Saturday III

Diz o Rogério Casanova:
"Se a libido política de McEwan está presente em Saturday, só posso concluir que se trata de uma libido política claramente bissexual-platónica; a libido de alguém cujas hormonas estão cheiinhas de vontade, mas se recusam a tomar decisões executivas." Saturday é um livro que faz um fetiche da recusa em adoptar uma posição inabalável. Acusar isto de falta de subtileza, sinceramente, não lembra à New Statesman."
Tenho dúvidas que o Hulk se possa vir a afirmar como um jogador fundamental para o Porto, mas do que dele já vi -- tudo jogos pouco conseguidos, refira-se -- posso afirmar que está ali um jogador cujo génio, se alguma vez liberto, reduzirá o Rodriguez à sua (obscena) utilidade.

O Rogério tem razão: na leitura política que se pode extrair de Saturday, o que fica de McEwan é a ambivalência, a recusa em tomar partido, tanto quanto um sincero espanto pelas certezas que o foram cercandoa propósito da guerra do Iraque .

Na boleia da conversa com o Lourenço, ao pesquisar as reflexões de McEwan nos seus artigos de opinião, confesso que tive uma sensação próxima daquela que me invadiu quando indexei as palavras "Givanildo Vieira de Souza (Hulk)" no youtube: o mordomo de facto estava a agir de forma estranha.

A questão, creio, é que a recusa de McEwan em tomar posição é menos neutralidade ou uma abstinência executiva do que uma oposição à corrente dominante, na opinião pública e no meio literato-intelectual, que proclamava inequívocas certezas na condenação da Guerra do Iraque. Ao passear-me por Saturday, por exemplo na passagem em que seguimos a voz de Perowone a falar de Miri (pag. 62 da minha edição), foi difícil escapar a essa libido. Não me refiro tanto a uma proclividade (mãe do Casanova!) para celebrar o universalismo da imaginação liberal, mas fundamentalmente ao imperativo de falar contra as certezas que puseram 2 milhões manifestantes a desfilar em Londres. Se há nisto ambivalência platónica, também há a vontade militante de quem não se deixa levar.



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