Fisioterapia

Deitado no divã enquanto o meu abdominal é gentilmente massajado com ultra-sons, escuto uma voz queixosa num gabinete próximo: "Senhora terapeuta. Acho que não aguento mais!". Tratava-se de um senhor idoso que logo perdi entre o frenesi da clínica. "(...) Acho que não aguento mais!" Talvez partilhasse as implicações da maleita que ali o levou, talvez fosse o queixume aposto à dor da própria terapia. Não cheguei a perceber. O que me reteve foi mesmo aquele "acho", aquela aparente maleabilidade dos limites assim postos em dúvida: a dúvida existencial sobre a vida suportável, a dúvida corpórea sobre os limites de uma cura invasiva. Seria talvez um jeito diplomático de falar -- porque a dúvida também é uma forma sensível de comunicar certezas --, ou então, mais dramaticamente, seria a genuína espera de uma palavra que o doutrinasse sobre aquilo que lhe cabia aguentar.



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