Javier Bardem à parte, uma adaptação que de tão má chega a ser deprimente.

Ronaldo

Após marcar um golo, Ronaldo hesita sempre entre a euforia, a pose majestática, a encenação da serenidade, e a comunhão colectiva. Como Cantona demonstrou, a pose majestática deve ser usada nuns poucos golos fantasmáticos e, sob nenhuma circunstância, desbaratada com golos de ressalto. Como Thierry Henry demonstrou (nos tempos do Arsenal), a encenação da serenidade exige uma stasis facial anatomicamente preparada. Quanto à euforia, ou bem que se tem um salto acrobático no portfolio ou mais vale rebolar e esbracejar, como uma criança, ao estilo do Inzaghi, um rapaz que tanto tempo depois continua à beira de um ataque cardíaco cada vez que põe as redes abanar. Já a comunhão colectiva exige que a diluição do heroísmo individual, no meio dos abraços suados, tenha um mínimo de sinceridade proletária, algo ao alcance de um Rooney, por exemplo.

A Ronaldo não só falta uma escola estilística na hora de festejar o golo como, com tanto golo para ensaiar, mistura as escolas sem critério e chega ao extremo de passar por toda a paleta performativa num mesmo festejo (as caretas são uma inovação atroz). Ronaldo não é ainda um jogador completo.

Ler

Alfredo Barroso no Público (sem link): "Pacheco Pereira e a guerra do Iraque".

P.S. Se o Público quer conversa com os blogues basta que volte ao antigamente: os artigos da edição impressa online com link específico e sem restrições de acesso. O Twingly, assim vindo do nada, pouco mais é do que um sistema de recompensas afeito a quem pretende aumentar artificialmente o blogo-pénis. Por pequenino que fique, nada como uma erecção sincera.

Scolari

Agora que Scolari já experimentou os jogadores que queria, está na altura dos jogadores poderem experimentar outro seleccionador.

P.S.1
Para alguns, as lesões e os maus momentos de forma de jogadores cruciais são uma importante atenuante na avaliação do desempenho de Scolari. Errado. É óbvio que as lesões surgem em catadupa como uma forma silenciosa de protesto contra a imbecilidade scolariana: uma espécie de boicote à escala músculo-esquelética. Os corpos dos portugueses emigrados por motivos futebolísticos são dotados de uma sensibilidade mística inteiramente estimável. O facto é que a aversão ao futebol de Scolari vem provocando reacções somáticas a uma escala que devia preocupar os nossos dirigentes. A minha urticária é o menos.

P.S.2 Não deixa de ser irónico que, entre tantas lesões, Carlos Martins apareça apto para jogar e, o que é mais estranho, sem sair de maca aos 20 minutos. Ao que parece tudo mudou quando há 2 anos foi à Alemanha e descobriu o mistério até então indecifrado nos laboratórios clínicos de Alvalade: tem uma perna mais curta que a outra. Umas palmilhas teriam poupado muito Reumon Gel ao orçamento leonino.

Bobby Robson: um senhor


Resiliente.

Lugares Comuns

Os lugares comuns também são os lugares onde eles habitualmente se desencontram.

E tu, onde estavas há 10 anos?


Vintage


Mysteries, Out of Season
...
"The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity."
The Second Coming, W. B. Yeats

"Afasta de mim esse cálice"

A menos que decida sair pelo seu próprio pé, Paulo Bento tem tudo para se tornar num caso raro de longevidade à frente de uma equipa não vencedora. Dobrado pelas contas da Sad e pela intensidade das rotas migratórias com hipocentro na academia, o adepto sportinguista partilha com o treinador de um absoluto sentimento de impotência. Dobrado pela perfídia divina, o adepto sportinguista pensa na final da Taça Uefa com esperança e júbilo, mas, também, com medo dos penalties e com o terror de um epílogo à José Peseiro. Está criado um contexto anímico que facilmente perdoará uma eliminação contra o Rangers -- ou que no limite até a agradece. Nada desejar, nada recear. Entre Paulo Bento e os sportinguistas desenha-se uma communitas budista já bem perto do sunyata.

O Bloco de Esquerda, a ONU,...

"A RTP deu mais um exemplo de como é a informação em Portugal ao tratar o aniversário da Cimeira dos Açores como o Bloco de Esquerda acha que foi: um crime." Pacheco Pereira
Mas, afinal, quem é que acha que não foi um crime? Será que Pacheco Pereira não deu pelo advento do Direito Internacional?

