Aquele abraço

Nuno, seu nome (não deixa de ser curioso como é que um jogador de futebol pouco mediático vinga em colonizar um nome próprio tão batido, ao ponto de ser a única figura pública portuguesa que responde por "Nuno", acontecia o mesmo com o Bruno do Marítimo e com o Carlos do Boavista), Nuno, dizia...

Nuno começou a ameaçar a titularidade de Helton graças à propensão deste último para fazer coincidir as suas falhas com os jogos em que a derrota dissemina maior sofrimento. No entanto, não é por aí que a erosão de Helton junto dos adeptos melhor se explica. A meu ver, Helton está em perda não tanto por questões imanentes ao jogo, mas pela indisfarçável presença carismática de Nuno enquanto alma mater do grupo. É impossível não associar algo de uma frivolidade simbólico-emocional a Helton se atendido o contraponto oferecido por uma imagem recorrente: o marcador do golo corre em direcção ao banco para festejar nos braços de Baía e, mais recentemente, nos de Nuno.

Das duas uma, ou Nuno dá uns abraços extremamente fofinhos ou, como tudo parece fazer supor, é uma espécie de esteio emocional do balneário portista. No domingo, contra o Sporting, numa das raras aparições como titular, teve a fortuna de estar ligado a uma vitória post mortem (pós-Emirates, se preferirem). Por uma questão que é anímica e populista, a mudança de personagens na passagem da humilhação de Londres para a dignidade de Alvalade seria já suficiente para abalar definitivamente o paradigma Helton -- ou seja, mesmo que o treinador esteja certo de uma superioridade técnica do internacional brasileiro. Há mais. Não sei se repararam, mas no fim do jogo lá estava Bruno Alves, o herói da partida, num franco abraço a Nuno, carinho que terá durado uns bons 20 minutos e custado umas 5 costelas fracturadas. Significativo gesto. Mas se pensarmos que o mesmo Bruno Alves tem, há anos, uma estreita relação com Helton na gestão do condomínio defensivo portista, aquele abraço significa ainda mais, muito mais. Tanto assim que não me custa imaginar Otis Redding a rodar por estes dias no mp3 de Helton:

"Honey, I saw you there last night
With another man's arms holding you tight
Nobody knows what I feel inside (...)"

Helton está irreversivelmente fragilizado pelos abraços que perdeu para o outro, à vista de toda a gente.

Foto: EPA/Manuel De Almeida



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