À atenção de Pinto da Costa

Andam a passar-se coisas muito tristes em Barcelona. Deco anda a jogar e Ronaldinho é bem capaz de sair. Pergunto a quem controla estas coisas: Custava muito que Deco continuasse lesionado (ou suplente)? Custava muito que Ronaldinho se mantivesse no Barcelona a um nível minimamente capaz de fechar a Deco todas as aspirações para o lugar de nº 10 durante mais um quinquénio?

O Porto precisa de um jogador que se junte a Assunção, Meireles e Lucho para jogar em 4-4-2 na Liga dos Campeões, um pouco à imagem de como começou a Liga de 2006/2007 com Anderson. Ibson vê-se a passar o resto dos seus dias no Flamengo, um óbvio sinal de falta de perfil para jogar no Porto: pois que aproveite o sol e a praia que no lugar dele eu fazia o mesmo. Está visto que, em pleno contraste com a vivência carioca, é a cultura gaúcha que produz brasileiros com maior capacidade de adaptação aos rigores do futebol europeu.

Mas, além do enquadramento no mística do Porto ou nas exigências do futebol europeu, há aqui uma questão que apesar de vagamente esotérica jamais deveria ser desconsiderada. Apelo à memória. Quando julgaríamos que melhor era impossível, um Anderson substituiu Anderson (Deco) com inimaginável sucesso. Mais um dado histórico: Vítor Baía regressou aparentemente acabado de Barcelona para ser campeão Europeu. Já estão a ler as rimas? Pois bem, eu acho que o Porto se deveria comportar como aqueles amigos que todos temos: mudam sucessivamente de namorada/o mas mantêm, ao longo dos anos, uma notória e comovente fidelidade a algum traço das que vieram antes, seja o nome, o modo de andar, a cor do cabelo, as posições preferidas, a marca do perfume, o desenho da clavícula, etc.

Num misto de conservadorismo e audácia delicodoce, a possibilidade de Anderson (Deco) substituir um Anderson que por sua já o havia substituído permitiria reforçar o misticismo do nome, e, talvez mais importante, concederia uma hipótese ao passado, mas nos seus termos e já não como colónia de um presente memorioso.

Quando o passado regressa tão inteiriço, e não apenas como um traço que dele nos recorda por metonímia, mais difícil se torna negar a evidência de um hoje envelhecido. Aceitar essa evidência é algo de uma arte, uma estética da identidade. Defendo, pois, que ante provável impossibilidade de segurar Quaresma, cabe reverter a troca feita há alguns anos reinvestindo o dinheiro no regresso de Deco. Em nome de uma versatilidade táctica que permita alternar o 4-3-3 com o 4-4-2. Por romântico apego aos lugares comuns.



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