Veneza



Convidado pelos pés que num comboio com destino a Bolonha a meu lado assim se enleavam, não resisti a tirar esta foto à traição. Os pés pertencem a um daqueles casais que nos suscitam algo de uma curiosidade genealógica: como se conheceram?, quem gosta mais?, como será o sexo?, será que duram? Ele um elegante senhor chinês pelos quarentas. Ela uma amena donzela, trinta e muitos, cabelos louros, olhos azuis, voz doce, nacionalidade incerta; não consegui perceber que origem carregava na pronúncia ou sequer se havia alguma pronúncia que se lhe pudesse achar. Tanto quanto a crioulagem do casal, o que primeiro me chamou a atenção foi o facto de comunicarem em mandarim. E como nunca tivesse ouvido uma figura ocidental fluir na língua experimentei um delicioso desconcerto, uma espécie de dissonância cognitiva entre gesto e verbo. E é isso que a foto recorda. O exotismo mágico da donzela e dois pares de pés solenemente enamorados vindos sabe-se lá de que Veneza.

*Que o senhor fosse chinês e que falassem mandarim são palpites da casa.



<< Home