Leitura recomendada:
"(...) What the war has done to what is left of Iraq - the lives lost, the families destroyed, the bodies tortured, the civilization trashed - was bad enough. But what was done to America - and the meaning of America - was unforgivable. And for that I will not and should not forgive myself either" (Andrew Sullivan).

Serviço Público

O fascínio pelo estilo corteja a minha corrupção intelectual. À custa disso já consumi mais Žižek do que ele merece (qualquer dia ainda o vou ver ao vivo). Mais constrangedor: já cheguei ao extremo deprimente de conceder minutos da minha atenção ao básico do Chistopher Hitchens (deprimentemente básico, mesmo), apenas porque não resisto completamente a um gajo que, quando apupado, manda foder a assistência no mesmo movimento em que acena uns pressurosos piretes. Isto para vos dizer que já está online o documentário Žižek! (Astra Taylor, 2005) onde se retrata a vida desse famoso intelectual público (no sentido pop star do termo). Beijinhos e abraços.
Žižek! (part 1/7)
Žižek! (part 2/7)
Žižek! (part 3/7)
Žižek! (part 4/7)
Žižek! (part 5/7)
Žižek! (part 6/7)
Žižek! (part 7/7)

12 palavas

Respondendo ao desafio do Francisco Curate, incansável amigo:

Meliante - Vem do castelhano, maleante: que faz o mal. Meliante é um artífice do mal, se quisermos ser etimologicamente rigorosos (acho). Mas a sonoridade da palavra mistura obra de abelhas e redunda na figura do malandro dengoso: o infame não glorioso a quem custa querer mal.
Minudências - Rituais matinais, sinais do corpo, bolachas de água e sal, texturas dérmicas, cheiros, almofadas, dois beijinhos, "viste a minha t-shirt verde?", Tofina, fechar o gás. Minudência podia ser o apego ao insignificante.
Cristina - A minha mãe.
Gerês - Certa vez que lá fui atacado por um híbrido entre cervo e lobo.
Centauro - Um palavra de sonoridade irrepreensível.
Míriade- Passo
Escarificou-se -
Passo
Esboroar- Passo. Às vezes sem querer.
Cafuné- Palavra que nos oferece uma sonoridade levemente acriançada para descrever a madura experiência da carnalidade contemplativa -- modalidade não libidinal ou pós-libidinal.
Bruxulear: Cortejar a existência pelas traseiras como quem vira para o desaparecimento. A sonoridade é enganosa e vai bem com o low profile de quem só hesita em privado.
Melancolia: Conquanto nos deixe a melancolia intacta (ou intata), bem pode o acordo ortográfico levar as consoantes mudas.
Efervescência
- Poucas palavras imitam tão magistralmente o som daquilo que descrevem
Carestia- A forma suprema de umbiguismo é viver em função da carestia como se fosse nome de gente.


Mosca


Via Renas e Veados.

Piercings II

A legislação relativa aos piercings é um exemplo precioso dos extremos a que o Estado chega quando se investe de um "poder pastoral":
"(...) the modern Western state has integrated into a new political shape an old power technique that originated in Christian institutions. We can call this power technique "pastoral power". (...) It was a question no longer of leading people to their salvation in the next world but, rather, ensuring it in this world. And in this context, the word “salvation” takes on different meanings: health, well-being (that is, sufficient wealth, standard living), security, protection against accidents. A series of “worldly” aims took the place of the religious aim traditional pastorate, all the more easily because the latter, for various reasons, had followed in an accessory way a certain number of these aims; (...) " Michel Foucault, The Essential Foucault

Piercings de iniciativa legislativa

A sociedade portuguesa volta a mergulhar nas trevas com a interdição da colocação de piercings em regiões corporais escolhidas pelo governo. Mais uma vez somos vergados por uma lei que além de ser atentatória das liberdades individuais irá afectar de forma desproporcionada as classes menos privilegiadas. Sendo uma matéria que diz respeito a toda a sociedade, independentemente de sexo ou confissão religiosa, é natural que quem, como eu, tem pelo menos um brinco na orelha se sinta mais autorizado a emitir uma opinião.
Mesmo antes do Rui Oliveira e Costa começar dar-lhe na análise co-variada, não custa imaginar os milhares de adolescentes e strippers que nas próximas décadas terão que rumar a Espanha para poderem furar a língua e os genitais em condições de higiene e segurança. E depois há o caso do José Luís Peixoto que passa a depender dos prémios literários para se poder continuar a furar em liberdade.

