Lara

O que para Lara era uma one night stand, para a alma burocrática de César era um acto isolado. Ao fim de alguns reencontros a divergência conceptual daria lugar a um erro partilhado.

Feist



Deixo-vos uma lullaby assim como que em jeito de bom fim-de-semana.

Oscar Alternativo

João Pereira Coutinho espraia-se na cerimónia de atribuição dos Oscars alternativos de 1991 a 2007.

Palestina

"Terry Eagleton chamou recentemente a nossa atenção para a existência de dois modos opostos da tragédia: o grande Evento espectacular, a brutal irrupção de um outro mundo e a desoladora persistência de uma condição desesperada, de uma existência infeliz que prossegue indefinidamente, de uma vida vivida como uma longa urgência. É a diferença que encontramos entre as grandes catástrofes do mundo desenvolvido, como o 11 de Setembro e, por exemplo, a desoladora catástrofe permanente dos palestinianos da Cisjordânia. O primeiro modo da tragédia, o de uma figura que se destaca num pano de fundo «normal», é característica do mundo desenvolvido, ao passo que, em boa parte do Terceiro Mundo, a catástrofe designa o presente pano de fundo inamovível."
Slavoj Žižek, 2006, A Marioneta e o Anão
Não são só os ataques aéreos israelitas na tragédia persistente dos palestinianos. É todo um quadro de vida em que o abastecimento de alimentos, as deslocações territoriais, o consumo de energia e de água são determinados por Israel em função de uma incessante vontade de represália. Mais: essa vontade alimenta as condições da sua perpetuação. O desvario é tal que até já o Holocausto é usado como ameaça: "Israeli Deputy Defence Minister Matan Vilnai said on Friday the Palestinians would bring on themselves what he termed a bigger holocaust by stepping up rocket attacks on Israel from Gaza." Enfim.

Serviço Público


The Complete Illustrated Works of Edgar Allan Poe

973 páginas, capa dura, a 10.69€ na Fnac.

Rescaldo

Não me digam que também gostaram do No Country for Old Men ou serei obrigado a puxar pela botija de oxigénio (ou lá que o era aquilo).

Red Carpet II

Mesmo que o vestido* não lhe tenha feito inteira justiça, a musa da noite é Marion Cotillard. O Oscar que recebeu foi instrumental no espectro de expressões que a emoção intensa lhe convocou à facies (sim, os Oscars valem essencialmente pelo desfilar de rostos e celebridades).
Como nenhuma das fotos da cerimónia lhe apanhasse o sorriso, deixo-vos uma ideia aproximada via google images:

*O conceito das escamas sugerindo uma sereia não é mau de todo. Mas quando a estética é feita vassala do conceito, há subtilezas que ficam pelo caminho. O brilho da "modelo" tende a ser secundarizado. Foi o caso.

Red Carpet

Depois de uma exaustiva análise: Cameron Diaz em salmão.

Pinto da Costa e Jonh le Carré

Que me perdoem os caroliníngios, mas nem seria necessária a recente entrevista de Pinto da Costa à SIC (vídeo) para se perceber o ridículo do desenho táctico gizado pelo ministério público; a dupla formada com Carolina Salgado é, objectivamente, um equívoco.

Na entrevista ficamos a saber, por exemplo, que a acusação releva passagens da biografia escrita por Felícia Cabrita com base no pressuposto, mirabolante, de que o manuscrito teria sido lido por Pinto da Costa antes da publicação e -- enormidade maior -- que os conteúdos mereceram o seu assentimento. Outro momento estonteante é quando ficamos a saber que a confissão de Carolina Salgado relativamente ao caso Bexiga -- na qual ela se assume como a mandante directa da agressão -- foi considerada inconsistente. Ou seja, a auto-incriminação de Carolina foi tida como falaciosa, razão porque o processo foi arquivado sem que Carolina tenha sido pronunciada arguida. Levanta-se pois a questão elementar: como é que Carolina Salgado é tida como testemunha crucial nos processos que acusam Pinto da Costa quando a sua própria confissão não é considerada credível? Neste particular, foi comovente assistir ao insólito abraço de gerações no momento em que Pinto da Costa cita Joana Amaral Dias.

