Pessoal

Ontem no debate quinzenal no Parlamento, ao evocar o "caso Câncio" para dar a Sócrates o exemplo daquilo que realmente deveria merecer o nome de cobardia política (facto), Francisco Louçã deixou-se levar por uma contenda pessoal a cujo lume as alusões à vida pessoal surgiram como um óbvio expediente de vulnerabilização do adversário. Que essa alusão fosse a citação de uma denúncia que a certa altura se tornou facto político poderia ser uma atenuante, mas não: a menção, além de gratuita no contexto da discussão, deu-se num momento em que todo o caso estava a sair de cena (na companhia dos seus vis protagonistas), pelo que nada justificava a sua recuperação.

Sócrates deveria saber que, diferentemente do que se passa na oposição, uma vez no poder o excesso de convicção facilmente se verte em arrogância anti-democrática. Por exemplo, é inadmissível que em sede de Parlamento nunca responda às questões do CDS-PP e do PSD levando ao extremo a jogada do "quando vocês estavam no governo". A questão é que a arrogância política combate-se politicamente e a tentação de explorar a vida pessoal de Sócrates, seja com premeditação política, seja no calor da luta (caso de ontem), além de pouco edificante , resulta num rotundo tiro no pé -- o que não deixa de ser um sinal de maturidade da nossa opinião pública.

Monotonia narcísica

Percentagem significativa da minha blogosfera resolveu entrar em serviços mínimos. Tudo bem, as pessoas têm as sua vidas e não estou inteiramente contra, mas fico preocupado, por mim, claro. Quase nem precisaria de adulterar o bom do Foucault para lembrar o quanto dependemos da intertextualidade, mas até preciso (as muletas intelectuais são uma forma de vulgaridade quase tão boa como a estética mundano-despretensiosa): há mais posts sobre posts do que sobre outra coisa qualquer. A continuar assim vou ter que começar a escrever sobre o mundo real ou sobre os episódios marcantes da minha existência. E, sinceramente, para isso já há O JOGO.

Debate: PSD

Num debate em que o tempo que os candidatos passaram junto às cordas emerge como o factor mais significativo para qualquer avaliação que mereça a minha assinatura (letra de primária, já aviso), há que conceder: Patinha Antão e Santana Lopes ganharam.

O resultado foi ditado sobretudo pela contingência na dinâmica de grupo, coisa passível de ser definida por dois momentos que terão ficado retidos na memória dos militantes do PSD (o meu uso do relativismo passa por estes exercícios de empatia sacrificial).
Momento 1: Passos Coelho ficou encostado às cordas longo tempo por causa das suas propostas para a redução dos impostos. Santana Lopes e Ferreira Leite, expeditos, desdobraram-se em ganchos e uppercuts com um afã que, se continuado mais 30 segundos, supriria a reduzida espessura labial do candidato, detalhe que, diga-se, tem afastado Passos Coelho de uma presença mais consistente na capa da Ana Mais Atrevida.
Momento 2:
Ferreira Leite mal se mexeu (na verdade mexeu-se mal) sob as acusações de falta de solidariedade orgânica para com os maus momentos do partido. Santana a Patinha não se fizeram rogados em em performar com cândida exuberância a indignação do marido traído.

Santana Lopes fala do fundo do poço, uma vez aí o eco pós-decadente favorece-o sempre; creio que não o suficiente para ter hipóteses no Sábado. Patinha Antão fez o seu número e não se pode dizer que a coisa lhe tenha corrido mal. Do ponto de vista político (sentido estrito, nada que seja demasiado relevante), com o "ninguém vos ouve [no Parlamento]" Ferreira Leite deu uma oportunidade de ouro para que os deputados Santana Lopes e Patinha Antão pudessem aparecer com a honra a sangrar pela democracia parlamentar.

Se os contendentes mais sérios são Passos Coelho e Ferreira Leite, o debate terá sido mais favorável a Passos Coelho, mas este, em querendo apostar no conceito da cara nova, teria que mostrar mais energia e frescura. No modo como se prostrou, saiu envelhecido do comparativo por permitir que Santana Lopes indiciasse uma taxa mais elevada de stamina política.

Vejo os 2 golos do Gomis no jogo de estreia pela França e os meus pensamentos ficam, naturalmente, com o seu quase homónimo, Nuno Gomes.

CDS-PP: ligado à máquina


Via Zero de Conduta
.

Uma daquelas caras


Não sei explicar muito bem.

Avulsos

"Scolari garantiu a Tony Carreira que vai fazer tudo pelo título europeu." Mais Futebol

Saramago e Meirelles


Com um agradecimento para o Ricardo.

