Florença

Em Florença, vindos da galeria Uffizi, a caminho do Arno, encontramos uma trivial corrente metálica que protege da estrada o passeio contíguo ao rio. Mero expediente de segurança rodoviária. Mas, talvez por se tratar de um dos locais com vista privilegiada para a ponte Vecchia, talvez devido a alguma mitologia local que desconheço, talvez por graça de uma espontaneidade turística que fez escola, acontece que a tal corrente aparece ao transeunte completamente enlaçada a um sem número de cadeados. Depois de alguma atenção, percebe-se, são cadeados onde sucessivos casais de amantes inscreveram os seus nomes para os acorrentarem a Florença, ao Arno, a Itália, à eternidade e assim.

Percorrer esses cadeados com atenção suscita o sincero arrepio de imaginar quantas daquelas promessas se ficaram tumulares na forma de um cadeado cingido à corrente, ali a anoitecer, sujeito às intempéries, ao calor, à chuva, aos cães florentinos, aos voyuers. Tudo bem se os casais são consequentes, tudo bem se estão dispostos a fechar as contas com a história hipotética que ali se desenhava, mas acho grave que se possa assombrar uma cidade com tamanha impunidade. Sinceramente não os estou estou a ver a guardar chave para prevenir imponderáveis -- seria sinal de descrença --muito menos os vejo com a coragem para regressar a sós ao lugar do crime e assim enfrentarem o peso simbólico do anacronismo -- não tem como não doer. Se o Wong Kar-wai queria fazer uma rábula decente com chaves podia ter pegado uma coisa assim, as potencialidades romanescas chegaram a deixar-me cansado.

Agora, mais a sério, parece-me óbvio que as autoridades locais deviam criar um departamento de investigação que de modo criterioso percorresse o mundo no encalço dos turistas a fim de saber quantos deles seguiram olimpicamente as suas vidas marimbando-se para a higiene simbólica da Toscana. Seria concedida uma amnistia para as pessoas incapazes de aceitar o fim e seria prolongada a licença aos casais em posição de renovar votos. Mas sinceramente, não sei se as comunas italianas têm sensibilidade ou autonomia administrativa para resolver com agilidade estas questões com um mínimo de agilidade. E não me digam que uma cidade com tantos artistas não tem um ferreiro jeitoso capaz de ir fazendo o update da corrente. Por outro lado, quase me apetece conceder, na sombra de uma cidade com a funda memória de Florença, tão socializada a ver-se pelo tempo dos séculos, aqueles cadeados são já versões de um mesmo mito: as memórias que se cumpriram enquanto tiveram por onde.

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