Ronaldo

Não me parece razoável que um jogador primordialmente conhecido como um colosso técnico se ponha por aí a marcar golos ao desbarato. Se ele continua assim o seguro daquelas pernas não tardará a atingirá valores próximos do PIB nacional. Atente-se no escândalo: faro goleador, resistência, velocidade, técnica, força, remate em corrida, livres, cabeceamentos, centros... Onde é que isto vai parar? (Bem, ninguém é perfeito: o Bynia faz lançamentos de linha lateral melhor que ele). Andamos há não sei quanto tempo com golos dele a cada 4 dias. Isto, por exemplo, foi ontem:


Sócrates

Eu que costumo ter um dom para lhes tirar a pinta, ao fim deste tempo todo ainda não consegui perceber o que move José Sócrates na política. Juro. Para o gosto narcísico pelo poder há ali pouco pouco culto da personalidade (talvez porque disfarce melhor que outros, Santana ou Sarkozy por exemplo), desde logo na reserva da sua vida pessoal. Para o carreirismo puro faltam os traços de ambição desmedida (talvez porque seja bem medida -- a ambição de Durão, por exemplo, sempre saltou à vista com exuberância). Para uma ética de serviço público faltam os sinais de genuína preocupação com as pessoas (Guterres tinha essa ética, no caso de extracção católica). Para uma agenda ideológica em fundo falta-lhe ideologia (a atracção pela terceira via é mais uma omissão ideológica em favor de uma vassalagem aos rigores da competitividade).
A presidência da União Europeia deixou perceber alguns sinais de deslumbramento infantil, adiantando algumas possibilidades, mas sinceramente ainda me faltam algumas peças para completar o puzzle.

Correia de Campos

A demissão de Correia de Campos constitui uma boa oportunidade para percebermos como se cristalizará a relação entre políticas e protagonistas. A engrenagem de dissolução do Serviço nacional de Saúde estava montada com o aval do líder do governo, mas Correia de Campos, com a sua agenda reformista própria, fortemente inspirada pela sua experiência no Banco Mundial, era bem mais que um pau mandado. Pela sua singular competência tecnocrata e marcado perfil neoliberalizante poderá bem acontecer que com a sua demissão tenha caia uma Correia fundamental ao expedito desmantelamento do SNS. Poderá ter acontecido que a contestação popular tenha tornado politicamente inviável o caminho gizado pela devoção economicista de que ele era o padroeiro. Por outro lado, a personalização das políticas na figura do ministro veio permitir a Sócrates perpetuar a política, apenas substituindo um rosto demasiado desgastado para pôr outro de fresco. Nesse sentido, face ao nível de desgaste político, a substituição de Correia de Campos pode bem significar uma ardilosa forma de relegitimação social do processo de desmantelamento do SNS. Esperemos que não.

2-0

À semelhança do ano passado o Porto deverá saber manter um difícil equilíbrio entre a valorização da competição que disputa e a definição tranquila do seu campeão. Ou seja, importa que o circo emocional do futebol seja mantido de modo a permitir que o campeão, secretamente incontestado, se assuma por entre um simulacro de incerteza e dúvida. Este ano as coisas não têm corrido nada bem: a emergência prematura de um campeão sem oposição inevitavelmente agasta o valor simbólico daquilo que se disputa. Talvez por isso se tenha feito ideia corrente a inverosímil hipótese do FCP vir a jogar a Liga espanhola. No entanto, no que respeita ao presente campeonato, a derrota de ontem poderá ser um sinal da renovada atenção da SAD portista perante a necessidade de fazer da Liga Bwin uma competição suficientemente custosa para prestigiar o seu vencedor. É uma gestão difícil que se deverá manter na ordem do dia enquanto os contendores directos do FCP não conseguirem assumir com outra naturalidade e consistência as suas prerrogativas históricas.

Avulsos

Da série "Coisas que todo o antropólogo deve saber":

---"Não é preciso falar de Marc Augé cada vez que se pára numa área de serviço. É melhor aproveitar para fazer um pouco de ginástica." João Vasconcelos in Devagar

Torpor

Algum dia o torpor cultural de Coimbra haveria de pôr os seus descontentes em movimento. Os dados estão lançados. Tudo muito explicado num texto que pode ser subscrito aqui.

Alicia

Só num blog muito à frente:

P.S. Convém abanar a anca com moderação se no local de trabalho.

PS: deportados e deputados

Vamos percebendo que o PS se reduziu inteiramente a uma máquina cujo propósito primordial é a reprodução no poder a bem de uma selecta carteira de interesses.

1- A aplicação da legislação sobre os medicamentos unidose seria um passo perigosíssimo. Ainda bem que houve o bom senso de travar esta medida tresloucada com estudos exaustivos de duração indeterminada. Pergunto: como é que uma prática elementar há tantos anos por essa Europa fora se protela este tempo todo? É bom de ver que a redução da despesa pública se consola em cortar a direito nas urgências, mas claro: pianinho quando chega a hora de tocar nos lucros da indústria farmacêutica.

