Freitas Lobo: o pós-hegeliano

"Luís Freitas Lobo existe neste mundo como argumento teológico: prova irrefutável de que a omnisciência é possível e está ao alcance de todos; mas dá imenso trabalho, e oblitera quaisquer outras virtudes." Rogério Casanova, Pastoral Portuguesa
Tenho alguma dificuldade em dar-me ao trabalho de rebater o argumento quando o estilo e a fineza da prosa chegam tão amplamente para o texto. Mas sob o perigo de um equívoco proselitismo anti-Freitas Lobo, sinto-me naturalmente obrigado a intervir. O que me magoa no texto do Casanova é que se ele queria exaltar o Carlos Daniel (que ainda no outro dia dissertava com acuidade sobre o império colonial holandês com apuradas incursões sobre a situação política de Martinica, isto em pleno Trio de Ataque) havia formas mais justas de des-sacralizar o Freitas Lobo. O argumento de uma imensa base de dados que oblitera virtuosismos é de tal modo ofensiva que, quando a li, cheguei a pensar retirar-me para Lanzarote onde, com uma ligação satélite a tudo que é canal de bola, gin tónico na varanda, Freitas Lobo poderia passar o resto dos seus dias a falar comigo esquecendo de uma vez este país de ingratos.

Não sendo mirabolante, a acusação de Casanova podia ser atirada com acerto, por exemplo, ao Olivier Bonamici da EuroSport. Ali o enciclopedismo vai ao cúmulo de seguir vários desportos e é mais que lícito reconhecer uma acumulação de Terabytes inverosímil fora de um perfil Rain Man. Ora, é bem verdade que Freitas Lobo pode saber umas coisas (aquilo chega a ser um pouco creepy às vezes), mas se peca por alguma coisa não é certamente pelo efeito esmagador do seu enciclopedismo.

Primeiro, porque ele recorre à base de dados com relativa parcimónia; como um cinturão preto que evita meter-se em desacatos, FL só começa a debitar ficheiros quando é ocasionalmente provocado pelo Carlos Daniel ou por algum jornalista incauto que queria saber demais.

Segundo, porque os defeitos de FL, que existem, não podiam estar mais nas antípodas do pecadilho que Casanova lhe aponta. Longe de ser um arquivo ambulante, Freitas Lobo é um comentador extremamente ideológico-- desculpem a má palavra. Ou seja, talvez excessivamente, ele pugna -- pugna é horrível, desculpem mais uma vez -- por uma abordagem ao jogo que reflecte a sua ansiedade pelo mundo melhor que idealizava ver reflectido em cada jogo, em cada opção táctica, em cada projecto desportivo, em cada contratação, em cada substituição, em cada "princípio de jogo". Ora, perdida que foi a sua utopia com o voo destrutivo do tempo, este extenuante exercício de melhorismo leva-o a olhar obsessivamente para os acontecimentos singulares, mesmo para um corte do Bynia, à luz de uma narrativa maior.

Um cruzamento bem tirado nunca é um cruzamento bem tirado, mas sim a evidência de como o trabalho de formação teve a pré-ciência de privilegiar o 4-3-3 de tal modo que, nesta noite, pudesse surgir um extremo sabiamente maturado pelo seu actual técnico como médio interior do losango e assim soubesse explorar pela faixa o espaço entre linhas de molde a servir os avançados. Temos assim um excesso de interpretação, notório no comentário aos jogos, que por vezes subsume o lance à leitura táctica e historicista que dele se pode fazer. Querido Casanova, se alguma coisa oblitera a leitura da realidade futebolística de Freitas Lobo é o facto de ele ser um comentador ideológico na linha de um hermeneuta pós-hegeliano que não se libertou dos ancestrais vícios dialécticos e meta-narrativos.



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