Para muitos restará, uma vez mais, mergulhar nesse perigoso mundo do piercing clandestino, um mundo putrescível que irá galgar terreno à sombra da nova lei. Os vãos de escada, prevejo sem dificuldade, passarão a ser ocupados por piercers sem escrúpulos dispostos a extorquir dinheiro a pessoas que se encontram numa particular situação de vulnerabilidade (os não apreciadores de Tom Waits também poderão ser afectados).

Mais, em condições de clandestinidade, já se sabe, do piercing genital à excisão acidental do clitóris será um um pulinho (a sociedade civil portuguesa sempre assentou muito na carolice). Preocupante, também, é a ausência de uma legislação que regule o uso de piercings nos mamilos em função do tamanho da copa -- divergências estéticas no conselho de ministros terão impedido um acordo nesta matéria; vazio legal igualmente no que concerne à comercialização de piercings magnéticos (vulgo: ímanes) que venham a permitir, na estreiteza das filas do supermercado, um reconhecimento entre camaradas de clandestinidade.

A tutela do governo sobre os corpos até pode ser uma ideia bem achada para conter eventuais repentes dos membros do governo, assim travando, desde logo, esse anseio antigo de Manuel Pinho. Tudo o que vá além disso é, manifestamente, gentileza a mais.

Leixões-Porto: notas breves (act.)

1- Há muito que não vou a Matosinhos para peixe grelhado e vinho verde. A rever.
2- Aprecio muito o futebol de kazmierczak. No seu estilo, é um jogador raríssimo. Hoje entrou e foi de uma excelência comovente no meio do caos (o seu habitat natural, lembre-se que vem do Boavista). A uns 10 minutos do fim, o colosso polaco executou um carrinho dentro da área, carrinho esse, a um tempo refinado e tresloucado, que me trouxe sinceras lágrimas aos olhos. Tem sido dos jogadores mais injustiçados pela reduzida rotatividade do plantel. Merece jogar mais.
3- Há demasiado tempo que Tarik é tratado como o titular precário: o primeiro a ser substituído, aquele, de entre os habituais eleitos, que mais vezes vai ao banco por opção técnica. Tanto jogos depois, a importância de Tarik continua a ser entendida como um sortilégio casual que se pode esboroar a qualquer momento. Já é tempo de no Dragão se olhar para Tarik a jusante do estigma de putativo dispensável, é altura de ele ser reconhecido como umas das principais estrelas da companhia, um mouro essencial cujo futebol concede perfume cosmopolita ao orgulho da invicta.
4- Quando o Bruno Alves todo em voo pontapeia a omoplata do Jorge Gonçalves fica a sensação que não lhe seria difícil atingir os mínimos para os jogos olímpicos no salto em altura. É conferir a cicatriz. Mas também não sei se Jorge Gonçalves será uma lebre à altura.

Versões de um mesmo mito

"Despedimo-nos na biblioteca onde nos conhecemos noutro Inverno. Sou um homem cobarde; não lhe deixei a minha direcção para iludir a angústia de esperar cartas."
J.L. Borges,
O livro da Areia
"E depois há qualquer coisa em mim que me faz sentir feliz quando desdenho da felicidade."
Robert Walser,
A Rosa

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David Paterson


Pergunta: "Have you ever patronized a prostitute?"
Resposta: "Only the Lobbyists"

Links

Não sei se já vos disse que adoro o tom altivo do Eduardo Pitta (sei, já disse). Repare-se, por exemplo, neste texto sobre a lista de links do Da Literatura. Aquela gestão, assim expressa, é uma delicia de honestidade. De facto, com diferentes nuances, tudo se passa entre o princípio da afinidade e o princípio da reciprocidade.