2-Este post do Francisco José Viegas sob a deportação dos emigrantes marroquinos é bem representativo de como está cheia a gaveta do "partido anteriormente conhecido como Partido Socialista". Lá ficaram quaisquer resíduos de respeito por pessoas caídas em desgraça. De solidariedade com a pouca sorte dos outros nem vale a pena falar, para mais se forem estrangeiros (até se dão ao requinte de deportações semi-clandestinas ). É pouca sorte viver em em ditadura, como é pouca sorte viver em Marrocos numa pobreza desesperada. É este o PS que tanto deve aos seus exilados.

Israel

Abid Katib/Getty Images
"Palestinians streamed over the border to buy supplies that have been cut off from the Gaza Strip by Israel".

Não fogem do Egipto pelo meio das águas mar vermelho. Vão para Egipto em busca da comida tal como foram um dia os filhos de Jacob, os irmãos de José. É de facto espantoso como pode ser cruel a falta de memória.

Génesis 42: 1-Vendo então Jacob que havia mantimento no Egipto, disse a seus filhos: Por que estais olhando uns para os outros? 2-Disse mais: Eis que tenho ouvido que há mantimentos no Egipto; descei para lá, e comprai-nos dali, para que vivamos e não morramos.

Zapping: navegar na tv

Estava tranquilamente a fazer um zapping para acompanhar o chá e umas bolachas quando sou abalroado por uma cena da novela da SIC. Não é que tivesse entornado o chá, até porque já o tinha bebido todo, mas tenho poucas dúvidas da razoável probabilidade desse cenário meio minuto antes. A referida cena acompanhava a ansiedade de uma jovem prestes a fazer uma audição para uma escola de samba a fim de se lhe apurarem os méritos que, eventualmente, a poderiam entronizar enquanto rainha da bateria. Não sabendo eu o nome da novela, tampouco o nome da personagem, passei algum tempo no google a tentar juntar os cacos do que se tinha passado. Os termos de pesquisa que indexei para chegar à verdade morrem comigo. O resultado partilho convosco: Débora Nascimento.

Avulsos

---"Eu não iria ao ponto de dizer que o Sr. Ministro Correia de Campos devia ser remodelado. Acho que substituí-lo seria mais que suficiente." Agrafo

Estereótipos II

Caro Sérgio Lavos,

Lendo a tua resposta, só posso reputar de oportuno o texto que nos trouxe à conversa (curiosa perversidade nisto dos blogues: mais facilmente nos manifestamos em relação a algo de que discordamos do que em relação a algo que calou cá dentro - nesses casos, no duplo sentido).

Creio que a nossa divergência espelha uma ambivalência que em boa verdade é constitutiva da obra de Butler. Judith Butler (num movimento que notoriamente herdou de Foucault) devota-se a instigar à "insurreição das histórias subjugadas" através de um aparente paradoxo. Consiste este em declarar a quase omnipotência do poder (o modo como ele estrutura a nossa subjectividade e como é reproduzido mesmo nas tentativas de o depor).

A questão é que o reconhecimento do longo braço das estruturas dominantes não funda em Butler (como não funda em Foucault) qualquer cepticismo ou fatalismo, pelo contrário: exactamente por reconhecer a extensão dos constrangimentos postos é que Butler se obriga a ser mais radical no desenho dos "pontos de fuga". Assim, se Butler não é particular entusiasta de que os movimentos gay e lésbico tenham uma agenda dirigida à luta pelo direito ao casamento não é por achar esta demanda ilegítima ou desimportante, mas sim por julgar que nalguma medida essa luta cristaliza a norma em vez de a desafiar radicalmente.

Não é muito diferente o modo como ela analisa os termos em que a identidade é constrangida pelos modelos de masculinidade e feminilidade. O sexo e o género só estão imbricados à nascença porque essa operação cultural hegemónica é posta em andamento deste o nascimento de uma pessoa e, também, porque o sentido da corporalidade nasce para nós já com essa imbricação: não conseguimos olhar para um corpo sem as lentes culturais que destrinçam "homem" e "mulher". Mas embora a ambivalência que denotas esteja de facto lá, e embora essas estruturas tenham toda densidade histórica de que falas, Butler não olha para essa historicidade com fatalismo, ela aspira ao radical desejo de a trancender: "These regulatory schemas are not timeless structures, but historically revisable criteria of intelligibility which produce and vanquish bodies that matter" (Butler, 1993).

A preocupação de Butler é a falta de reconhecimento e de "encaixe" social para as pessoas cujos corpos não se articulam com as expectativas de género: mulheres com modos masculinos, homens como modos femininos, mulheres que desejam mulheres, homens que desejam homens, mulheres que querem ser homens, homens que querem ser mulheres, intersexuais, etc. E aqui, num certo sentido, estamos entrados na teoria queer.

