A turma de Scolari

Scolari tem óbvios méritos na forma como tem conseguido ganhar os grupos que leva para as fases finais. Da Nossa Senhora do Caravaggio a Roberto Leal, os esteios de solidariedade são amplamente conhecidos e, não por acaso, terão assumido um papel importante no ânimo dos piquetes de camionistas. Mas há um elemento que talvez seja mais significativo que o apoio de Cavaco Silva, de todos os meus "amigos" ou, quiçá, do próprio Tony Carreira.

Ao depender tão dramaticamente de uma liderança baseada numa autoridade do tipo paternal -- uma autoridade que assenta no reconhecimento do poder tutelar investido no "pai", na afeição parental e na experiência (títulos) --, Scolari mais não faz do que esconder aqueles que são os seus défices estruturais. Ele conhece-os. E espero que Stamford Bridge os venha a conhecer em breve.

Falta-lhe um saber futebolístico (técnico) capaz de criar reverência entre jogadores que nos seus clubes estão socializados com metodologias e saberes periciais de ponta -- falo de uma reverência como a que conta Costinha: consta que o primeiro jogo preparado sob o comando de Mourinho terá sido para ele como cair do cavalo no caminho para Damasco; falta-lhe um carisma que seja capaz de se afirmar sem a constante invocação dos galões da hierarquia; falta-lhe a coragem para constituir grupos primordialmente definidos por critérios futebolísticos -- basicamente é o que distingue um líder em Futebol (Mourinho ganhou a Liga dos Campeões com Carlos Alberto a titular, um tipo que nos últimos anos se tem celebrizado por ocupar os tempos mortos dos treinos entre o pandeiro e os sobrolhos dos colegas).

Assim, ao excluir da convocatória jogadores em relação aos quais a única dúvida deveria ser o menu do pequeno almoço que lhes deveria levar à cama nas manhãs do estágio, ao fazer uso dessa "justiça arbitrária", Scolari tem vingado em conquistar a gratidão dos injustamente escolhidos assim reforçando a sua autoridade. Ao ser tão assumidamente "contra-intuitivo" nas escolhas exalta o arbítrio idiossincrático de quem se não verga às evidências futebolísticas. Ao privilegiar alguns jogadores, deixando claro que a suas convocatórias resultam de um apadrinhamento pessoal que nada deve a modernices meritocráticas, Scolari semeia um sentimento de dívida cujo retorno lhe é fundamental. É esse sentimento de dívida que define um eixo de subserviência vital a um grupo que se quer domesticável. Assim, por exemplo, ao excluir sucessivamente Baía, Quaresma (no Mundial), Maniche, Caneira, etc, Sclorari pôde munir o grupo de cachorrinhos gratos e obedientes: Ricardo, Bruno Vale, Paulo Santos, Hugo Viana, Rui Patrício, Boa Morte, Helder Postiga, Jorge Ribeiro, Fernando Meira, etc.

Enfatizo os méritos na gestão anímica do grupo -- ainda que esses métodos dependam do uso da arbitrariedade -- por reconhecer pouquíssimos méritos técnico-tácticos no que tem sido o seu sucesso relativo à frente da selecção.

Primeiro, porque em 2004 e 2006 Scolari foi obscenamente tributário do papinha que Mourinho lhe fez no Porto. Na verdade, na preparação para o Euro 2004 ainda tentou levar avante as suas ideias. Retirou-as de cena, envergonhado, logo após o primeiro jogo com a Grécia.

Segundo, porque pugna por incompetências básicas: quase nunca assiste aos jogos dos clubes onde intervêm jogadores seleccionáveis (os fins de semana são para a família, justo); em tantos jogos de qualificação e preparação, nunca, repito, Nunca, experimentou, uns minutos que fosse, só naquela, jogar com o Ronaldo a ponta de lança; nas bolas paradas insiste em fazer marcações homem a homem quando, como dizia Mourinho num artigo desta semana, seria mandatório que uma equipa com a altura média de Portugal marcasse à zona (filme recomendado: Remembering Charisteias).


Terceiro, é impraticável olhar para as façanhas da Selecção sem tomar em consideração a matéria prima à disposição. Além de ter alargado dramaticamente o terreno de captação com as naturalizações (facto recente que eu apoio), Scolari tem disposto de um número inédito de seleccionados a jogar ao mais alto nível nos clubes. Octávio Machado arriscava-se a passar a fase de grupos. (Para não lembrar que o apuramento para o mundial está muito mais facilitado desde que a fase final se disputa com 32 clubes ou do apuramento garantido pela organização em 2004).

Vale a pena lembrar que em 2000, Humberto Coelho, técnico medíocre, só baqueou nas meias finais no prolongamento contra a França de Zidane, a campeã do torneio. Já agora lembremos a equipa desse jogo para que tenhamos a justa noção dos luxos hoje servidos ao grande timoneiro:

Vítor Baía: Vantagem sobre Ricardo (note-se que Baía esteve à disposição de Scolari até 2006/2007)
Abel Xavier: Vantagem para Bosingwa
Fernando Couto: Vantagem para Ricardo Carvalho
Jorge Costa: Vantagem para Pepe
Dimas: Vantagem para Paulo Ferreira
Costinha: Vantagem sobre Petit
Vidigal: Vantagem para Moutinho (ou Maniche)
Sérgio Conceição: Vantagem para Nani ou Quaresma (possivelmente para Simão)
Rui Costa: Vantagem para Deco (Sorry)
Figo: Vantagem para Ronaldo (Sorry)
Nuno Gomes: Vantagem para Nuno Gomes



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