A minha tese é muito simples: falta educação sentimental -- sensibilidade emocional, se quiserem -- à equipa do ministério público. Só assim se compreende que tenham apostado tão alto em Carolina sem por um momento tentarem compreender as armadilhas do quadro emocional em que ela estava imersa. Nem vale a pena lembrar que a versão publicada terá sido ligeiramente alterada de molde a satisfazer as amizades sulistas de Carolina -- assim o prova a versão original a que a defesa de Pinto da Costa terá conseguido aceder.

A minha questão é prévia. Na explicação da traição de Judas, Žižek socorre-se de uma ideia que vale a pena resgatar. Essa ideia fica sintetizada numa citação de John Le Carré: "o amor é tudo o que ainda podemos trair". Invertendo, só pode haver traição quando existe uma relação sentimental a sacrificar. Quando não, tudo o que existe e calculismo, logro, deslealdade porventura, mas sem os pináculos da traição, sem o agonismo de de alguém que violenta o que deveras sente. Carolina amava ainda Pinto da Costa quando percebeu que só se libertaria da dor desse amor quando ela própria fizesse o luto. Portanto, ao denunciar Pinto da Costa como corrupto, quis matar o que sentia: desembaraçou-se da esperança que sempre teima e transferiu o anelo passional para o campo da vingança.

O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford dá-nos disto uma perspectiva instrutiva. Numa leitura superficial do filme, diríamos que Robert Ford se pôde dispor a matar Jesse James quando a adulação que por ele sentia se transmutou em desilusão. Nessa perspectiva, é quando Robert Ford se apercebe da humana banalidade de Jesse James, da banalidade da sua marginalia, que se lhe torna possível negá-lo, assassinando-o. Mas o que o filme subtilmente descortina é o quanto esse gesto mortal deve ainda de uma relação de adulação. Ao matar Jesse James, Robert Ford experimenta o poder iconoclasta de quem mata aquilo que lhe dava sentido à vida. Robert Ford não matou por 30 dinheiros, matou por amor: o seu gesto é ainda da ordem da traição.

Carolina Salgado foi visivelmente movida por um amor que apesar de ferido ainda estava suficientemente vivo para deixar de doer. O ministério público viu em Carolina Salgado uma oportunidade de ouro. Nada contra. Mas deveria ter procurado perceber que, por definição, os gestos da ordem da traição não têm escrúpulos. Basta pensar que Carolina foi capaz de confessar um crime que não cometeu e estamos conversados. A questão é que, como o ministério público já deve ter percebido, a paixão que alimenta a traição pouco se comove com rigores da justiça. Gosto muito de Maria José Morgado, mas acho quando a laranja não tem sumo nenhum espremedor nos redime.

Žižek: a marioneta e o anão

Estou um tanto preocupado. Deitado sob o candeeiro, armado com um livro contra a insónia, não consegui conter uma espécie arrepio patriótico ao atravessar 70 páginas para dar com o bom do Žižek a citar Pessoa. A bem dizer, a citação é excedentária e o poema fraco. Tratou-se, muito claramente, de um momento do mais puro show off ; algo que, como sabemos, é muito habitual entre os eslovenos de extracção lacaniana.

Mas a verdade é que é difícil ficar de mal com uma lógica ostentatória que vinga em fazer tremer as nossas "província finitas de significado", ainda que tal se revele uma estratégia de persuasão emocionalmente desonesta.

Ao evocar a cada página referências culturais (filmes, literatura, momentos históricos) num refinado intertexto, é como se o manhoso do Žižek falasse ao mesmo tempo que passa slides com imagens da nossa infância no decote Monica Bellucci (data show, no duplo sentido). Ciente disso, não surpreende o despudor com que Žižek se permite a usar o melhor da nossa atenção para lacanizar sobre as maravilhas da banha da cobra. Raramente compro, mas não resisto inteiramente aos encantos de tão erótico vendilhão.

Camacho

Não sei qual seria o futuro mais acertado para José António Camacho, mas também não conheço assim tanto sobre o futebol que se joga nas distritais do Afeganistão.