Avulsos

"Um longo abraço entre Brasil e Portugal em Viseu. Luiz Felipe Scolari e Roberto Leal lado a lado, no júbilo da lusofonia. Cantou-se «Uma casa portuguesa», Scolari recebeu uma guitarra de oferta e destilou algumas revelações.

«Coloco os cds do Roberto no autocarro e em algumas palestras. Ele tem uma versão nova, mais mexida da música, e é essa mistura que tento passar também para o grupo», explicou Scolari. Mais Futebol

EXs


[Bruce Willis, Demi Moore e filhos; Ashton Kutcher]
Consta que até fazem férias juntos. Aí está uma família funcional.

Ashton kutcher


Ashton kutcher é um sério valor emergente num género seriamente em extinção. A comédia romântica, pois..

SMS

Tenho vários amigos sportinguistas e habituei-me a ter com eles uma atitude de "recato aristocrático" perante as vitórias do Porto, muitas vezes assistidas lado a lado. No dia da taça um desses ilustres mandou-me uma sms a raiar o insulto. De facto, a euforia desmedida de alguns sportinguistas que por aí vou lendo (que até se compreende), tão facilmente transladada em arrogância histérica, fez-me perceber o quanto o hábito de ganhar nos ensina a "saber ganhar". E como o inverso também se aplica.

Vida dupla

Uma assinalável percentagem das pessoas com quem me relaciono no dia-a-dia desconhece que eu tenho um blog. Mantenho o silêncio possível. Apesar de assinar com o nome, há algo neste estado de coisas que me agrada. E não. Não é só o facto de assim evitar sentir-me demasiado despido, esquizofrénico ou redundante nos contextos familiares. Isso também. Mas pondero e concluo que talvez seja o apelo do secretismo revolucionário a exercer o seu fascínio. A verdade é que a omissão do blog -- uma actividade que para bem ou para mal assume não pouco relevo meu quotidiano -- é o mais próximo que tenho de uma vida clandestina.

"To Bruno, Žižek"


Digamos que me ofereceram uma versão autografada. Obrigado.

2-0

Vi o jogo com amigos sportinguistas e no fim ainda os acompanhei num fino celebratório. Numa óbvia atitude de fair play, evitei o tema Olegário Benquerença.

Notas:
1- O Sporting jogou melhor e merecia ganhar.
2- A necessidade do Porto construir consistentemente a hipótese 4-4-2 ficou outra vez a descoberto.
3- Sem reparo ao vermelho bem mostrado, o árbitro tratou a equipa do Porto como um empregador trataria um ex-presidiário. Visivelmente, o apito final serviu como o estigma oportuno a uma narrativa de falsa neutralidade. Talvez alguém explique aos Olegários que a justiça dispensa justiceiros por conta própria, sobretudo quando investidos em exorbitar disfunções. O Sporting merecia uma vitória limpa.
4- Já era altura de deixarmos o Jamor para os que se revêem no conceito de Estádio Nacional
.
5- Segundo me fez saber o JPT, o jogo não foi transmitido nem pela RTP África nem pela RTPi. É vergonhoso que se negoceiem os direitos televisivos sem acautelar o interesse de tantos adeptos por esse mundo fora


Avulsos

"Is hard to avoid frustration when you are moving and the ball isn't".
Um comentador não identificado referindo-se às poças de água no campo do Parma.

Fernando Couto


Fernando Couto. É conveniente lembrar que este homem, nascido a 2 de Agosto de 1969, ainda joga à bola. Neste preciso momento disputa pelo Parma o jogo do título em Itália contra o Inter. (Tenho que voltar a pôr as horas de publicação dos posts).
Há tanto tempo a jogar à bola e a comandar defesas que não muito custa imaginar o que aí vem. Depois de arrumar as botas, Fernando Couto será acometido por automatismos corporais que o levarão, por exemplo, como lhe vemos na foto, a abrir os braços para pôr a defesa em linha. É provável que estes momentos ocorram nas circunstâncias mais inusitadas.

Se por acaso alguma vez o encontrarem na rua de braços abertos, em pleno ataque de nostalgia mecânica, por favor, respeitem a linha de fora de jogo.

Avulsos

"(...) a pequena cobardia irrita-me mais do que a grande." Miguel Vale de Almeida, Os tempos que Correm

Blindness


Pelo que já pude ler, a adaptação de Fernando Meirelles e Don McKellar ao "Ensaio sobre a Cegueira", ontem estreada em Cannes, terá tido uma receptividade nada entusiasta. Mas como 90% das críticos que estiveram na estreia (dos que li) julgam o filme mais preocupados em disfarçar(mal) que não leram o livro (assumissem que não lhes ficava pior), o melhor mesmo é aguardar. Se por um lado, a avaliação de um filme enquanto adaptação pode ser mais severa pelo sentimento de perda em relação ao livro, por outro, a vaga familiaridade da revisitação é às vezes todo um prazer (que não necessariamente cinemático).

