Pepe Rapazote

A utilização da imagem de Pepe Rapazote numa campanha relativa à violência doméstica, primeiro, e ao VIH/sida, agora, não deixa de expressar, a meu ver, alguma inteligência semiótica (apesar de alguns erros de enquadramento de que falarei à frente).

De facto, tanto a figura viril que ficou fortemente marcada por algumas das personagens que Rapazote representou-- com saliência para o papel que desempenhou em Jura --, como a expressão de malandro que traz embutida na facie, concorrem para que o actor conote com singular eficácia um certo espécime de macho latino, entidade à vez real e utópica -- uma utopia conservadora -- que notavelmente celebra o desejo (hetero)sexual, despreza a subjectividade feminina e usa o romantismo ora como engodo de engate, ora como âncora fálica na longa duração (ou seja, para as manter "quentinhas" -- não obstante alguns excessos ou aqueloutro menosprezo).

Assim, parece-me, o uso de uma tal personagem pública vem trabalhar duas narrativas:
1- Redenção (mais evidente na campanha da violência doméstica). A passagem pela qual Rapazote se transforma de arquétipo do canalha na voz que vem denunciar os danos sociais decorrentes de uma masculinidade exacerbada sugere algo próximo de uma transformação biográfica, um itinerário de redenção. Exactamente a mesma transformação que se procura operar nas masculinidades mais afeitas ao totalitarismo viril do homem (ou de quem dele se defende).

2- Conciliação. Nesta leitura valoriza-se a mensagem segundo a qual a virilidade não impede um homem de se engajar com preocupações feministas, não prescreve uma subjectividade violenta e tampouco o inibe de tomar cuidados no seu glorioso itinerário sexual. No limite são dimensões conciliáveis.

Do conjunto de publicidade a que aqui me refiro -- entre spots televisivos e outdoors -- o menos conseguido é, de longe, o spot da campanha do HIV/sida, spot cuja mensagem vagamente diz "não se deixem fiar pelas caras de anjo porque qualquer um pode estar infectado". Ora, Rapazote não tem cara de anjo, por isso o efeito de disjunção entre aparência e perigo perde-se inteiramente. Erro crasso. Se queriam manter a narrativa do spot deviam ter-se virado para alguém que incorporasse o paradoxo "cara de miúdo mas muito rodado".



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