Para Butler a estreiteza dos modelos aceites inevitavelmente impõe uma violência nestas "excentricidades": Here is not the question of how discourse injures bodies, but how certain injuries establish bodies at the limits of available ontologies, available schemes of intelligibility (Butler, 1993). Na verdade a "secreta" utopia de Butler era um mundo onde não existissem homens nem mulheres, não existissem heteros nem gays, no mundo utópico de Butler só existiriam por corpos e prazeres.

Aqui chegado para responder à tua pergunta, naturalmente concordo que é importante a aceitação do igual poder na feminidade , como concordo que um homem deve saber aceitar o poder de uma mulher tanto quanto a sua autonomia para viver as diferentes forma de ser mulher (em todas os suas cambiantes e matizes). Sem ver nisso contradição, a esta senda de inspiração beauvoiriana acrescento aquela que Butler advoga: a necessidade de reconhecimento e de igualdade para as diferentes formas como os sujeitos se relacionam com os papéis de género prescritos: se os adoptam, se os matizam, se os invertem, se os subvertem ou (caso fosse possível) se os ignoram.

P.s. Tens razão quando dizes que o heterossexual não implica sexista. O meu entre parênteses no post anterior apenas queria fazer notar que a hegemonia que vem dominando as nossas sociedades é representada por uma norma que é ao mesmo tempo heterossexual e sexista.
P.S.2. Partilho inteiramente da crítica ao feminismo puritano, moralista e dogmático. Mas há muito que outros.

Estereótipos

"(...) Judith Butler apenas perpetua estereótipos (as chamadas diferenças de género) e justifica a marginalidade de comportamentos sexuais anómalos, que visam imitar e repetir estes estereótipos, contra os quais Simone de Beauvoir lutou."
Caro Sérgio Lavos, das duas uma: ou estás a ler mal Judith Butler ou então estás a ler com muita má vontade. Este excerto não se segura, nem como caricatura do pensamento de Judith Butler (que era, aliás, a minha primeira hipótese de leitura). Judith Butler não perpetua coisa alguma, quando muito explica como é que a diferença sexual se perpetua nos processos de formação da identidade sexual; justamente, pelos tais processo de mimese e reiteração de que falas: a incessante performatividade da diferença sexual.

Sem Beauvoir não existia Butler. Facto. Mas se Butler discorda de Beauvoir em alguma coisa (e discorda), é, desde logo, na recusa do sexo como aquilo de natural que estaria antes do género. Recusa, no fundo, a dicotomia natureza/cultura enquanto algo estanque. Segundo Butler nós apreendemos a materialidade dos corpos através dos valores culturais que tornam essa materialidade inteligível. Sexo e género estão imbricados à nascença. Na perspectiva de Butler, homem e mulher são dois "constrangimentos constitutivos" que se vêm perpetuando na cultura sob os rigores norma heterossexual (e heterossexista), cujo poder hegemónico ela reconhece tanto quanto opõe. Butler pode ser acusada de muita coisa, mas (pelos deuses!) não de perpetuar estereótipos.
Quanto ao mais, gostei muito de conhecer essa bela faceta da Beauvoir.

P.s. Não sei se vos disse, mas eu já abri a porta para a Judith Butler passar (gesto que não deixa de ser irónico se visto como cavalheiro). Foi tudo. É uma das minhas glórias imerecidas.

Imitation of Life (1959)






Amor maternal: coisinha mais dilacerante. Voltam-me umas poeiras aos olhos só de imaginar o que teria sido estar na pela de Annie.

Quaresma e os assobios

É uma evidência do mercado que a principal liga portuguesa de futebol não merece a presença de um jogador da monta de Quaresma. Que nesse quadro de imerecido privilégio haja adeptos do Porto dispostos a assobiar, em pleno Estádio do Dragão, aquele que tem sido o único vestígio de majestade no período pós-mourinho é uma estupidez difícil de qualificar.
Para a próxima tentem pôr esses vossos dedos nojentos na boca até sufocarem. Não os tirem até estarem a estrebuchar sem remissão. Quem não tem paciência para a prazeirosa economia de tentativa e erro do Quaresma não merece viver, muito menos arvorar-se portista.

Vukcevic

O Sporting tem no seu plantel um senhor que enverga o significativo número 10. Singularidade que lhe mereça as frames deste insigne blog? É que o senhor, de seu nome Simom Vukcevic, confessa que não gosta de futebol. Assim mesmo. O futebol para ele é uma maçada, detesta o jogo, diz, dá-lhe tédio e nem consegue aturar a hora e meia que dura uma final da champions league. Para ele é um trabalho tão pesaroso como lavar copos ressequidos com mokambo (a analogia é minha). Pacheco Pereira devia conhecer este exemplo para atirar à cara de todo o zé ninguém que desmesuradamente investe sonhos no futebol que os outros jogam, devia conhecer o perfil de Vukcevic para escarnecer aqueles tantos que se consomem por não terem tido talento bastante para sair do clube do bairro. Para quem cresceu edificando a compleição emocional a ver futebol, Simom Vukcevic representa um óbvio anti-psicótico. Pode ganhar milhões e desprezar tudo aquilo que nos foi negado, mas não sabe o que perde.

