We [not so] few, we [not so] happy few

Forjar ao longe o perfil de um blogger passa também por imaginar aquilo que ele escreve para a gaveta (e se). Com o decréscimo sazonal de audiência a bloga insinua-se como uma arena semi-pública: a cidade deserta, as toalhas estendidas, os computadores em justo remanso. O êxodo de leitores concede uma sensação de resguardo que faz de Agosto o mês mais condescendente com as lucubrações que de outro modo estariam sabiamente condenadas à gaveta.

Apostas de pré-época I

Nome a levar muito a sério (sei que não é fácil): Hulk.

Pepe Rapazote

A utilização da imagem de Pepe Rapazote numa campanha relativa à violência doméstica, primeiro, e ao VIH/sida, agora, não deixa de expressar, a meu ver, alguma inteligência semiótica (apesar de alguns erros de enquadramento de que falarei à frente).

De facto, tanto a figura viril que ficou fortemente marcada por algumas das personagens que Rapazote representou-- com saliência para o papel que desempenhou em Jura --, como a expressão de malandro que traz embutida na facie, concorrem para que o actor conote com singular eficácia um certo espécime de macho latino, entidade à vez real e utópica -- uma utopia conservadora -- que notavelmente celebra o desejo (hetero)sexual, despreza a subjectividade feminina e usa o romantismo ora como engodo de engate, ora como âncora fálica na longa duração (ou seja, para as manter "quentinhas" -- não obstante alguns excessos ou aqueloutro menosprezo).

Assim, parece-me, o uso de uma tal personagem pública vem trabalhar duas narrativas:
1- Redenção (mais evidente na campanha da violência doméstica). A passagem pela qual Rapazote se transforma de arquétipo do canalha na voz que vem denunciar os danos sociais decorrentes de uma masculinidade exacerbada sugere algo próximo de uma transformação biográfica, um itinerário de redenção. Exactamente a mesma transformação que se procura operar nas masculinidades mais afeitas ao totalitarismo viril do homem (ou de quem dele se defende).

2- Conciliação. Nesta leitura valoriza-se a mensagem segundo a qual a virilidade não impede um homem de se engajar com preocupações feministas, não prescreve uma subjectividade violenta e tampouco o inibe de tomar cuidados no seu glorioso itinerário sexual. No limite são dimensões conciliáveis.

Do conjunto de publicidade a que aqui me refiro -- entre spots televisivos e outdoors -- o menos conseguido é, de longe, o spot da campanha do HIV/sida, spot cuja mensagem vagamente diz "não se deixem fiar pelas caras de anjo porque qualquer um pode estar infectado". Ora, Rapazote não tem cara de anjo, por isso o efeito de disjunção entre aparência e perigo perde-se inteiramente. Erro crasso. Se queriam manter a narrativa do spot deviam ter-se virado para alguém que incorporasse o paradoxo "cara de miúdo mas muito rodado".

Milão II


Bsm, Julho, 2008

Milão



Bsm, Julho, 2008
Se as mãos que mais apetecem são variáveis e frequentemente efémeras, nada como uma medida padrão nesse respaldo ontológico do seio.

"Aqui fica a Nina..."


Ler este diário para dele captar o retrato de um certo Portugal é ceder à tentação paroquialista. Para quê martirizar tetas relativamente secas se correm jorros de leite do tumulto existencial por que Mircea Eliade (ME) se arrasta?

Se há algo de significativo neste desfilar de apontamentos pessoais -- que nos levam de 21 de Abril de 1941 a 5 de Setembro de 1945 -- é, pois, a explanação de um "kierkegaard fodilhão" (ressalve-se, um Kierkegaard que não escolheu perder a sua Regina: Maitreyi e Nina foram-lhe sucessivamente roubadas, a primeira pela "distância civilizacional" a segunda pela doença).
- É a explanação de um megalómano largamente consequente na erudição e nas ambições intelectuais (curioso perceber como a propensão de ME para universalismos e para leituras obscenamente generalizantes -- marcas da sua obra académica -- decorre, mais do que de uma filiação epistemológica, do expresso desejo em deixar uma marca que o projectasse na cultura mundial à altura de um Goethe.
- É a explanação de um melancólico incurável continuamente acossado por violentas crises de neurastenia.
- É a explanação de um vencido pela história (é sempre chato para um nacionalista próximo da extrema direita ter que assistir ao evoluir uma guerra que redundaria na ocupação soviética da sua amada Roménia).
- É a explanação de um homem cuja fé vagueia perdida entre a tradição que o criou, o universalismo místico das suas "viagens" e a leve suspeita de que é, ele próprio, um Messias, ainda que incapaz de dar justa voz ao seu "génio épico".
- É a explanação de um homem que na solidão trazida pela viuvez carrega também o remorso (um aborto que forçou Nina a fazer no início do namoro terá estado na origem da doença que acabaria por a matar)
- É a explanação de um narcisista cujo projecto épico representa o pavor de se deixar conter por uma historicidade particular.

