McCain

Segui com atenção o discurso de McCain. Do ponto de vista estritamente textual, não me custa reconhecer que foi o melhor discurso da noite. Obama, numa atitude conciliadora e presidencial, sóbrio e contido, não quis exaltar demasiado a sua narrativa pessoal como uma teleologia racial da história americana. Não foi auto-centrado e sobretudo evitou usar um tom triunfalista que hostilizasse deterninada América que continuará inconformada com a sua eleição (por exemplo, nos estados do Sul Obama teve menos votos que os seus antecessores democratas, sinal que ali race matters). Obama passou ao lado de um discurso épico mas manteve a inatacável postura ética que revelou ao longo de toda a campanha: não lhe cabia, como a Martin Luther King em 1963, inflamar a esperança, cabia-lhe aceitar serenamente o desígnio de uma nação reconciliada com o seu passado racista, cabia-lhe carregar com sentido de responsabilidade o peso da esperança nas nas suas costas: a esperança de um mundo multi-lateral pós-Bush e a esperança numa economia mais regulada.

O discurso de McCain mostrou todos os paradoxos que marcaram o seu percurso como candidato republicano. Falou com a dignidade e a grandeza de um self-righteous man, o mesmo que recusou ser libertado do Vietname para cumprir o código militar segundo o qual os primeiros detidos são os primeiros a partir -- com isso passou dois anos mais sob continuadas torturas; o mesmo que tem atrás de si uma carreira política marcada pela independência e pelo respeito dos adversários partidários; o mesmo que nunca se quis confundir com a direita religiosa e que soube demarcar-se de Bush em questões tão cruciais como a tortura. Mas enquanto ele falava, cumprimentando amavelmente o adversário, os seus apoiantes apupavam raivosos, incapazes de conceber qualquer referência elogiosa a Obama. Seria confortável pensar que naquele momento duas visões se esgrimiam, a decência de McCain e o fundamentalismo das bases republicanas. Mas infelizmente esse não é bem esse o caso.

O paradoxo e a contradição estão no próprio MCcain e no modo errático como conduziu a campanha. A verdade é que por demasiadas vezes se deixou levar pelas tácticas sujas do GOP que tudo tentou para levantar uma dúvida razoável sobre a ameaça Barack Hussein Obama. McCain a certa altura demarcou-se da sua história pessoal para cumprir os princípios estratégicos do GOP emblematicamente assinalados com uma inenarrável Sarah Palin. Palin, de uma confrangedora indigência intelectual, foi a principal voz de uma série de golpes baixos: Obama é um abortista, passeia-se com terroristas, é um socialista, não sabemos quem ele é, etc. Enquanto McCain aceitava a derrota falava um velho McCain de cujas visões políticas não podia discordar mais (política externa, política fiscal), mas que me merece todo o respeito. Mas aqueles apupos que, ao longo da campanha, ele tanto alimentou quanto calou são também parte da sua aceitação: o memorando de uma campanha suja, uma campanha que não seria a sua, mas que levou o seu nome.

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