Já eu não sou nada como o Eduardo Pitta (sim, este é o momento em que o post cede ao downgrade narcísico). Primeiro, porque, como se nota, se pudesse linkava todos os blogs por que já passei ou com os quais tive, em certo momento, algum tipo de troca (a verdadeira selecção faço-a no google reader).
Depois
, porque se acaso gosto de algum blog que de forma despeitosa não me linka -- isso acontece sobretudo quando a lista de links existente sugere que "se gostas destes também devias gostar do meu"--, sinal que não vai com a minha cara ou que me desconhece a existência, faço inteira questão de o linkar. Humildade? Não. No fundo, essa atitude, do ponto de vista psicanalítico, não difere muito da do Eduardo Pitta. Linkar quem não me linka confere-me uma elevação moral tremenda. Basicamente, respondo ao despeito com o conforto compensatório da superioridade moral.

Forget me not

A cultura classificatória vernácula aproxima-nos de um Lineu naturally high, um Lineu inevitavelmente arrebatado pelos ópios da vida. Nenhum distanciamento positivista livra o significado do assédio da enciclopédia chinesa de Borges.

Myosotis sylvatica/ Forget me not/Nontiscordardimé/Ne m'oubliez pas/Forglem-mig-ej/勿忘草/...


Wikipedia: The name was borrowed from Old French "ne m'oubliez pas" and first used in English in c.1532. Loans and translations of it can be found in most European and some non-European languages, like German "Vergissmeinnicht", Italian "Nontiscordardimé", Polish "Niezapominajka", Slovak "Nezábudky", Danish "Forglem-mig-ej", Icelandic "Gleym-mér-ei", Swedish "Förgätmigej", Dutch "vergeet-mij-nietje", Spanish "no-me-olvides", Russian "Незабудки", Bulgarian “Незабравки”, Lithuanian "Neužmirštuolės", Greek "Μη με λησμονείς" (also connected to the people who died during the 1974 events in Cyprus), Esperanto "neforgesumino", Chinese "勿忘草" (Mandarin: wù wàng cǎo), Korean "물망초" (勿忘草, mul mang cho), Japanese "勿忘草" (Wasurenagusa), Hebrew "זכריני" (Zichrini), Hungarian "Nefelejcs", Turkish "Unutma Beni", Albanian "Lule-mos-me-harro", Czech "Pomněnka" etc.

Fernanda Tadeu

Ficou muita gente surpreendida com a presença de Fernanda Tadeu, mulher de António Costa, na manifestação dos professores. Aconteceu reacção semelhante quando, há pouco tempo, Maria Shriver apoiou Obama depois do seu marido, Arnold Schwarzenegger, ter endossado o seu apoio a McCain.

Fernanda Tadeu move-se entre Richard Schechner (a performance contestária e a rua como espaço dramático de democracia) e os mais básicos princípios da autonomia pessoal e política. Certa mitologia romântica celebra a imagem de dois revolucionários de mãos dadas numa manifestação. Justo. Mas a democracia levada à intimidade amorosa implica que nem sempre duas pessoas caminhem lado a lado assim saibam reencontrar-se ao fim do dia (ou ao fim de uns dias).

P.S. Não sendo hipócrita, adivinho-me incapaz de superar alguns limites de divergência política. Mas aí presumo que a questão se colocasse a montante da maturação da intimidade.

Mourinho no Inter

"Mancini deixa o Inter no final da época (Mais Futebol)."
Entendam o título como um palpite.

P.s. Se alguém souber de uma casa de apostas com caixa aberta para o futuro de Mourinho, avise-me por favor.

A Guerra

Quase de enfiada, vi finalmente os primeiros 9 episódios d'A Guerra. Não precisamos de avançar muito na série para percebermos que o documentário realizado por Joaquim Furtado para a RTP constitui uma rara ode ao serviço público de televisão. Tanto a morosidade como o elevado investimento que este tipo de documento implica colidem com o imediatismo e com os imperativos comerciais que habitualmente presidem ao alinhamento de futures das operadoras.

Neste particular, o facto de as audiências terem registado uma adesão significativa vem tirar crédito à ideia feita de que à frente da televisão já só resta um público televisivo irreversivelmente estupidificado, um público supostamente incapaz de dar retorno senão com concursos, novelas, futebol, debates de actualidade ou reality shows (incluo aqui os telejornais).

É óbvio que o tema -- a guerra colonial -- bastaria para agregar um vasto interesse. Desde logo porque há toda uma geração de portugueses que partiu (ou viu partir os seus ) para combater no ultramar; desde logo porque a guerra foi um factor incontornável na mudança de regime político e na saga dos retornados.