More on this later.

Gonçalo "Holmes" Amaral

"Que monstros de maldade, mestres de dissimulação e actores de génio tinham de ser os pais de Maddie para fazer o que os tornou arguidos". José Carlos de Vasconcelos, Visão

"Gonçalo Amaral tem uma confiança cega na ciência, nas técnicas forenses, no faro dos cães. A tal ponto que, mesmo quando os próprios cientistas lhe repetem que as análises que realizaram aos vestígios biológicos deram resultados não conclusivos, ele continua a acreditar que são conclusivos. É essa a impressão com que se fica após a leitura das passagens relevantes do livro Maddie - A Verdade da Mentira." Ana Gerschenfeld, Público

Um casal de estrangeiros que nunca viera a Portugal, a passar férias numa pequena aldeia com intenso movimento de pessoas e turistas, teria, durante um jantar com sete amigos num restaurante à vista de todos, arranjado maneira de ir ao quarto onde a filha dormia com os irmãos, retirar o seu corpo, dar-lhe sumiço e retomar o jantar, como se nada fosse. Tudo isto feito durante um período de meia hora a uma hora, sem ninguém reparar e com tamanho sucesso que eles, que nem conheciam o terreno ou as suas imediações, conseguiram iludir as buscas de centenas de populares e GNR, feitas dias fio num raio de cinquenta quilómetros. Miguel Sousa Tavares, Expresso

Veneza II


Bsm, Julho, 2008

Ler

A propósito da Quinta da Fonte, do Rui Ramos, do João Pinto e Castro e do maradona: Fernanda Câncio.

Veneza



Convidado pelos pés que num comboio com destino a Bolonha a meu lado assim se enleavam, não resisti a tirar esta foto à traição. Os pés pertencem a um daqueles casais que nos suscitam algo de uma curiosidade genealógica: como se conheceram?, quem gosta mais?, como será o sexo?, será que duram? Ele um elegante senhor chinês pelos quarentas. Ela uma amena donzela, trinta e muitos, cabelos louros, olhos azuis, voz doce, nacionalidade incerta; não consegui perceber que origem carregava na pronúncia ou sequer se havia alguma pronúncia que se lhe pudesse achar. Tanto quanto a crioulagem do casal, o que primeiro me chamou a atenção foi o facto de comunicarem em mandarim. E como nunca tivesse ouvido uma figura ocidental fluir na língua experimentei um delicioso desconcerto, uma espécie de dissonância cognitiva entre gesto e verbo. E é isso que a foto recorda. O exotismo mágico da donzela e dois pares de pés solenemente enamorados vindos sabe-se lá de que Veneza.

*Que o senhor fosse chinês e que falassem mandarim são palpites da casa.

Avulsos

"Volto ao Sol, e a este fantástico país que a partir das 9.30 da noite apenas mantém em aberto uma via de saída do aeroporto da Portela, e essa é controlada por essa associação de criminosos na reforma que é a Antram, o que significa a) que me arrisco a ver a viagem até à Gare do Oriente rudemente recusada, ou b) cobrarem-me uma taxa de excepção pela curta jornada. Nem o Metro chegou lá, quarenta anos depois da inauguração, nem a Carris se atreve a contradizer a lei do velho Oeste imposta pelos taxistas; e ninguém reclama - nem os pobres turistas indrominados, que ficam logo à chegada com uma bela imagem do país, nem os portugueses que aprenderam a comer e a calar, a nossa segunda pele." Sérgio Lavos, Auto-Retrato

