Sofrer em palco

Ontem no comício em Charlotte, Carolina do Norte, Obama teve de discursar poucas horas após saber da morte da avó. Firme, subiu ao palco e não se perturbou quando começou por homenagear a falecida octogenária como uma das muitas lutadoras na América, daquelas cujo nome não vem nos jornais, mas cuja vida dá conta de um dedicado empenho ao próximo. É só depois, quando Obama começa a enunciar a cassete retórica que tem usado nestes últimos dias, rally após rally, que damos em ver umas discretas lágrimas; a custo, ele vai tentando disfarçar. Impressionado pela densidade do momento, tento interpretar o tempo dessas lágrimas em várias hipóteses.

1- A comoção torna-se manifesta quando Obama retoma um discurso ensaiado, discurso que, por ter sido várias vezes repetido ao longo destes dias, o leva a abrandar a concentração e a deixar-se vaguear, já solitário, pela memória da avó.

2- A comoção torna-se manifesta quando Obama deixa de falar na avó e avança para a coisa política, de repente reduzida à sua dimensão ritual e performativa. A política espectáculo, pois. A necessidade de seguir em frente, de volta às mundanidades e às urgências da vidinha, é uma crueldade no adeus, uma crueldade particularmente difícil de consentir.

3- A comoção torna-se manifesta por força de uma justa auto-comiseração, porventura vinda da consciência do estoicismo que lhe estava a ser exigido ao ter de continuar na mais difícil das circunstâncias. Auto-comiseração também por saber que, por umas meras horas, por umas ridículas horas após 47 anos de coexistência, hoje, quando se souberem os resultados, não terá nenhuma mãe com quem partilhar as notícias.



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