Debate

Não creio que seja meu viés pro-Obama a falar se retenho do debate uma leitura que lhe é favorável. Afinal consigo conceber mamas mais ou menos bonitas apesar da minha situação psicanalítica. Obama tinha que se desfazer de três acusações: 1- É inexperiente e não conhece os dossiers de política externa; 2- Usa a retórica para fugir da substância e dos detalhes por que se faz a decisão política; 3- É demasiado palavroso e o seu discurso muito articulado não faz concessões às punch lines que tão bem chegam ao cidadão comum.

Esteve bem nesses pontos e nesse sentido a sua grande vitória, parece-me, foi mostrar-se inteiramente presidenciável:

1- Mostrou conhecimento e pose de Comandante-em-Chefe ao falar de política internacional (falou das frentes de conflito com acuidade, capitalizou o Iraque e marcou diferenças importantes, por exemplo, assumindo frontalmente a sua disponibilidade para se sentar à mesa com os inimigos sem pré-condições, o que é corajoso face à chantagem patriótica. Terá faltado uma ênfase maior no multilateralismo);

2- Sem atalhar complexidades passeou-se pela substância dos temas transmitindo a ideia que domina as miudezas, algo que sendo arriscado no impaciente jogo da campanha política só está ao alcance de oradores daquele calibre (e dos apreciadores de moelas);

3- Não tendo muitas frases publicitárias para oferecer soube falar à classe média, assim substituindo a eficácia dos slogans por uma abordagem que busca a empatia com os problemas do cidadão comum (a hipoteca, o tanque do depósito, o universidade dos filhos, o LCD).

Como seria de prever, a discussão económica favoreceu Obama que se preparou para justificar o bailout ao mesmo tempo que assumia uma posição crítica face à teologia (e teleologia) do mercado que domina o establishment. O facto do debate ter começado exactamente por aí, pela crise financeira, tem óbvio impacto naquelas audiências que aos 10 minutos ressentem o jet lag da viagem da cozinha para a sala. McCain respondeu bem com os números dos earmarks aprovados por Obama, mas ficou em cheque quando o barítono de serviço comparou as migalhas dos earmarks com o dinheiro que se iria perder com uma política tributária, defendida pelo republicano, de incentivo ao grande capital.

McCain, a meu ver: fez bom uso da sua biografia de serviço (auto-laudatório ma non troppo), refugiou-se demasiado no corte nas despesas como resposta ao descalabro económico, colou-se demasiado a Bush em relação ao Iraque, foi eficaz no arremesso de factos acusatórios (nem sempre verdadeiros) para destabilizar o adversário (o fact check vem depois e assim sendo semear a dúvida compensa).

Mas o facto mais decisivo na estratégia de McCain, com interessantes implicações formais, foi a recusa em considerar Obama um par à altura: nunca o olhou nos olhos mesmo quando interpelado directamente e usou de um tom entre o professoral e o condescendente ("O Senador Obama não compreende"). Fico com a sensação que esta estratégia terá sido inteligentemente forjada para fugir ao mano a mano, mas parece frágil na medida em que ascendente experiencial de McCain não podia elidir o vasto saber discursivo ali patenteado pelo noviço, não ao ponto, pelo menos, de o reconhecer como adversário à altura . Por outro lado, Obama assumiu uma postura de respeito ético, e digo isto como juízo de carácter se quiserem, que obviamente pode ser confundido com ingenuidade: na atitude respeitosa com que ouviu McCain, pelo frequente uso de expressões como "o John tem razão" e, sobretudo, por insistir sempre em olhar para o adversário a despeito de este jamais lhe ter "dado a cara". A título visceral (uma espécie de a título pessoal, mas mais carnal) a imagem de McCain a olhar o chão enquanto Obama falava com ele fez-me lembrar aquela atitude tenebrosa de Carrilho quando se recusou a apertar a mão a Carmona. Obama defendeu-se dessa condescendência paternalista chamando-o sempre "Jonh". Se McCain ganhar será contra as minhas melhores vísceras.
Quinta temos Biden-Palin.



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