracassados contra o Sporting representam uma derrota táctica de Jesualdo, e portanto, uma vergonha pessoal que eu colho por simpatia, constituindo um caso particular de um clássico problema de falta de versatilidade táctica: na verdade foi o jogo contra o Shalke 04 do ano passado tornou este problema uma questão com dimensão internacional.

Aquele 4-3-3 é muito bom até certo ponto (esse ponto em Portugal é o Sporting e na Europa todas as equipas do top 8 da champions) . A coerência e confiança nas próprias virtudes não deve negar o imperativo da adaptabilidade. Vejamos como a personagem de Sex Lies and Videotape se afirma impotente perante uma mulher que lhe diz o sexo está sobrestimado. E é assim que deve ser. Se é para engatar pode-se mentir até com a verdade: sempre mostra alguma dedicação. Não vale a pena fazer qual Mark Wahlberg em Boogie Nights num mundo de gostos tão heterogéneos. Basicamente o Porto desconhece as vantagens adaptativas do 4-4-2 desde que o Anderson foi atropelado pelo Katsouranis, ou seja, isto já me anda a dar cabo da vida há algum tempo. Mas depois destas palavras de Jesualdo, hoje vou poder abraçar a noite com outra paz. Acho que já disse o que tinha a dizer sobre o Hulk.

Avulsos

"Ping-pong is coming home." Boris Johnson

Anti-herói


Vicente Moura, presidente do Comité Olímpico de Portugal, não está obrigado a ter sentido de humor ou sequer apreço pela arriscada arte da auto-ironia. Mas devia ter vergonha pelo oportunismo com que se prestou a criar um bode expiatório para ser apedrejado pela frustração nacional; devia ter vergonha pelo timing táctico no anúncio da sua demissão -- aquele risível simulacro de mea culpa: afinal teria sido má ideia "trabalhar directamente com as federações". O decano envergonhado pela idolatria da tribo regressa agora orgulhoso para colher a compensas do salto de Évora, sempre naquela astúcia manhosa de quem usa os bons e maus momentos dos outros para se manter à tona. Devia ter vergonha.

Ginástica artística


Quando um atleta se lança à acrobacia final -- momento sempre sensível -- não raras vezes atinge o tapete com aparatoso insucesso. Mesmo assim, com as dores de uma queda, ou apenas com a noção dos anos de treino ali perdidos, ergue-se e abre os braços colocando-se naquela pose ritual onde a graciosidade se reúne à glória de fim de cena.
A dignidade não é outra coisa, a elegância possível no fim de uma cena inglória.

Saturday III

Diz o Rogério Casanova:
"Se a libido política de McEwan está presente em Saturday, só posso concluir que se trata de uma libido política claramente bissexual-platónica; a libido de alguém cujas hormonas estão cheiinhas de vontade, mas se recusam a tomar decisões executivas." Saturday é um livro que faz um fetiche da recusa em adoptar uma posição inabalável. Acusar isto de falta de subtileza, sinceramente, não lembra à New Statesman."
Tenho dúvidas que o Hulk se possa vir a afirmar como um jogador fundamental para o Porto, mas do que dele já vi -- tudo jogos pouco conseguidos, refira-se -- posso afirmar que está ali um jogador cujo génio, se alguma vez liberto, reduzirá o Rodriguez à sua (obscena) utilidade.

O Rogério tem razão: na leitura política que se pode extrair de Saturday, o que fica de McEwan é a ambivalência, a recusa em tomar partido, tanto quanto um sincero espanto pelas certezas que o foram cercandoa propósito da guerra do Iraque .

Na boleia da conversa com o Lourenço, ao pesquisar as reflexões de McEwan nos seus artigos de opinião, confesso que tive uma sensação próxima daquela que me invadiu quando indexei as palavras "Givanildo Vieira de Souza (Hulk)" no youtube: o mordomo de facto estava a agir de forma estranha.

A questão, creio, é que a recusa de McEwan em tomar posição é menos neutralidade ou uma abstinência executiva do que uma oposição à corrente dominante, na opinião pública e no meio literato-intelectual, que proclamava inequívocas certezas na condenação da Guerra do Iraque. Ao passear-me por Saturday, por exemplo na passagem em que seguimos a voz de Perowone a falar de Miri (pag. 62 da minha edição), foi difícil escapar a essa libido. Não me refiro tanto a uma proclividade (mãe do Casanova!) para celebrar o universalismo da imaginação liberal, mas fundamentalmente ao imperativo de falar contra as certezas que puseram 2 milhões manifestantes a desfilar em Londres. Se há nisto ambivalência platónica, também há a vontade militante de quem não se deixa levar.

Versões de um mesmo mito

"Para que o horror seja perfeito, César, acossado ao pé de uma estátua pelos impacientes punhais dos seus amigos, descobre entre as caras e as lâminas a de Marco Júnio Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e deixa de se defender, exclamando: «Também tu, meu filho!» Shakespeare e Quevedo recolhem o patético grito.
Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias; dezanove séculos depois, no Sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é agredido por outros gaúchos e, ao cair, reconhece um afilhado seu e diz-lhe com mansa reconvenção e lenta surpresa (estas palavras tem de ser ouvidas, não lidas): «Pero, che!» Matam-no e não sabe que morre para que se repita uma cena." Borges, "A Trama", O Fazedor

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Saturday II

Caríssimo Lourenço, concordo inteiramente com a tua demarcação: salvaguardado está o essencial. A minha nota, longe de apequenar o romance em função do simplismo das visões políticas do protagonista (isso sim, seria um forma de simplismo), parte contudo da sensação de que em Saturday o talento faz demasiadas cedências ao proselitismo político.