Mas o interesse social sobre o tema também exponencia a responsabilidade de Joaquim Furtado, tanto mais que a sociedade portuguesa se tem relacionado com a guerra através de uma compromisso tácito de silêncio. O conflito que se estendeu de 1961 a 1974 representa uma experiência traumática que participou nas condições de passagem para a democracia. No fundo, a realidade democrática portuguesa parte de um trauma que tem medo de tematizar (prefere-se, naturalmente, a revolução sem tiros).

A dimensão traumática dessa passagem está tanto nas duras marcas que a guerra deixou (nas memórias, nos corpos dos combatentes, no corpo social) , como nas contradições que a estruturaram e estruturam ainda o seu legado: a contradição entre a obrigatoriedade de combater pela vida e a falta de convicção para lutar aquela guerra; a contradição entre um regime político que a justificou a guerra e louvou os seus heróis e, por outro lado, um regime político -- o democrático -- que nos leva a olhar para o esforço de guerra como um delírio insano em cuja realidade histórica quase custa a acreditar.

Joaquim Furtado fez uma admirável recolha de testemunhos, 200 cuidadas entrevistas que interpelam desde os notáveis protagonistas vivos da guerra até aos anónimos que, cirurgicamente achados, compõem, a várias escalas, o retrato cruzado das histórias que vão sendo contadas. O dispositivo pelo qual a imagem do entrevistado no presente é colocada, durante segundos, lado a lado com as suas imagens do tempo da guerra, constitui sem dúvida um dos expedientes mais felizes com que somos brindados ao longo da série. Algo que, naturalmente, só seria possível com um exaustivo trabalho de recolha de arquivos. A constante recursividade entre os testemunhos dos intervenientes e a pletora do arquivo (imagens de televisão, vídeos amadores, fotografias pessoais, recortes de jornais, registos áudio) diz bem do laborioso trabalho de pesquisa com que pacientemente se foram tecendo as narrativas recuperadas ao longo dos 9 episódios.

Reconhecido o precioso valor social e histórico deste documentário, obviamente que não posso anuir entusiasticamente a tudo. Entre as discordâncias que fui anotando mentalmente, assinalaria um aspecto que me parece merecedor de reparo.

O retrato dos dois lados é equilibrado e beneficia muito da sinceridade com que, de modo geral, os intervenientes vão recontando sem peias os enredos da guerra. No entanto, há vários momentos em que os testemunhos são deixados sem contraditório quando ele se justificaria; creio que essa omissão -- quando acontece -- resulta sobretudo do viés de gratidão para com os entrevistados. Ou seja, nota-se em Joaquim Furtado uma inibição, porventura inconsciente, em "castigar" com contra-factos algumas das declarações feitas pelos seus entrevistados. Nesta primeira temporada de episódios, isso foi mais notório em relação a Holden Roberto, que airosamente de demarcou do 15 de Março, e em relação a Adriano Moreira, cuja elegância discursiva na trivialização dos desmandos do colonialismo foi sistematicamente deixada sem réplica. De notar também que ao conferir ênfase à acção reformadora que Adriano Moreira nas colónias (que a teve, por isso foi demitido por Salazar), o documentário entrou numa lógica laudatória que a certa altura pareceu algo desproporcionada.

Mas a questão mais sensível parece-me ser, definitivamente, a do alinhamento. O documentário começa in media res com os ataques da UPA no norte de Angola: o 15 de Março de 1961. A opção narrativa é interessante e percebe-se bem a intenção: trata-se de mostrar a situação a partir da qual a acção armada anti-colonial já não poderá ser ignorada; nalgum sentido, os ataques da UPA constituem para Joaquim Furtado o momento de não retorno que conduziria à guerra colonial. No entanto, ao iniciar a narrativa pelo dia em que foram cometidos os terríveis massacres pela UPA nas fazendas do Norte Angola, Joaquim Furtado entroniza esse momento como uma espécie de violência fundadora. Essa violência desabrida e cruel é tão mais chocante para o espectador porque não se percebe de onde vem. Embora o documentário regresse atrás no tempo, convidando à fidelidade do espectador, a fim de recuperar o fio à meada, esse alinhamento, parece-me, não deixa de produzir um insanável desequilíbrio narrativo.

Só muito depois (episódio 7) ouviremos dos eventos da Baixa do Cassange -- ocorridos em Janeiro do mesmo ano (1961) -- nos quais as populações negras foram massacradas pelo exército português numa fúria aniquiladora ímpar (aqui faltariam também os registos visuais, existentes no 15 de Março, para repor algum equilíbrio).