Expiação

Lendo alguma da crítica já disponível, sou levado a crer que o romance de Ian McEwan foi adaptado com algum sucesso. Não li o livro e por isso só posso presumir. Mas, a ser assim (dou de barato), só se prova que uma boa adaptação não resulta necessariamente num bom filme. Do filme, direi, gosto do onirismo que o atravessa (talvez até excessivo), da cena da praia na retirada de Dunkirk, e de alguns pormenores da performance inicial de keira knightley (fase durona).

Como as minhas almofadas sabem, sou um tipo dado ao registo melodramático, mas também dou muito valor aquela linha ténue que separa o doloroso esplendor das emoções fortes de um sofisticado proxenetismo emocional.

Acordo ortográfico

A consoante muda e a vogal aberta cingidas num gemido anacrónico.

O Amante, Duras (continuação e fim)


É inevitável pensar que perdi tempo demais a ver aqueles jogos da segunda divisão alemã, então comentados pelo Jorge Perestrelo, para só agora, em 2008, me dar à fineza de tirar a limpo a adaptação para cinema d'O Amante de Duras. Não porque não houvesse coisas mais importantes em linha de espera. Não (Santo Agostinho me guarde) porque despreze completamente a comunidade de troca que esgrime a agenda cultural por princípio de actualidade. Não porque a obra de Duras ocupe lugar comparável ao de outros autores que têm lugar cativo no meu testamento. A questão é que há um raríssimo poder colonizador nos seus textos, algo que provavelmente muito deve aos lugares que visita. E por aí se impunha a dívida. Saigão, Sadec, Horoshima, Calcutá: são espaços que fatalmente colonizam a débil imaginação deste jovem imberbe (note-se que ainda o sou, senão jovem pelo menos imberbe).

O dispositivo de escrita d'O Amante é inteiramente confessional e autobiográfico, o que não quer dizer que os factos correspondam efectivamente às vivências pessoais de Duras. Aliás, seria a própria autora a afirmar a ficcionalidade do texto que finalmente lhe concedeu o Gongourt em 1984 (Uma Barragem Contra o Pacífico havia falhado por pouco em 1967). Sabemos, por exemplo, que o amante histórico não primava pela beleza -- ao contrário do que a descrição mais ou menos generosa do romance faria supor, ao contrário do entretanto mitificado Tony Leung --, sabemos que o elemento sexual chegaria relativamente tarde na relação. Mas, à parte algumas minudências aplanadas ou distorcidas pelas exigências romanescas da narrativa, O Amante não trai o sentido memorial de uma relação iniciática, aquela que se constituiu para Duras como o alvor da sexualidade, da auto-suficiência económica, mas, também, o marco de uma transgressão que irreversivelmente violentou o futuro de uma putativa senhora de bem.

Na verdade, dada como era a reciclar materiais, parece lícito pensar que Duras tentasse enfatizar a posteriori os elementos ficcionais d'O Amante como parte de uma estratégia: tratava-se de limpar caminho à recepção d'O Amante da China do Norte (1991), título que, contra as acusações de auto-plágio, defenderia como o relato fiel do que realmente se passou.
Em todo o caso, a adaptação fílmica d'O Amante será sempre recebida quer contra o livro quer contra a biografia. E, nessa perspectiva, é desde logo muito difícil não vermos em Jane March um retumbante erro de casting. Poder-se-ia dizer, como a certa altura disse Duras, que Jane March é excessivamente bonita (Duras dizia que ela mais parecia a miss França). O que, sendo um facto, deixa a descoberto algo bem mais crucial. A beleza extrema não é em si um problema. A questão é que, seja contra a personagem que se desenha no livro, seja contra a persona de Duras, a Jane March falta a perversidade quase mefistofélica dessas outras. March é demasiado angélica e incorpora uma inocência que em Duras sempre existiu já como ruína.

A "adolescente fatal" habitava na personagem, essencialmente, através do paradoxo entre a entrega sexual de uma rapariga de 15 anos (que foi também a entrega da sua virgindade e da virtude social) e a contenção romântica de quem se limita a recolher o prazer e o dinheiro de um homem que tenta não a amar :"não quero que me ames, quer que faças comigo o que fazes com as outras mulheres". Só no fim, já no barco, é que percebe que também fracassou no projecto de não o amar. -- No filme a diferença de idades ou o espectro da pedofilia não chegam a ser uma questão, depressa tudo se dilui numa relação procedente com a imaginada licenciosidade daqueles recantos tropicais. -- Mas a perversidade sedutora tinha também uma dimensão de pacto com o mal; se por um lado a jovem Duras foi capaz de controlar os termos emocionais da relação, por outro a relação vai ser apropriada pelas lógicas vagamente dementes da sua família.