Carolina

Após 10 dias de ausência num raide pelo norte de Itália, empreitada em que a componente académica e a turística se reuniram em partes ligeiramente desiguais, tolhido pelo sono, incapaz de ler mais do que duas linhas do Público sem começar a sonhar com as densas relações entre o Aimar e o programa nuclear iraniano, aproveitei o retorno para dedicar uns minutos à literatura social exposta no interior do Jumbo vizinho enquanto tentava alinhar de cabeça os ingredientes para o jantar -- processo complexo conquanto o permanente estado onírico insistisse em arredar-me de refeições minimamente verosímeis para as minhas fracas artes culinárias. No meio deste caos programático pude contudo perceber que em poucos dias o país desenvolveu e maturou uma fixação inconofílica com rabo da Carolina Patrocínio e -- o mundo é mesmo assim -- com ele um tal de Gonçalo Uva (com quem a moça parece partilhar toalha de praia e os rituais do bronze). No fundo, é inevitável que tantos anos de novelas brasileiras criassem uma particular sensibilidade lusa para corpos próximos dos ícones eróticos brasileiros. Quero crer que estamos perante um processo histórico em que influência estética dos postais cariocas muito favorece a recepção mediática ao rabinho da Carolina (a iconografia erótica da playboy brasileira nada tem a ver coma a da sua congénere americana).

É bom de ver que as idiossincrasias nacionais a existirem não passam sem viagens que as precedem (de Cabral a Juliana Paes pasando por Bruna Lombardi), não passam sem regimes de cristalização vagamente arbitrários (foi um choque perceber que as ruas italianas não estão exactamente polvilhadas de clones de Loren e Bellucci ), não passam sem a celebração de ícones para troca (aquilo da Marisa e assim), nem sem as contingências do costume (o rabo, esse sortilégio).

De volta

Agora é só pôr o sono em dia.

Avulsos

“Um grupo revolucionário que depende de assaltos a bancos para sobreviver, acaba por se tornar um grupo de assaltantes de banco.” Ernesto Che Guevara
Farc: "também tu, Che?"

À atenção de Pinto da Costa

[que espero entretido a vender o Quaresma por bom preço e, claro, a recomprar o Maniche pelo habitual preço de saldo]


(Via Jogo Directo)
Chama-se Bruninho, é brasileiro, tem 8 anos e joga futsal no Cabofriense.

Amores datados

"O romantismo em 2007
1 hora a andar pela tua rua no Google Earth."

"O romantismo em 2008

Procurar os teus comentários nos outros blogs."

António Sousa Homem


"O meu mundo desapareceu nestas três últimas décadas."


Lara Logan

Afinal esqueçam aquilo do Obama: Lara Logan para Presidente.

Ler

Uma excelente réplica às declarações (ou outra coisa qualquer) de Manuel Ferreira Leite.

Ferreira Leite

Começa a ficar claro que a postura de discrição discursiva e de negligência cénica (uma revolta em que a omissão e a a fuga às respostas assertivas se esgrimiriam contra a politiquice reinante), mais do que um statement anti-demagógico sobre o modo de fazer política, é, isso sim, a estratégia com que Ferreira Leite procura disfarçar uma funda incapacidade para alinhavar ideias (o que, convenhamos, seria importante para o debate democrático mas também para o cargo executivo a que se candidata). Fale ela do estado social, das obras públicas ou dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, e a única coisa que nos pode ficar do que seja a sua "visão política" é a noção de um firme desconchavo. Numa palavra: fraquinha.

Ver

Vídeo de Fernando Torres aos 12 anos num jogo conta o Milan.

"History will be astonished"

Deixo-vos com o discurso de demissão de Robin Cook (1946-2005), de 17 Março de 2003. Como muitos se recordarão, Cook demitiu-se demarcando-se do governo de Blair em resultado da sua discordância face à invasão do Iraque. Conforme poderão recapitular se tiverem 10 minutos para tal, trata-se de um momento de singular simbolismo histórico não só pelo substantivo da uma decisão cuidadosamente sustentada (a oposição à Guerra do Iraque), mas também pelo que a tomada de posição de Cook representa em termos de compromisso pessoal com uma dimensão ética em política: é essa dimensão que a cada momento define os limites de dissensão comportáveis pela lealdade a um partido, a um governo ou a uma ideologia. Num momento em que alguns lunáticos aguardam pela oportunidade de ver Carlos Fino no Irão, não será mau cumprirmos George Santayana ou mesmo Vítor Espadinha recordando estas -- vá lá -- situações.

Parte 1 (5:47)

Parte 2 (5:48)