Feminismos e MEC

Uma das modas da direita indígena é escarnecer o feminismo. A moda parece vingar até porque -- precioso capital simbólico -- não faltam por essa direita mulheres dispostas a falar mal das feministas. E depois há também aquelas mulheres que, não sendo de direita, não perdem uma oportunidade para falar mal das feministas conquanto isso represente um pretexto para, em abstracto, falarem mal de outras mulheres (a inevitável boca machista, shame on me).

No fundo é uma forma de dizerem, a seu modo: "vejam como é que eu cheguei aos píncaros sem meter cunhas à meritocracia, vejam como, ao contrário dessas outras mulheres, as feministas, sou toda boa e/ou extremamente feminina". O que para muitos parece constituir um choque é que, falando de mulheres, o reconhecimento injustiças de género não não acarreta processos sumários pelos quais se extingam a vaidade feminina ou a confiança nas próprias capacidades. (O uniforme de algumas feministas que conheço passa por indecentes tops sumários.)

Dito isto, não posso deixar de salientar este texto da Ana Margarida Craveiro. Vindo de onde vem é sem dúvida um statement que vale a pena relevar. Já agora, deixo-vos também um outro texto. O autor? Um perigoso esquerdalha, Miguel Esteves Cardoso:
"(...) O que interessa é defender, nos tempos que correm, a honra e a pertinência das feministas portuguesas. Já não suporto ouvir mais uma jovenzinha empertigada dizer que é «feminina» mas não «feminista», que isso dos movimentos de mulheres eram coisas dos anos 60 que já passaram, e que aquilo que importa agora é afirmar a personalidade, independentemente de se ser homem ou de se ser mulher.
(...) Será mesmo preciso que um velho machista como eu venha publicamente arruinar a sua reputação e dizer que em Portugal quem tem um mínimo sentido de justiça é quase obrigado a ser feminista?" MEC, As Minhas Aventuras na República Portuguesa.

Do culto dos livros

Adaptação de um texto de Inês Pedrosa:

As mamas
são um amor pesado. Arrastam-se atrás de nós como fantasmas, mesmo antes de arrastarmos fisicamente com elas, de lugar para lugar. As mamas tornam-nos conservadores: naqueles momentos em que nos apetece mudar de casa, de país, de mundo, elas perfilam-se diante dos nossos olhos, solenes, um exército de carnes ternas desafiando o nosso desejo de mobilidade. Revoltamo-nos: decidimos deixá-las para trás, oferecê-las, esquecê-las - mas elas não deixam. Porque quando passamos as mãos nas memórias das mamas, medindo forças com elas, há-de calar-nos na boca um mamilo que, rosado, tem alguma coisa para nos dizer, alguma coisa que esquecêramos ou que agora subitamente descobrimos. Alguma coisa tão nossa que não reparámos nela. Um verso sublinhado, uma noite, um abraço que nos acelera o bater do coração e o galope do cérebro. Quantas vezes utilizámos soutiens como refúgios do cérebro contra as investidas da mama? Quantas vezes os usámos como trincheiras sentimentais contra as razões da vida? Quantas vidas vivemos dentro deles, por procuração? Quantos anos passámos escondidos nas esquinas daqueles decotes, à espera que deles saltasse a surpresa redentora que, de tanto esperarmos, se esfumou? As mamas são os guardiões das nossas culpas: da muda acusação inscrita nas mamas ancestrais e virgens das que nunca tocámos ao grito silencioso das que se desmoronam nas nossas mãos, glamorosas, cintilantes, cheias de areia, chantilly, marcas de lágrimas e até - nefando crime - sombras de chocolate belga. Por que gostamos tanto de algumas mamas discretas e nos negamos a conhecer tantas mamas frondosas? Por que insistimos em espreitar decotes que nunca serão nossos? Por que mergulhamos em mamas que sabemos que nos vão magoar? Quantas vezes nos enganámos nas mamas, quantas vezes nos enganámos por fugirmos das mamas?

Ler

The rise and fall of the shopping mall: "Oddly, this most suburban American invention was supposed to evoke a European city centre. (...) While malls continue to multiply outside America, they are gradually dying in the country that pioneered them.
Sendo Portugal um país onde o lazer aquisitivo se concentra desproporcionadamente nos centros comerciais, não deixa de ser curioso perceber como esse sinal de modernidade (os patéticos records do maior centro comercial da península, etc.) se encontra em acelerada extinção no país da sua criação.