A relação com o amante chinês representa uma transgressão pessoal que a expõe às humilhações físicas e injúrias (da parte mãe e do irmão mais velho), mas também representa uma oportunidade financeira que é adoptada pela família -- sem contradição -- como uma fonte de rendimento. Duras constitui-se algures entre a mulher que domina o desejo do amante e a criança violentada pela família; é nesse cruzar de caminhos que esboça um exílio pessoal feito entre o fogo da demência e o fogo do amor. No fundo, talvez esteja aí o célebre muito cedo que foi também o tarde demais.

O que é curioso é que o rosto juvenil de Duras de facto guarda a densidade draconiana desse exílio, sobretudo num olhar que manifestamente desafia os rigores da inocência. Temos ali também a jovem que à sua maneira amou o irmão mais novo, a jovem cuja boca o iniciou nos prazeres do amor.

Mas o cinema tende a forjar uma realidade mais do que real, a distância entre rosto e emoção, a "distância entre intenção e gesto", ainda que complexificada (toda uma arte, essa complexificação), exige-se mais curta no cinema do que nos mundos da vida, onde, sem a pressão da verosimilhança, as disjunções proliferam sem guarda-freio. É exactamente a noção da trivialidade desse descompasso que nos permite crescer no filme cada vez mais concertados com uma possível afinidade entre actriz e personagem. Nesse momento estamos prontos para dar crédito à perturbação mal escondida nos gestos refinados de Tony Leung, nesse momento estamos prontos para perceber a tanta angústia que pode se alojar na pose majestática da limousine. Estacionada. Sempre, pacientemente à espera. Ele, majestático, no banco de trás, à espera. Até ao dia em que clandestinamente se despede no porto de saigão. O barco abandona-o rumo a Marselha. Aí, no banco de trás, ele já nada espera.

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Žižek: The Pervert's Guide To Cinema (II)




Sobre o Vertigo (1958):

"O abismo derradeiro não é um abismo físico, mas o abismo da morte de uma outra pessoa"

Caros e caras juristas (act.)

E não há nenhuma lei quem impeça este modus operandi tão obscenamente estruturante da vida pública portuguesa?
"O mesmo Ferreira do Amaral (ontem concedente hoje concessionário) que agora como Presidente da Lusoponte reivindica compensações financeiras em nome de um absurdo ponto contratual por ele aprovado."
P.S. O Rui Castro lembra que a concessão à Lusoponte foi sujeita a um concurso internacional com regras pré-estabelecidas. Para ele este facto deveria bastar para que ninguém se atrevesse a pôr em causa a honorabilidade de Ferreira do Amaral.

Em primeiro lugar, a honorabilidade, sobretudo a de quem serve ou serviu o bem público, alicerça-se numa conduta ética que naturalmente está sujeita a escrutínio. A essa conduta ética para o ser não basta apenas a boa consciência do escrutinado: em política aplicam-se as mesmas prerrogativas que se aplicam à mulher de César. Em segundo lugar basta termos uma noção de como se processam muitos concursos públicos de emprego, por exemplo, para não nos deslumbrarmos com o portentoso argumento das regras prévias. Quantas vezes as regras não são feitas à medida de um determinado candidato? Terceiro ponto: vale a pena lembrar que é a auditoria do Tribunal de Contas (pdf) que vem lançar as mais sérias achas na fogueira.
Eu é que não punha lá as minha mãos com essa solicitude.

Pavlovic

O Rogério Casanova, blogger adorado aqui deste cantinho -- apesar de já haver muita gente a gostar dele, uma maçada --, cometeu uma imprudência metafísica cujo desfecho trágico logo adivinhei. Digamos que teve a veleidade de prometer que não voltaria a postar enquanto o Sporting não ganhasse. Ao fazê-lo, mais do que atentar contra a sobrevivência do blog (problema provisoriamente resolvido), agudizou uma relação já de si bastante problemática entre o Sporting e a justiça divina/teleologia (riscar o que não interessa). A missão civilizadora que os deuses, satã ou o destino têm vindo a aplicar no Sporting passa por uma exigente formação ética dos adeptos: é-lhes pedido que alternem a capacidade de exercer o estoicismo com o inglório dom da esperança. A relação do Sporting com o destino está relativamente estabilizada por uma presença de sentido trágico que, vista ao longe, até se recobre de alguma beleza, repare-se como o adepto sportinguista enfrenta o fracasso privilegiando sempre a melancolia à neurastenia. Face a este estado de coisas, as possibilidades de vitória do Sporting dependem inteiramente das distracções dos tutores do destino. Só assim se compreende que o insigne Inácio ganhe um campeonato muito graças a um italiano cujo nome ninguém recorda (Di Franceschi), enquanto que o vistoso futebol da era Peseiro (mesmo) é punido pelos mais inglórios expedientes: um golo de Luisão na penúltima jornada e uma derrota na final Taça Uefa em plena Alvalade. Para lá dos problemas directivos e de outras coisas prosaicas como a proletarização de Moutinho ou concepção de Farnerud em 1980, o sucesso do Sporting passa por jogar na clandestinidade das vontades divinas. Ora, quando o Rogério Casanova desafiou o destino este limitou-se a responder à chamada. Com Pavlovic. Aos 94 minutos.