As angústias autorais de Meirelles em blog, pelo próprio. Delicioso:
Para completar a noite desastrosa no focus group, uma mulher, que havia avaliado o filme como “pobre”, fazia questão de participar ativamente do debate levantando todo tipo de problema que passava pela sua cabeça perversa e despenteada. Se o braço da minha poltrona fosse removível provavelmente teria tentado acertar aquele cucuruto grisalho de onde saía sua voz irritante:
“The sexual violence is totally gratuitous in the film”, dizia.
“Fecha essa matraca e vá pentear esse cabelo minha senhora!”, eu replicava mentalmente. “E aproveita e bota uma tintura também!”

Edwards apoia Obama

Alguém explique a Hillary Clinton que acabou. E mais, que escusa de tentar reivindicar a glória de uma suposta vitória moral. Nesse campeonato a derrota é ainda mais retumbante.

(Vídeo da Declaração de apoio de Edwards)

Liturgia

Não sei se assistimos a um reavivamento da tradição judaico-cristã se à popularização da cartilha terapêutica dos alcoólicos anónimos, o facto é que a contrição pública como estratégia para a purificação do vício passa hoje por um momento eufórico.
Depois de Jardel, depois de Sócrates, é chegada a altura de eu anunciar perante vós que não voltarei a comer, de enfiada, mais que meio quilo de caju.

Avulsos

---"BOAZ E SHIRLEY são dois cidadãos israelitas de férias em Lisboa. Como quase toda a gente que nos visita, gostaram muito da cidade e apreciaram cada momento que aqui passaram. As pessoas, os lugares, a paisagem, a comida. Recomendei-lhes que não perdessem o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), que é um dos museus mais extraordinários do mundo, rodeado daquele belo jardim e daquele rio azul, sentindo numa tarde de Primavera a brisa que sopra do Tejo e o cheiro das árvores e das flores. E, claro, recomendei-lhes os muitos sítios que quem mora numa cidade recomenda aos estrangeiros. E, claro, esqueci-me que Lisboa tem um problema, tem vários problemas. No que diz respeito a Boaz e Shirley, Lisboa vira-lhes as costas e nega-lhes oportunidades que concede a outros. Lisboa descrimina-os. Porquê? Boaz está numa cadeira de rodas.

Com mágoa, disse-me que não podia visitar o MNAA porque, como tantos museus e lugares públicos em Lisboa, não tinha facilidades para deficientes e cadeiras de rodas. A partir daqui, a lista continua. Foram a um lugar perto do castelo de São Jorge para ver arte, e não puderam entrar. O Bairro Alto é inegociável, e com o Bairro Alto vão na leva os restaurantes do bairro, incluindo um que lhes recomendei particularmente como sendo o da melhor comida portuguesa. (...)

A cadeira de rodas, em Portugal, e a deficiência, são uma condenação ao imobilismo, à solidão, ou ao internamento em instituições especiais. São também uma condenação à pobreza ou à pedincha quando se trata de gente sem recursos, ou incapacitada pelas centenas de acidentes de trabalho por falta de segurança, que as companhias seguradoras ignoram e tratam como dispensáveis, recompensando a perda das pernas ou dos braços, da visão ou da audição, ou de qualquer parte do corpo, com montantes irrisórios. A vida de um deficiente pobre vale muito pouco, se for um trabalhador imigrado estrangeiro vale nada. A família que cuide dele, é a racionalidade dominante. "Teve azar, coitado" é o comentário piedoso." Clara Ferreira Alves, Expresso
Choque tecnológico? E que tal começarem por umas rampinhas?

Os "meus" 23

Antes do anúncio de hoje à noite, avanço com a minha convocatória. Trata-se de lista uma baseada sobretudo nas minhas preferências técnicas, mas, porque consigo ser muito razoável, também foram ponderados outros factores: modelos de jogo já experimentados, rotinas já criadas, equilibro emocional e etário do grupo. Entre parênteses estão as hipóteses alternativas para a convocatória e a asterisco está sinalizado o 11 base: um 4-3-3 com Ronaldo a ponta de lança. Para treinador não conto Scolari, mas não o dispensaria completamente: o estágio precisa de animador cultural com experiência.