Como bem salientas, a construção da personagem e da visão política de Perowne são amplamente verosímis. A pequena chaga que a "vontade política" do autor transporta para o texto é, a meu ver, uma tendência para encostar à história e à voz interior de Perowne os meneios de uma retórica política, retórica essa cujos propósitos persuasivos estão porventura demasiado expostos. Diria que essa transparência não deixa de roubar alguma coisa ao romance.

Notas para Lourenço


1- Lourenço, mestria narrativa à parte (talvez com excessivo "topem só este o domínio"), convém dizer que Saturday tem a subtileza de um Levantado do Chão no que à presença da "libido política" do seu autor diz respeito.

2. Sem que consiga falar em obras-primas, o meu eleito até agora é The Innocent (cuja adaptação fílmica fracasso em arranjar).

3. O Casanova é o maior (isto, claro, não obstante o precário domínio da ferramenta "email"). Quase que me tenta a consumir o Expresso.

Hobsbawm, Interesting Times: a "non-Jewish Jew'"

"[My mother] told me very firmly: 'You must never do anything, or seem to do anything that might suggest that you are ashamed of being a Jew.'
I have tried to observe it ever since, although the strain of doing so is sometimes almost intolerable, in the light of the behaviour of the government of Israel. My mother's principle was sufficient for me to abstain, with regret, from declaring myself konfessionslos (without religion) as one was entitled to do in Austria at the age of thirteen. It has landed me with the lifetime burden of an unpronounceable surname which seems spontaneously to call for the convenient slide into Hobson or Osbom. It has been enough to define ' Judaism ever since, the late Isaac Deutscher called a 'non-Jewish Jew', but not what the miscellaneous regiment of religious or nationalist publicists call a 'self-hating Jew'. I have no emotional obligation to the practices of an ancestral religion and even less to the small, militarist, culturally disappointing and politically aggressive nation-state which asks for my solidarity on racial grounds. I do not even have to fit in with the most fashionable posture of the turn of the new century, that of 'the victim', the Jew who, on the strength of the Shoah (and in the era of unique and unprecedented Jewish world achievement, success and public acceptance), asserts unique claims on the world's conscience as a victim of persecution. Right and wrong, justice and injustice, do not wear ethnic badges or wave national flags. And as a historian I observe that, if there is any justification for the claim that the 0.25 per cent of the global population in the year 2000 which constitute the tribe into which I was bom are a 'chosen' or special people, it rests not on what it has done within the ghettos or special territories. self-chosen or imposed by others, past, present or future.It rests on its quite disproportionate and remarkable contribution to humanity in the wider world, mainly in the two centuries or so since the Jews were allowed to leave the ghettos, and chose to do so."

Florença

Em Florença, vindos da galeria Uffizi, a caminho do Arno, encontramos uma trivial corrente metálica que protege da estrada o passeio contíguo ao rio. Mero expediente de segurança rodoviária. Mas, talvez por se tratar de um dos locais com vista privilegiada para a ponte Vecchia, talvez devido a alguma mitologia local que desconheço, talvez por graça de uma espontaneidade turística que fez escola, acontece que a tal corrente aparece ao transeunte completamente enlaçada a um sem número de cadeados. Depois de alguma atenção, percebe-se, são cadeados onde sucessivos casais de amantes inscreveram os seus nomes para os acorrentarem a Florença, ao Arno, a Itália, à eternidade e assim.

Percorrer esses cadeados com atenção suscita o sincero arrepio de imaginar quantas daquelas promessas se ficaram tumulares na forma de um cadeado cingido à corrente, ali a anoitecer, sujeito às intempéries, ao calor, à chuva, aos cães florentinos, aos voyuers. Tudo bem se os casais são consequentes, tudo bem se estão dispostos a fechar as contas com a história hipotética que ali se desenhava, mas acho grave que se possa assombrar uma cidade com tamanha impunidade. Sinceramente não os estou estou a ver a guardar chave para prevenir imponderáveis -- seria sinal de descrença --muito menos os vejo com a coragem para regressar a sós ao lugar do crime e assim enfrentarem o peso simbólico do anacronismo -- não tem como não doer. Se o Wong Kar-wai queria fazer uma rábula decente com chaves podia ter pegado uma coisa assim, as potencialidades romanescas chegaram a deixar-me cansado.

Agora, mais a sério, parece-me óbvio que as autoridades locais deviam criar um departamento de investigação que de modo criterioso percorresse o mundo no encalço dos turistas a fim de saber quantos deles seguiram olimpicamente as suas vidas marimbando-se para a higiene simbólica da Toscana. Seria concedida uma amnistia para as pessoas incapazes de aceitar o fim e seria prolongada a licença aos casais em posição de renovar votos. Mas sinceramente, não sei se as comunas italianas têm sensibilidade ou autonomia administrativa para resolver com agilidade estas questões com um mínimo de agilidade. E não me digam que uma cidade com tantos artistas não tem um ferreiro jeitoso capaz de ir fazendo o update da corrente. Por outro lado, quase me apetece conceder, na sombra de uma cidade com a funda memória de Florença, tão socializada a ver-se pelo tempo dos séculos, aqueles cadeados são já versões de um mesmo mito: as memórias que se cumpriram enquanto tiveram por onde.

Borges e Coimbra

Explica-se aqui o fascinante enigma.

Celebrity

Sobretudo depois do discurso de Obama em Berlim, McCain sentiu necessidade de lançar uma campanha para denunciar o efeito da celebridade que paira em volta do candidato democrata. Obama, alegam, é antes de mais uma figura do mundo do espectáculo. A resposta (não oficial) que agora surge dos quadrantes de Obama é algo desconcertante, mas estrategicamente talvez não seja parva de todo: lembrar um actor que deu em presidente.


Angel, 2007 :: Romola Garai