Obama e a esquerda

Dá gosto ver as capacidades mediúnicas de tanta boa gente aplicadas em traduzir Obama à esquerda europeia. Não sou ingrato e valorizo quem, com o sacrifício do próprio lombo, põe mundos em contacto. Acham que tanto entusiasmo pró-Obama só pode resultar de ignorância em relação ao espectro político americano. Brilhante. Acham que Obama está a ser usado para corporizar uma delirante utopia revolucionária. Genial.

Insuflado por tanta sapiência visionária, tento aprender segundo aquilo que as minhas limitações ideológicas consentem ao mesmo tempo que tento não me importar demasiado com a dramática mudança de prelecção. Primeiro, diziam, a esquerda anti-Bush foi contaminada por um anti-americanismo primário incapaz de fazer destrinças e incapaz de perceber a exuberante diversidade dos States, agora, explicam, a esquerda está entusiasmada com a mudança anunciada pela eleição de Obama apenas porque desconhece que a melhor América (elegível) é ainda demasiado má para a sua cartilha (porque direitucha, porque imperialista, etc.).

Assim, acusam as hostes recicladas da oposição à Guerra do Iraque de andarem grandemente equivocadas reconstruindo uma utopia delirante em volta da putativa eleição do senador de Illinois. Fico confuso com o arremesso do utopismo, pensei que a esquerda europeia dava sinal de franco pragmatismo (e de "anti-anti-americanismo") ao abraçar a mudança possível representada pela hipótese Obama/Biden. Mas, valha a verdade, eu não não ouço vozes nem falo aramaico.



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