Quim*
Ricardo
Hilário (Eduardo)

Bosingwa*
Paulo Fereira
Jorge Ribeiro (Miguel)
Pepe*
Bruno Alves
Ricardo Carvalho*
Fernando Meira (Tonel)
Caneira*


Miguel Veloso*
Pelé (Petit)
Moutinho
Raul Meireles
Maniche*
Deco*

Nani*
Quaresma*
Ronaldo*
Simão
Hugo Almeida
Nuno Gomes (Ariza Makukula)

Things We Lost in the Fire (2007)



Um filme que se pode resumir em três palavras: Benicio Del Toro.

Gestão danosa

Reitero e actualizo o que já aqui disse em tempos. A ser verdade que Pinto da Costa tentou comprar árbitros na época de 2003/2004, a pena de 2 anos seria sempre ridiculamente escassa. Não me refiro apenas ao juízo ético-legal sobre a distorção da verdade desportiva. Falo também do prejuízo do próprio Porto; é que nesse caso, além do óbvio ilícito, estaríamos também perante uma situação de gestão danosa: um presidente que , como se alega, tentasse comprar com árbitros na época que Mourinho esteve à frente do Porto, uma época em que o Porto não só passeou pelo campeonato como ganhou a Liga dos Campeões, estaria, muito claramente, a esbanjar dinheiro sem qualquer necessidade.

Mota-Engil, Lusoponte, apito final, etc.

O mundo do futebol estará cheio de podres, não duvidamos. Ingenuidade é pensar que tudo se resume aos clubes (e às situações) que hoje são usados como metonímia jurídica para credibilização de instituições reguladoras que, após anos de completa passividade, se viram obrigadas a reagir ao mediatismo do apito dourado (já de si um óbvio exorcismo dirigido).

Mas talvez seja conveniente alguma moderação na arrogância com que o Portugal de gente séria olha para o futebol, como se de uma espécie de enclave corrupto se tratasse. A verdade é bem outra: se a eficiência de processos e celeridade deliberativa da Comissão Disciplinar da Liga de Clubes se mobilizasse para outras instâncias de poder, era ver, daqui a uns meses, o Estado Português descer de divisão. Nalguma medida são muito tranquilizadores as "estratégias localizantes" por que assim se mapeiam como estanques os terrenos da corrupção em Portugal.

PSD: Passos Coelho

Vista a entrevista em que a Ana Lourenço nos brindou com um sedutor ataque de tosse (não resisto ao simulacro de vulnerabilidade de uma beleza dominadora), estou em condições de proclamar a minha sentença: pela pose de credibilidade, pelo calo que traz do carreirismo político, pelo ar de novidade (as pessoas vão lá pelo ar), pela presença (a voz é muito boa), pela capacidade de comunicação, Pedro Passos Coelho vai chegar a líder do PSD. Agora ou depois da derrota eleitoral de 2009. Quero crer que não será demasiado prejudicado pela falta de currículo extra-político (a entronização de Sócrates está aí para provar a desnecessidade eleitoral de uma vida fora dos partidos). Mas não deixará de ser sintomático, a concretizar-se a minha profecia, que os líderes dos principais partidos portugueses venham directamente do viveiro das jotas.

Há um eventual senão: no que respeita ao papel do Estado na economia, Pedro Passos Coelho parece estar marcadamente à direita da linha -- tortuosa, às vezes inexistente -- dos anteriores líderes do partido. Como não se sabe muito bem por que valores é que o PSD se define também não sei muito bem até que ponto é que esse límpido posicionamento à direita representa uma ameaça à sua elegibilidade ou se, por outro lado, apenas quer dizer que a prazo o CDS se vai extinguir. Aguardemos.

À atenção de Pinto da Costa

Andam a passar-se coisas muito tristes em Barcelona. Deco anda a jogar e Ronaldinho é bem capaz de sair. Pergunto a quem controla estas coisas: Custava muito que Deco continuasse lesionado (ou suplente)? Custava muito que Ronaldinho se mantivesse no Barcelona a um nível minimamente capaz de fechar a Deco todas as aspirações para o lugar de nº 10 durante mais um quinquénio?

O Porto precisa de um jogador que se junte a Assunção, Meireles e Lucho para jogar em 4-4-2 na Liga dos Campeões, um pouco à imagem de como começou a Liga de 2006/2007 com Anderson. Ibson vê-se a passar o resto dos seus dias no Flamengo, um óbvio sinal de falta de perfil para jogar no Porto: pois que aproveite o sol e a praia que no lugar dele eu fazia o mesmo. Está visto que, em pleno contraste com a vivência carioca, é a cultura gaúcha que produz brasileiros com maior capacidade de adaptação aos rigores do futebol europeu.