Só muito depois (episódio 5) é que se descodifica ordem social que veio a ser perturbada pelos conflitos de 1961. Ou seja, nos primeiros episódios Joaquim Furtado explica como é que uma convivência social ordeira foi desestabilizada pelo conflito então deflagrado, explica como é que uma convivência pacífica deu lugar a inauditas relações de desconfiança, ressentimento e violência entre negros e brancos. Mas só no episódio 5, num passeio pela sociedade colonial, é que Joaquim Furtado aborda enfim a violência estrutural que "segurava" uma ordem social marcada pela subjugação e humilhação das populações negras.

Reparos à parte, não posso elogiar o suficiente o trabalho de Joaquim Furtado e aguardo com impaciência a segunda leva de 9 episódios. Parece que falta pouco.

P.S. Quem não viu (aqui e aqui)

Camacho demitiu-se

E Luís Filipe Vieira, fica-se?

Chopin

É oficial, tenho alguém na vizinhança que sistematicamente ouve (e partilha) os nocturnos de Chopin a partir das 9 da manhã. A superioridade moral de quem acorda de manhã precisa de ser urgentemente desafiada.

Monogamia

Cansada da monogamia estrita, Lara propôs a César uma relação liberal. Viria a perceber que o liberalismo radical de César experimenta terríveis dificuldades fora da teoria económica.

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Luís Freitas Lobo

É de longe o comentador que mais gosto no acompanhamento à narração televisiva dos jogos. É inteligente, enciclopédico e percebe muitíssimo do jogo. Ainda assim, o mais importante é o entusiasmo infantil com que Freitas Lobo segue o futebol -- parece que só por acaso lhe pagam para poder estar ali, como gosta, a falar de bola (sim, é um elogio).

Devo-lhe, no entanto, um reparo. O papel do comentador não se pode centrar tão obsessivamente na leitura táctica do jogo. Pessoalmente motiva-me acompanhar o jogo da óptica do treinador, apreciando o evoluir das disposições tácticas e das alternativas que se desenham (assim até soa bem). Creio que essa é uma mais-valia fundamental a ser trazida pelos intermezzos do comentador. Mas uma coisa é fazer a leitura do jogo e apresentar uma tese táctica sobre um aspecto particular. Outra coisa é cansar o espectador com a evidência de uma tese, usando cada jogada para ilustrar a bondade da sua interpretação táctica -- como é que ela está ou não a ser interpretada pelo treinador e pelos jogadores.

A partir de certa altura deixamos de ter um comentário táctico pertinente e passamos a ter uma campanha por uma tese táctica. Ontem Freitas Lobo quis frisar de modo obsessivo o erro da internalização de Tarik, na primeira parte, e o acerto alcançado quando, enfim, o Porto passou a usar os extremos abertos, na segunda parte. No primeiro reparo não tinha razão -- enquanto os alemães continuassem a deixar o lado direito da defesa à disposição de Bosingwa, seguindo Tarik, não havia porque ocupá-lo --, na segunda parte, ou melhor, após a saída de Bosingwa por lesão, aí sim, tinha inteira razão. Mas essa não é a questão, até porque Freitas Lobo acerta quase sempre. A questão é que, sobretudo num jogo emocional como o de ontem, o comentador deve ter a capacidade de negociar entre o racionalismo táctico e a atenção às contingências de cada jogada. Estar a 10 minutos do fim a lembrar que os extremos estão enfim no lugar, enquanto o comum adepto sofre a cada pontapé de baliza, constitui uma disjunção afectivo-cognitiva demasiado violenta. Sendo o meu favorito, creio que uns jogos na tasca da esquina serão suficientes para lhe subir o Q.E., aproximando-o, apenas um pouco, pelo requinte da empatia, dos comuns adeptos.

P.S. António Tadeia foi um senhor nos tempos das transmissões do Barcelona na TVI. Mas, sem que tenha perdido qualidades de maior, paulatinamente, foi-se tornando numa espécie de Humphrey Bogart da liga Bwin: embora cirúrgico e acertado, fala por favor com o desencanto dos cínicos, como se estivesse a fazer frete. Um herói literário, porventura. Mas no que à bola diz respeito completa falta ali um mínimo de disponibilidade para o arrebatamento-- algo que as duplas inglesas, exclamativas como são, interpretam magistralmente.