London International Disability Film Festival X'08

Uma sugestão para os leitores que se passeiam por aquelas bandas (programa):

"(...) This contrasts starkly with the utter hypocrisy of the mainstream film industry's attitude to disabled people: using them for pity and Oscars, but not wanting the reality of either their presence or their real stories on screen."

Este ano está a causar algum banzé a proibição pela BAFTA do "The Last American Freak Show". Trata-se de uma decisão vagamente paternalista que, em nome do "desconforto" causado pelo filme, opôs a vontade expressa do London Disability Arts Forum em que o filme fosse exibido. Os contornos da proibição aqui e o trailer:

Dois exemplos de festivais anteriores (duas excelentes peças de paródia auto-irónica):


Ariza Makukula e Vukcevic

1- Ariza Makukula*, além de um excelente jogador, apresenta elementos carismáticos que merecem o melhor da vossa atenção. Voz radiofónica, sorriso iterativo, presença amena, o luso-congolês espraia-se entre colegas, jornalistas e adeptos com a atitude declarada de alguém que está ali para fazer amigos. Coisa notável. Vivemos num tempo em que a poupança de energia social entre jogadores atinge limites ridículos de minimalismo. Alinho algumas razões para isso:

- a incorporação da ética do profissionalismo para além da dose (no fundo, a clássica separação entre trabalho e conhaque levada à estalinização da personalidade);
- o fantasma da luta pela titularidade (cada colega é também um contendente pelo lugar, acontece que emocionalmente nem sempre se resolve da melhor maneira a tensão evolutiva entre competição cooperação);
- o crescente nomadismo (não convém ao artista de circo criar laços com a cidade e as gentes que em breve terá de abandonar);
- o enfado dos estágios (o muito tempo passado em estágios contribui para que o espaço de sociabilidade do clube seja crescentemente associado a uma dimensão sacrificial).

Portanto, se é para acrescentar ao cinzentismo que impera na mediatização futebolística nativa, sou o primeiro a celebrar o facto de Ariza Makukula não ter rumado para a longínqua Espanha.

2- Vukcevic, não obstante a relação filistina que tem com o futebol (enquanto espectador, vá) e logo com a vida (meu silogismo), tem condições para devolver ao Sporting algo do Oriente luxuriante que o visitou nos tempos de Sousa Cintra (Ivkovic, Vujacik, Juskoviak, Balakov, Cherbakov, Yordanov). Joga muito, disso não haja dúvida.

*Lourenço, a compleição fonética das palavras "Ariza" e "Makukula" não é separável sob pena de clamoroso logocídio. O sentido retumbante de "Makukula" só pode existir com a suavização poética que decorre do jogo vogal aberta/sibililante em Ariza. Na TSF já perceberam isto e eu sei que és uma pessoa de bem.

O melhor da minha geração


A carreira de Ronaldo no balanço entre lesões duradouras e mulheres efémeras:
"Writer Andrew Downie asserted a correlation between Ronaldo's personal life and performance on the pitch, noting that his most prolific periods of goalscoring have coincided with the times when he was happily married."

A tal

Na genealogia do desejo o amor é uma espécie de home cinema.


Escrita em dia

Convenhamos. As cartas de suicídio filiam-se numa tradição literária um pouco exigente.


PJ Harvey, Before Departure.

Um ano depois


Primárias

Para acompanhar as eleições americanas a par e passo, acedendo a informações detalhadas sobre aquilo que os diferentes candidatos comeram ao lanche, aconselho este blog da CNN.

Avulsos

"(...) I only mean to say that we continue to live in a world in which one can risk serious disenfranchisement and physical violence for the pleasure one seeks, the fantasy one embodies, the gender one performs."
Judith Butler, Undoing Gender
Para a Gisberta


Aqui, este vosso servo à conversa com o Pedro Rolo Duarte.