Žižek: The Pervert's Guide To Cinema

"Why do the birds attack? (...) The birds are raw incestuous energy."


Limpar o texto

Um amigo fidelíssimo fazia-me saber no outro dia um que um dos meus posts estava gravemente contaminado com um erro ortográfico (minha tradução). Erro mesmo que não uma gralha (ou sequer um erro por precipitada tradução de um som), tratava-se sim da conjugação obscenamente errada de um tempo verbal (um verbo que se seguirmos a gramática pelas inflexões afora fica simplesmente ridículo e inverosímil; é lícito supor que me guiei, uma vez mais, pela intuição estética, direitinho à asneira, pois).

Mas o que aqui surpreende não é o erro, o que surpreende é indigência do amigo ao me comunicar o erro, todo paninhos quentes (dizendo que teve dúvida e foi ver ao dicionário, etc.), imagine-se... por email. Se tivermos em conta que se trata de alguém capaz de me telefonar 5 vezes numa hora em circunstâncias tão extremas como a notícia recente da viuvez de alguma famosa jeitosa -- para partilhar a lufada de esperança que isso traz à sua vida --, estão a perceber o escândalo. Se eu tenho um telemóvel ligado 24 horas por dia é para me pedirem boleia para as urgências, para me avisarem de erros ortográficos e para me convidarem para copos (não necessariamente por esta ordem).

Bento Rodrigues


Nota-se que lhe falta a escola da televisão portuguesa, só assim se compreende a argúcia com que dirige as entrevistas (não precisa de agressividade para dominar o uso metódico do contraditório, temos ali um civilizadíssimo e bem informado advogado do diabo). Sou uma pessoa atenta pelo que devem confiar quando vos que Bento Rodrigues é o melhor entrevistador em canal aberto na televisão portuguesa (assim mesmo, a Paula Moura Pinheiro tem qualidades mas não resiste a molestar a economia da entrevista para mostar que sabe do assunto, é pena).
O prestígio que Bento Rodrigues recolhe nas entrevistas inevitavelmente migra para a apresentação, ou seja, ao marcar pontos como bom entrevistador parece logo mais sincero a ler o teleponto. O que faz dele o melhor pivot em canal aberto. Tenho dito.

Eastern promises

Entre outras coisas que não cabe estar agora a escalpelizar, Eastern Promises será lembrado como o filme em que Noami Watts me convenceu. Bem, ela já andava a tentar há algum tempo.


P.S. Fico triste que o Rogério Casanova tenha decidido acabar com o blog.

O Protegido: Luisão e Katsouranis

Acho injusta da decisão disciplinar do Benfica ao dar penas diferenciadas a Luisão e katsouranis. Facto: dentro de campo um jogador pode chamar à atenção dos colegas sobre o acerto de uma decisão no jogo. Nesse caso, sinalizam-se escolhas infelizes em relação às opções disponíveis em determinada jogada ou em relação às linhas de orientação emanadas do balneário. Para tal importa que quem reclama tenha autoridade, que a tenha dentro do jogo (não tenha cometido ele próprio erros de decisão) e que a tenha dentro do grupo. Luisão tinha autoridade no jogo e tinha-a no grupo (por ser capitão de equipa e patrão da defesa).

Aceita-se que tenha actuado em seu nome pessoal (ao cortar o lance sacrificou-se com um amarelo), aceita-se que tenha actuado em nome da defesa (é o sector que paga as favas quando se perdem bolas no meio campo), aceita-se que tenha actuado em nome da equipa (face a uma equipa rápida como o Setúbal as perdas de bola facilmente poderiam delinear os contornos uma derrota).

Mas Luisão peca a montante: no erro de análise sobre a natureza da falha de Katsouranis. Katsouranis não cometeu um erro da ordem da decisão ou sequer um erro táctico. Estando a ala esquerda minada, tentou reeducar o ataque endossando bola para Petit, o primeiro construtor de jogo do Benfica, jogador que até vinha jogando com alguma liberdade de movimentos nessas funções.

É verdade que o passe foi feito de uma forma demasiado lesta, tanto assim que Katsouranis não se apercebeu da presença de Edinho que entretanto subia no campo (Carvalhal tinha dado indicações para que Pitbull e Edinho, alternadamente, tentassem secar as liberdades de Petit). Mas se Katsouranis pecou por alguma coisa foi por ter jogado em função de automatismos tácticos informados quer pelo desenho ofensivo de Camacho quer pelos 65 minutos de jogo até ali decorridos. Nunca por os ter desprezado.

Assim sendo, o erro de Katsouranis é um erro de ordem técnica e não um erro de ordem da decisão. Não é preciso perceber muito de psicologia motivacional para saber que estes erros se tratam de forma diferente do que escolhas erradas: ralhar em cima de um erro técnico faz parte da mesma lógica que leva alguns pais a bater na criança que caiu.

