Até aqui cheguei

Já lá vão uns anos, uma namorada dos tempos de faculdade, segundos antes de assumir o cognome "ex", rogou-me uma praga um tanto difícil de esquecer: "essa tua complacência para com o Jesualdo Ferreira ainda vai ser a tua ruína" (creio que a memória não me falha). Nem sei se na altura já conhecia a obra de Jesualdo Ferreira. Tampouco sei se sabia o significado da palavra complacência. Hoje, pessoa relativamente instruída nas pragas da vida, conheço as incidências da carreira de Jesualdo desde o Rio Maior e creio ter percebido o sentido de "complacência" numa daquelas epifanias a que Rui Santos nos habituou sempre que fala situação laboral de Paulo Bento.

Peço desculpa a todos os que tenho feito sofrer -- mãe, esta é para ti -- por não assumir um posição de maior vigor no achincalhamento do Jesualdo Ferreira.

No entanto, creio que se atentarem na história recente , com a excepção de um tal Mourinho, encontrarão alguns atenuantes para o meu quadro emocional, são eles: Octávio Machado, Del Neri, Fernandez, Couceiro, Co Adriaanse. Ou seja, já sofri muito e tenho medo de deixar a minha fortuna entregue a um angariador de Del Neris. Por outro lado, e é isto que gostaria que ficasse, molestadinho que estou por assistir à procissão anual de contratações ridículas cuja única coerência táctica é a robustez das comissões ganhas por alguns, contenho a minha tristeza e suporto a humilhação por saber há anos ao beco evolutivo constituído pela obscena sobre-especialização Assunção-Meireles-Lucho.

A questão é que se num destes dias chegar a proferir o solene "Até aqui cheguei" não estarei meramente a pensar em Jesualdo". Na verdade, estou na irónica e tétrica posição de querer acreditar num qualquer Jesualdo como forma de não deixar cair a crença paradimática -- eu sei, isto é mais ou menos procurar Marx na experiência albanesa.

Agora é integrar o Tarik, recuperar o Lucho, solidificar o Fernando, calibrar o Pelé, fuzilar o Benitez e continuar a acreditar que nascem flores em qualquer desterro.



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