Mas, além do enquadramento no mística do Porto ou nas exigências do futebol europeu, há aqui uma questão que apesar de vagamente esotérica jamais deveria ser desconsiderada. Apelo à memória. Quando julgaríamos que melhor era impossível, um Anderson substituiu Anderson (Deco) com inimaginável sucesso. Mais um dado histórico: Vítor Baía regressou aparentemente acabado de Barcelona para ser campeão Europeu. Já estão a ler as rimas? Pois bem, eu acho que o Porto se deveria comportar como aqueles amigos que todos temos: mudam sucessivamente de namorada/o mas mantêm, ao longo dos anos, uma notória e comovente fidelidade a algum traço das que vieram antes, seja o nome, o modo de andar, a cor do cabelo, as posições preferidas, a marca do perfume, o desenho da clavícula, etc.

Num misto de conservadorismo e audácia delicodoce, a possibilidade de Anderson (Deco) substituir um Anderson que por sua já o havia substituído permitiria reforçar o misticismo do nome, e, talvez mais importante, concederia uma hipótese ao passado, mas nos seus termos e já não como colónia de um presente memorioso.

Quando o passado regressa tão inteiriço, e não apenas como um traço que dele nos recorda por metonímia, mais difícil se torna negar a evidência de um hoje envelhecido. Aceitar essa evidência é algo de uma arte, uma estética da identidade. Defendo, pois, que ante provável impossibilidade de segurar Quaresma, cabe reverter a troca feita há alguns anos reinvestindo o dinheiro no regresso de Deco. Em nome de uma versatilidade táctica que permita alternar o 4-3-3 com o 4-4-2. Por romântico apego aos lugares comuns.

Avulsos

"Acompanhado pelo seu incontornável ministro dos Gastos Públicos, Mário Lino, José Sócrates anunciou mais uma "obra estruturante" para o país: investir cerca de duzentos milhões de euros do Estado para multiplicar por quatro a área do terminal marítimo de contentores de Alcântara, no coração de Lisboa. A obra é um velho sonho do Porto de Lisboa - tapar o rio com contentores ou o que seja para que os lisboetas desfrutem dele o menos possível. E é também um velho sonho da empresa que detém, por concessão, o monopólio do negócio dos contentores no porto de Lisboa: a Liscont, pertencente à Mota-Engil (sim, a de Jorge Coelho). Para servir os interesses da empresa, o Estado vai então gastar dinheiro a dragar o rio e a enterrar o comboio e redesenhar os acessos rodoviários à zona, porque não é brincadeira fazer escoar milhares de contentores diariamente do centro da cidade. Oferece-lhe ainda uma área de luxo para desfrute em exclusivo e a histórica Gare Marítima de Alcântara, com os painéis de Almada, por onde gerações de portugueses partiram para a emigração ou para a Guerra de África e gerações de turistas desembarcaram em busca da cidade debruçada sobre o rio. Mas a Liscont também investe a sua parte: 227 milhões. Condoído do seu esforço, porém, o Governo compensa-a por esse magnânimo gesto, prorrogando-lhe por mais vinte e sete anos, até 2042, o monopólio que detém e que expirava dentro de sete anos." Miguel Sousa Tavares, Expresso (ênfase minha)

Da série: "Nunca mais bebo"

De certeza que esta dor de cabeça se deve à carne de porco alentejana que acompanhou a cerveja.

Caves austríacas

Que a Áustria tem um problema não resolvido com o seu passado e, portanto, com a sua identidade nacional, já todos sabemos. Talvez por isso não estranhemos as teorias que agora procuram firmar uma apetência austríaca para as situações de rapto e cativeiro. É, muito simplesmente, um passo disparatado. Não são precisas condições históricas específicas. Desde logo, ninguém sabe o que se passa na sua própria vizinhança. Dêem-lhe caves, abrigos anti-nucleares, sótãos ou adegas, e a ignomínia escravocrata forjará a sua logística, na Áustria como noutro qualquer ponto da Europa.

71%

A taxa de descontentamento em relação ao mandato de Bush bateu todos os recordes na história recente dos Estados Unidos: "He is more unpopular than Richard Nixon was just before he resigned from the presidency in August 1974."

Às "Madalenas arrependidas" proponho uma medida profilática: quem o elegeu devia ficar inibido de votar por um período nunca inferior a 17 anos ou, em alternativa, cumprir 15 dias de serviço comunitário no Iraque.

Caves

Os desenvolvimentos do inominável caso Fritzl podem ser acompanhados com algum rigor aqui.