Luisão tinha autoridade mas usou-a a despropósito e, o que é pior, fez da reprimenda ao erro de Katsouranis um facto público (num campo de futebol os gestos valem mais que os gritos como significantes públicos) . Posso até acreditar que existam atritos prévios no balneário (não esqueçamos que Katsouranis foi levado para o Benfica pela mão de Fernando Santos) assim como descompensações algo óbvias (depois da saída de José veiga o cargo de director desportivo espera por Rui Costa como se de Godot se tratasse). No entanto, Katsouranis, bem longe de ser um reincidente em erros levianos que prejudicam a equipa, é dos jogadores que mais se tem sacrificado em salvar o pescoço dos ingratos Camacho e Vieira -- basta contar o número de vezes em que já jogou a central esta época e as circunstância em que o fez (chegou a jogar ao lado de Míguel Vítor ensinando-lhe o pouco que sabia).

Ora, esta história sacrificial só agravou em Katsouranis o sentimento de injustiça, levando-o a um intempestivo pedido de explicações (com um pirete à mistura). Quem já viu o Luisão ser papado pelo Paíto, pelo Liedson, you name it, sabe o quanto aquela finta do Edinho lhe deve ter custado. Por questões estéticas, o capital de humilhação de um defesa com elevada estatura e com uma morfologia desengonçada é elevadíssimo: quando é fintado sobressai muitíssimo na fotografia. Que naquele momento Katsouranis tenha sido eleito como o bode expiatório de Luisão até é compreensível, mas, ao contrário da personagem de M. Night Shyamalan, a jusrisprudência do Benfica escolheu o herói errado. Katsouranis, este bogue está contigo

As forças

A explicação de António Vitorino é a minha favorita. Disse com todas as letras que um referendo em Portugal iria alimentar as forças que na Europa não querem o Tratado. Melhor deixá-las à míngua, as forças, pois, que isto da democracia às vezes ganha uma vontade própria e vai por aí. Danadas. António Vitorino com as forças não brinca desde aquela situação na cantina da faculdade. Agora é um comentador versátil que dá uma perninha na política, mas sempre, sempre, com muito cuidado com as forças. As forças são o grande berbicacho do século, ai se são. Há outros, mas as forças, essas sim, podem por tudo a perder. Melhor nem dizer água vai.
Caralho com as forças que aquilo ficou jeitoso.

Direita Liberal

"É verdade que os negros se encontram em média no fundo da tabela de quase todos os indicadores sociais americanos. No entanto, trata-se sobretudo de uma desgraça auto-infligida. As portas estão abertas a toda a gente nos EUA. Mas os negros americanos têm vivido o último meio século (basicamente desde o fim do Jim Crow) numa cultura de auto-guetização, de recusa do “sistema”, de racismo contra o “branco” (e mais recentemente o “asiático”). Se há hoje racismo em massa nos EUA é produzido pelos negros."
Texto de Luciano Amaral via André Azevedo Alves.

As polémicas sempre servem para alguma coisa. Com um pouco mais de atenção aos nomes, lá vou percebendo as muitas "tendências" que se agregam sob o modernaço estandarte da direita liberal indígena. E assim vamos.

David Mourão-Ferreira

Fechei o livro (Um Amor Feliz) um tanto consternado. Mas em vez de acusar um outro toque entendo que devo ser expedito em sacudir a água do capote: a prosa de David Mourão-Ferreira representa o fim de uma linha evolutiva algo perturbadora. Aquele registo ficcional parece suficientemente factível -- no modo e no moto -- ao mesmo tempo que revela um apuro nada verosímil. Poucas vezes li um autor tão encostado à "perspectiva do programador". Convencido, mas exausto.

Presidenciais

Caro Henrique, em face da história recente, parece-me um tanto insensato perorar sobre a densidade do template da democracia americana a fim de defender, como fazes, a pouca diferença que este ou aquele presidente possa fazer. Um exemplo simples de que as coisas não são bem como as pintas: Bush invadiu o Irque, Al Gore não teria invadido o Iraque.

Luiz Pacheco 1925-2008


© rabiscos vieira

Foi-se, o soberbo filho da puta.

L'amant (act1)


É inevitável pensar que perdi tempo demais a ver aqueles jogos da segunda divisão alemã, então comentados pelo Jorge Perestrelo, para só agora, em 2008, me dar à fineza de tirar a limpo a adaptação para cinema d'O Amante de Duras. Não porque não houvesse coisas mais importantes em linha de espera. Não (Santo Agostinho me guarde) porque despreze completamente a comunidade de troca que esgrime a agenda cultural por princípio de actualidade. Não porque a obra de Duras ocupe lugar comparável ao de outros autores que têm lugar cativo no meu testamento. A questão é que há um raríssimo poder colonizador nos seus textos, algo que provavelmente muito deve aos lugares que visita. E por aí se impunha a dívida. Saigão, Sadec, Horoshima, Calcutá: são espaços que fatalmente colonizam a débil imaginação deste jovem imberbe (note-se que ainda o sou, senão jovem pelo menos imberbe).

