Carolina

Após 10 dias de ausência num raide pelo norte de Itália, empreitada em que a componente académica e a turística se reuniram em partes ligeiramente desiguais, tolhido pelo sono, incapaz de ler mais do que duas linhas do Público sem começar a sonhar com as densas relações entre o Aimar e o programa nuclear iraniano, aproveitei o retorno para dedicar uns minutos à literatura social exposta no interior do Jumbo vizinho enquanto tentava alinhar de cabeça os ingredientes para o jantar -- processo complexo conquanto o permanente estado onírico insistisse em arredar-me de refeições minimamente verosímeis para as minhas fracas artes culinárias. No meio deste caos programático pude contudo perceber que em poucos dias o país desenvolveu e maturou uma fixação inconofílica com rabo da Carolina Patrocínio e -- o mundo é mesmo assim -- com ele um tal de Gonçalo Uva (com quem a moça parece partilhar toalha de praia e os rituais do bronze). No fundo, é inevitável que tantos anos de novelas brasileiras criassem uma particular sensibilidade lusa para corpos próximos dos ícones eróticos brasileiros. Quero crer que estamos perante um processo histórico em que influência estética dos postais cariocas muito favorece a recepção mediática ao rabinho da Carolina (a iconografia erótica da playboy brasileira nada tem a ver coma a da sua congénere americana).

É bom de ver que as idiossincrasias nacionais a existirem não passam sem viagens que as precedem (de Cabral a Juliana Paes pasando por Bruna Lombardi), não passam sem regimes de cristalização vagamente arbitrários (foi um choque perceber que as ruas italianas não estão exactamente polvilhadas de clones de Loren e Bellucci ), não passam sem a celebração de ícones para troca (aquilo da Marisa e assim), nem sem as contingências do costume (o rabo, esse sortilégio).



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