Žižek II

Réplica ao João Galamba sobre a entrevista de Žižek:

Concordo inteiramente João, a visão politica de Žižek, além de vaga e caprichosa (por exemplo, na frente que faz às políticas de identidade), depende crucialmente de um salto no escuro: a fé num momento que levará as sociedades contemporâneas a questionarem a ordem capitalista e a reconsiderarem a opção socialista (aquilo que ele refere anacrónica e propositadamente como a luta de classes). Mas é também por isso é que ele se sente tão confortável para dissertar sobre a actual crise -- suspeito que isso não seja alheio à rara pertinência política dos seus ditos na referida entrevista.

Neste livro de 2000, às tantas surge um interessante diálogo entre o bom do esloveno e Ernesto Laclau. Žižek criticava o privilégio pós-moderno do multiculturalismo e das políticas da identidade, por achar que tal linha equivale à aceitação tácita do capitalismo como uma inevitabilidade. Nas suas palavras: " [while] the postmodern irreducible plurality of struggles undoubtedly describes an historical process, its proponents, as a rule, leave out the resignations at its heart ― the acceptance of capitalism as “the only game in town”, the renunciation of any real attempt the existing capitalist liberal regime."

A resposta de Laclau começa por desfazer, e bem, a oposição entre luta de classes e políticas de identidade: "my answer to Žižek's dichotomy between identity politics is that class struggle is just one species of identity politics, and one which is becoming less and less important in the world which we live."

Mas a crítica mais retumbante de Laclau é quando acusa Žižek de querer questionar a ordem capitalista, ainda que em favor da regulação e do controlo democrático da economia, no vazio, sem apresentar uma única via para esse desiderato: I understand what Marx meant by overcoming the capitalism regime , because he made quite explicit several times. I also understand what Lenin or Trotsky meant for the same reason. But in the work of Žižek that expression means nothing -- unless he has a secret strategic plan of which he is very careful not to inform anybody.

O êxtase de Žižek compreende-se -- a entrevista reflecte o êxtase de quem ganhou o euromilhões com chave aleatória. É que o "plano secreto" de que Laclau acusava Žižek parece estar mesmo a cumprir-se nesta crise. É verdade que falar de modo vago sempre foi uma grande virtude profética, mas não é menos verdade que o capitalismo desregulado foi posto em causa, em toda a linha, de um momento para o outro.



<< Home