O dispositivo de escrita d'O Amante é inteiramente confessional e autobiográfico, o que não quer dizer que os factos correspondam efectivamente às vivências pessoais de Duras. Aliás, seria a própria autora a afirmar a ficcionalidade do texto que finalmente lhe concedeu o Gongourt em 1984 (Uma Barragem Contra o Pacífico havia falhado por pouco em 1967). Sabemos, por exemplo, que o amante histórico não primava pela beleza -- ao contrário do que a descrição mais ou menos generosa do romance faria supor, ao contrário do entretanto mitificado Tony Leung --, sabemos que o elemento sexual chegaria relativamente tarde na relação. Mas, aparte algumas minudências aplanadas ou distorcidas pelas exigências romanescas da narrativa, O Amante não trai o sentido memorial de uma relação iniciática, aquela que se constituiu para Duras como o alvor da sexualidade, da auto-suficiência económica, mas, também, o marco de uma transgressão que irreversivelmente violentou o futuro de uma putativa senhora de bem. Na verdade, dada como era a reciclar materiais, parece lícito entender a ênfase ficcional que Duras coloca no Amante, a posteriori, como parte de uma estratégia de limpar caminho a O Amante da China do Norte (1991), título que afirmaria contra as acusações de auto-plágio como o relato fiel do que realmente se passou.
Portanto, torna-se um pouco inevitável ver a adaptação fílmica d'O Amante tanto contra o livro como contra a biografia. E, nessa perspectiva, desde logo é muito difícil não vermos em Jane March um retumbante erro de casting.

(Continua: não é bem um jogo da segunda divisão alemã que me afasta do teclado, mas quase)

Dakar blues

Por muito mal que estivesse preparado, facto não raro, nunca gostei de chegar à escola para receber a notícia do adiamento de um exame. Onde os colegas viam uma oportunidade para finalizarem a matéria ou para a relerem pela 6ª vez, eu só via a pura a traição sabe-se lá de quem. Uma segunda oportunidade resulta em tédio quando eu já só quero ser atirado à arena dos leões com a convicção redentora do leite atrás derramado. Portanto, mesmo com as ameaças de terrorismo, eu estaria pior que estragado se o meu nome figurasse na grelha de partida para o Dakar. O desperdício de adrenalina é uma das formas mais elementares da tristeza.

Go Obama (act.)

A minha lista por ordem decrescente de preferêmcia: Obama, Clinton, Edwards.

Por muito mal que isto possa soar, a posição em que coloco John Edwards relativamente a Hilary Clinton explica-se por razões que não sendo extra-políticas se prendem mais directamente com o simbolismo histórico associado ao eventual aniquilamento do nexo presidente-homem-branco. Andamos nisto desde 1789 e eu não sei quanto mais tempo vou durar.

Resultados e reacções

Luka Modrić

Se não conhecem o nome, decorem a tempo do Euro 2008: M-o-d-r-i-ć. Vale a pena recordar que as imagens que se seguem não são -- conforme o vídeo avisadamente informa no final -- a compilação de uma época ou o best of da carreira, mas o mero resumo de um jogo de 90 minutos. Assustador:
(a gerência aconselha o modo silencioso)

Consta que vale 50 milhões.

Aquele cigarrinho

Muito tem sido dito em relação ao impacto da nova lei do tabaco sobre o movimento "café puxa cigarro". Em desabrido contraponto haveria aqui um silêncio a ser assinalado, meu propósito inicial, mas, pensando bem, não há. O facto é que por causa de uma outra lei, mais antiga, não haverá quaisquer repercussões sobre aquele cigarro que muito boa gente apõe ao coito (desconheço se há quem fume um cigarro após a masturbação, mas entrevejo aí uma coreografia icónica do auto-comprazimento). Não se pode legislar sobre o que não existe e para todos os efeitos em Portugal não há sexo em espaços públicos, não há pessoas sujeitas a apanhar o fumo pós-coito enquanto trabalham (não sei se há quem fume um cigarrinho com as prestadoras de serviços sexuais pagos, mas entrevejo aí uma coreografia icónica do fumo passivo), nem há quem fume na cama enquanto trabalha (não sei se os clientes e as trabalhadoras sexuais partilham umas baforadas no final, mas entrevejo aí uma coreografia icónica da cumplicidade entre oferta e procura).



Don't smoke in bed
por Nina Simone

Correia de Campos

Depois da mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva, fico expectante para ver se Correia de Campos passa de 2008. Também me interessa saber onde é que o senhor ministro vai trabalhar a seguir.

Confissões

Dada a urgência colocada na expectativa, refiz-me do equívoco da maneira mais dolorosa: consumi o filme dobrado em espanhol.