Por excesso

"Se a memória não me trai" é uma expressão corriqueira quase sempre usada para dar respaldo a uma inexactidão devida ao esquecimento. Certamente tenho os meus lapsos e não raro um nome fica a martirizar-me horas debaixo da língua. Mas acho abusivo que se invoque uma traição da memória para referir um trivial esquecimento. Se virmos bem, não custa perceber uma sabedoria perdida naquela expressão, jeitosa, isso sim, para denunciar as agressões de uma memória voluntariosa: a traição é sempre um gesto positivo e não uma omissão (para isso temos a memória que nos falha). E é mesmo assim que eu legitimamente me sinto traído pela memória, por excessos de lembrança que me roubam o sossego às tardes.



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