Replay "R"

As realizações vão-se estilizando e a insegurança existencial segue-nos até ao sofá (por acaso, um móvel que não pratico). Lembro de um comovente cuidado nas transmissões desportivas de outrora, um esmero que temo nunca ter agradecido devidamente. Consistia este num "R" que piscava num dos cantos superiores da televisão de cada vez passava uma repetição. Contra toda a evidência, aquele "R" intermitente estava lá para nos lembrar que aquilo era, não a realidade a repetir-se, mas a gravação de um momento prévio. Hoje o "R" desapareceu, talvez por ser considerado redundante com a nossa percepção, acostumada aos truques do simulacro electrónico, talvez por uma evolução tecnológica que torne mais óbvia a disjunção entre o movimento real e a gravação lenta. A verdade é que a presença daquele "R" representava uma hipótese demasiado estimável: a ideia de que tudo pode acontecer outra vez, a inteira verosimilhança de uma repetição do real. Santo Agostinho e Borges perpassam na sala, o tempo sucessivo e mais uma das suas ficções. Sem o "R" nada é garantido, o sofá é um lugar de pavor cénico.



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