Avulsos

---"bruno, meu, em vez de andares aí em trocas de postezinhos com chavalitas armadas em virgínias woolfes, punhas o olho nestas maravilhosas citações tuas que eu ando a escrever há uma carrada de dias e que tu não ligas um caralho; ok?" Desfazedor de Rebanhos
Em primeiro lugar vale a pena reparar na refinada estilística que separa "caralho" de "ok" com um ponto e vírgula (sem link para o Casanova, sou um groupie em negação) para depois rematar com um inflamado ponto de interrogação. Um mero detalhe neste ínclito® cultor da língua. Mas o que mais me emociona é, sem dúvida, o gesto cénico que finalmente traz às linhas da blogosfera uma cena de ciúmes, mais, o que é melhor, com todos os seus preciosos ingredientes: maledicência, asneirada, queixume, exigência e (claro) analogias literárias.

Não conhecesse eu há anos a estaleca do António, pelas linhas que lhe visito, creio que este post bastaria para lhe fixar as credenciais. Suponho que era uma personagem da Jane Austen que dizia (cito de cor): "a resignação atinge o seu auge quando aquilo que nos é negado perde o seu valor". Os egos demasiado sensíveis jamais admitem o ciúme. Perante qualquer afloramento de despeito preferem menosprezar o agente da ignomínia a acusar o toque.

O facto é que, ao contrário do que supõe a citação acima, na maior parte das vezes, a resignação é algo de narcisicamente construído, construída como uma defesa que nega valor às pessoas para des-importar, a posteriori, o valor dos seus gestos. Resignação com desprezo é, frequentemente, a única saída para egos demasiado senhores de si. E é nesse contraponto que uma justa medida de ciúme aparece como a forma de generosidade da parte alguém que se assume como senhor(a) de si, e não só: "acuso o toque, expondo as vísceras do ego, para não ter que negar importância a quem o inflige". Embora falho de razão (I've a watchful eye), só posso agradecer ao António pela generosidade vertida neste belo momento de "ciúme em post". Um senhor, pois claro.

Avulsos

"---Entretanto, agora que já se sabe quem é o candidato Republicano, a questão que começa a tornar-se fundamental é qual, Obama ou Clinton, poderá derrotar McCain. E aí as sondagens - independentemente do que acharmos sobre a sua fiabilidade - estão a enviar um sinal: Obama bate McCain; Clinton just maybe." Margens de Erro

Alfa

Ao meu lado no Alfa sentou-se uma senhora bonacheirona pelos seus cinquentas. Visivelmente cansada por um dia exigente, acabaria por adormecer acidentalmente no meu ombro. Algo atrapalhado, entre o constrangido e o enternecido, deixei-me ficar numa imobilidade só perturbada pelo gesto cuidado com que ia virando as páginas do livro. E assim ficámos desde o Entroncamento até Pombal, altura em que, aparentemente sem se dar conta da pose do sono, acordou para atender uma chamada.
Quando saímos em Coimbra sorriu-me entre malas, não exactamente como quem se despede de uma almofada. Mas algo próximo.

O tempo do arquivo

À atenção da defesa de Leandro Lima: Miss Woody.

Masturbação e formas elementares de acontecimento

Em Le Sens du Mal Marc Augé propõe o conceito de "formas elementares de acontecimento": manifestações físicas ou biológicas às quais é imputada uma causa social. Conceito bastante proveitoso para pensar como nalguns quadros culturais certos eventos como a morte ou a doença, ainda que com causas biológicas identificáveis, não dispensam as causas sociais que as explicam. Essas causas essas são consumadas por dispositivos como a feitiçaria. Uma "malária de feitiço" é a mesma malária que a ciência biomédica reconhece, apenas que a sua causalidade, atribuída à actuação de um familiar ou vizinho, é posta a montante dos factores biológicos. (Na cultura cristã, o castigo em resultado de pecado contra um semelhante representa uma interpretação análoga).

Numa tentativa de abastardamento da boas intenções do Augé, pensei em recolher as formas elementares de acontecimento para destrinçar a experiência masturbatória auto-imputada da experiência que resulta de uma relação entre dois corpos (vulgo: masturbação vs sexo). Na verdade, se seguirmos a genealogia da experiência adolescente, a relação sexual constitui a "socialização" de uma modalidade que a precede (ainda que nela se inspire) e não o contrário. Ou seja, a masturbação não é a privatização narcísica do sexo primordial mas o verdadeiro percursor.