Manuel Neuer


Há muito tempo que não via um guarda-redes fazer um jogo tão admirável. A minha alegria é contida. Basicamente, estou na merda.

P.S. Lisandro Lopez. Um senhor.

Donor Fatigue

Donor fatigue [à letra: a fadiga do doador]. Este conceito era ontem trazido para a análise política numa abordagem ao que se segue na disputa democrata. O prolongamento da campanha exige que a torneira dos fundos continue aberta, explicava-se, facto mais sensível para Clinton, dependente de grandes doadores, do que para Obama, cuja campanha assenta assenta fundamentalmente em pequenas contribuições de anónimos.

Por esta perspectiva, é lícito dizer que no longo curso a permanência da dádiva se sustenta melhor com a generosidade de estranhos do que com o esforço dos poucos que já muito deram. Os termos pelos quais os grandes doadores resistem ao cansaço constitui uma das mais expressivas demonstrações de generosidade na vida social (aceno às mães que me lêem). Nas eleições americanas, não faço ideia

Serviço Público

Podem acompanhar as primárias em directo:
Neste blog do Público.
Na emissão da CNN vídeo (cliquem em "Live Video").
Neste blog da CNN.

Solidariedade com a Associação Portuguesa de Deficientes

A Associação Portuguesa de Deficientes atravessa uma grave crise financeira. Para contribuir para o equilíbrio financeiro desta Associação há um método simples que as pessoas singulares podem seguir nas suas declarações de IRS.

Existe a possibilidade, através da Declaração do IRS, de financiar as instituições de utilidade pública, caso da APD, sem qualquer tipo de encargos. Para tal basta preencher o Quadro 9 do Anexo H, tal como abaixo se discrimina:

ANEXO H

| 9 | Consignação de 0,5% do imposto liquidado (lei n.º 16/2001, de 22 de junho

ENTIDADES BENFICIÁRIAS

DENOMINAÇÃO

NIPC

Instituições Religiosas – Art. 32.º, n.º 4



Instituições Particulares de Solidariedade Social ou Pessoas Colectivas de Utilidade Pública – Art. 32.º, n.º 6

Associação Portuguesa de Deficientes

501129430


Notícias da bloga

1. Já mexe a extremosa ideia do JPT (execução do Paulo Querido), trata-se de um portal onde hora a hora caem as actualizações dos blogs que escrevem sobre Moçambique. Chama-se Ma-Blog.
2. O Kontratempos do Tiago Barbosa Ribeiro cumpre dois anos de vida.
3. O colectivo Blasfémias comemora o seu 4º ano de blogosfera.
4. Recebo finalmente a corrente das 12 palavras. Como até gosto desta, já estava a ponderar recorrer ao suborno (a outra hipótese era amuar).

O que odiamos no Público

Enquanto o Miguel Esteves Cardoso não se pronuncia, a Ana de Amesterdão dá o mote. Até agora concordo com tudo.

O Protegido



A transposição de Unbreakable para O Protegido constitui um dos raros momentos felizes na "história da tradução de títulos de filmes" (a única remissão possível é a pujante "criatividade" da distribuição brasileira). Tanto assim que me dou a preferir o título que ficou para consumo pátrio ao original.

É que enquanto "Unbreakable" remete para a omnipotência e para a invulnerabilidade do herói, sugerindo-o detentor de uma espécie de virtude imanente, "O Protegido" sublinha uma dimensão de dádiva cujo reconhecimento insere o herói nas obrigações de reciprocidade próprias de um potlatch. O protegido é-o porque foi agraciado com um poder que ao mesmo tempo se constitui como um mandato. Por isso Bruce Willis foge das balas com que o filho procura confirmar a sua imortalidade: não é o medo de morrer, é o medo de ter que viver com um propósito. A partir do momento em que é o único escapar a um acidente ferroviário, Bruce Willis fica desapossado da sua vida. É já a sobrevida que sai dos escombros: a vida que não lhe pertence.

Não há enredo infantil que escape inteiramente à genialidade de Shyamalan. Com o insuspeito beneplácito da tradução portuguesa, com estranhos episódios de privança que insistem em assinalar o insólito de estarmos vivos, devo reconhecer que O Protegido está a envelhecer com alguma elegância.