"Aqui fica a Nina..."


Ler este diário para dele captar o retrato de um certo Portugal é ceder à tentação paroquialista. Para quê martirizar tetas relativamente secas se correm jorros de leite do tumulto existencial por que Mircea Eliade (ME) se arrasta?

Se há algo de significativo neste desfilar de apontamentos pessoais -- que nos levam de 21 de Abril de 1941 a 5 de Setembro de 1945 -- é, pois, a explanação de um "kierkegaard fodilhão" (ressalve-se, um Kierkegaard que não escolheu perder a sua Regina: Maitreyi e Nina foram-lhe sucessivamente roubadas, a primeira pela "distância civilizacional" a segunda pela doença).
- É a explanação de um megalómano largamente consequente na erudição e nas ambições intelectuais (curioso perceber como a propensão de ME para universalismos e para leituras obscenamente generalizantes -- marcas da sua obra académica -- decorre, mais do que de uma filiação epistemológica, do expresso desejo em deixar uma marca que o projectasse na cultura mundial à altura de um Goethe.
- É a explanação de um melancólico incurável continuamente acossado por violentas crises de neurastenia.
- É a explanação de um vencido pela história (é sempre chato para um nacionalista próximo da extrema direita ter que assistir ao evoluir uma guerra que redundaria na ocupação soviética da sua amada Roménia).
- É a explanação de um homem cuja fé vagueia perdida entre a tradição que o criou, o universalismo místico das suas "viagens" e a leve suspeita de que é, ele próprio, um Messias, ainda que incapaz de dar justa voz ao seu "génio épico".
- É a explanação de um homem que na solidão trazida pela viuvez carrega também o remorso (um aborto que forçou Nina a fazer no início do namoro terá estado na origem da doença que acabaria por a matar)
- É a explanação de um narcisista cujo projecto épico representa o pavor de se deixar conter por uma historicidade particular.

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