Acontece -- que de acontecimentos falamos--, acontece que conceber a masturbação como o evento biológico sem causa social desacredita a importância que as fantasias e as memórias assumem enquanto narrativa mobilizadora da experiência orgástica de matriz masturbatória (recuso a palavra onanista, um aproveitamento equivocado de um coito interrompido do previdente Onã).

As fantasias e memórias são como espíritos que visitam a intimidade masturbatória. Colonizada pelas "causas sociais" que compõem o fantasista e o nostálgico, a masturbação é pois uma forma elementar a acontecimento segundo Augé. O impossível escape das causas sociais compõe a ideia de um prazer elementar inevitavelmente "assombrado" por complexas hipóteses sociais.

Imperdível

Em absoluto: esta entrevista (caso haja alguma pessoa com acesso à internet que ainda não a tenha lido).

Síndrome de Peter Pan

Avanço com uma boutade: Leandro Lima é o menino que há em nós, o menino que não queria crescer. Amenizo com argumento: só pode procurar fraude no propalado desfasamento entre idade e BI quem domine por completo a cadência e os mistérios do voo destrutivo do tempo. Cito autoridade: Santo Agostinho não condenaria Leandro Lima por uma questão de humildade filosófica. Busco empatia: é lícito que nós também o não condenemos em nome de uma precaução vital: nunca enjeitar os dispositivos ficcionais que nos poderão vir a servir. Procuro cúmplices electivos: espero que a Miss Woody concorde comigo, afinal a relação ente palimpsesto e transcendência não se cultiva impunemente.

A sunday


Avulsos

"Considera que houve ou não precipitação em constituir Kate e Gerry McCann como arguidos?
Neste momento, a esta distância, com a experiência que tenho como magistrado do Ministério Público, acho que talvez devesse ter tido outra avaliação. Não tenho dúvidas sobre isso.
Houve uma certa precipitação?
Houve uma certa precipitação."
Alípio Ribeiro, director nacional da PJ em entrevista ao Público

As excepções esfumaram a regra

Ora aí está um belíssimo trocadilho para a posteridade.

Ronaldo II

Caro maradona, o livre do Ronaldo é, sem a mais pequena margem de dúvida, uma coisinha assombrosa. Mas acompanhando o comparativo que fazes com outros executantes, fico com a sensação de que vale a pena ponderar a margem de intencionalidade do "chutador". Ainda que a dimensão de casino esteja sempre lá (a carreira do Stepanov é a prova disso mesmo), homens como Roberto Carlos e Beckham (menos o Mijhalovic, apesar de mais genial nesse particular) sabem exactamente onde a bola deles vai entrar caso a coisa corra bem, ou seja, caso entre. E se a bola não entrar por aquele trajecto que eles planearam (muitos dos planos do Roberto Carlos incluem as previsíveis aberturas da barreira pelo medo) não entra de todo. Já o Ronaldo sabe apenas (e não é pouco) que chutando a bola daquela a maneira a consegue fazer passar pela barreira com boas probabilidades de chegar à baliza e, mais, cheia de potência e com efeitos que são sempre inteiramente imprevisíveis (até para ele próprio). A completa posse do plano de golo vale o que vale na avaliação da elevação artística de um golo, mas a verdade é que o Ronaldo sabe tanto do que se vai passar da barreira para a frente como o infeliz do guarda-redes (vale a pena ver esta entrevista onde, com tocante honestidade, ele assume isso mesmo). Contudo, não resta a dúvida que Ronaldo adoptou uma forma de remate que sendo amplamente imprevisível na sua coreografia tem uma assinalável propensão para dar golo. Muitos e bonitos.

P.s. Um dia gostava de o ver fazer aquele remate clássico: a partir da meia-esquerda em arco com a parte interior do pé ao poste mais distante. Seria como olhar para os primeiros quadros de Picasso e reter a certeza que ele sabia as formas elementares do virtuosismo antes de parodiar aquilo tudo (no caso do Ronaldo, as leis da física). Não é que isso importe muito, mas enfim.