My Blueberry Nights



My Blueberry Nights, filme de Wong Kar-Wai estreado em 2007. Trata-se, sem grandes margens para dúvida, de um Wong Kar-Wai menor, em óbvia gestão de esforço, em versão intencionalmente light, notoriamente desfalcado de Maggie Cheung ou Tony Leung. Não importa, é, ainda assim, um Wong kar-Wai a não perder. Parece-me que o guião é excessivamente prejudicado por momentos naïve, inteiramente escusados, colagens de enredo mal trabalhadas e pouco credíveis numa sanha algo transparente para chegar à simbologia poética-romântica (a metáfora das chaves não convence, como não convence, por exemplo, a cena ("boa para fotografia") em que ambos sangram no nariz ).

Norah Jones, Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weiss e Cat Power compõem as atracções mediáticas. No entanto, as estrelas são claramente reduzidas em significância pelo esplendor imagético do registo néon que compõe o filme, prevalece sim o centrismo visualista de um screenplay que, sem condescendências, a cada passo, corteja Edward Hopper e o encanto melancólico da "América dos cafés".

O romantismo obsessivo, conspícuo tema Kar-Waiano, está lá todo. Mas Norah Jones e Jude Law, apesar de resultarem bem nas conversas de trivialidade quotidiana em que se visitam, jamais conseguem dar corpo ao estertor sentimental sugerido pelas histórias das suas personagens: só adivinhamos esse vulto quando os vemos sucessivamente abrigados na rotina do trabalho, nessa espécie de fuga circular. Para esse serviço, o do romantismo obsessivo, dizia, está lá David Strathairn: o homem que Clooney escolheu para personagem principal de Good Night, and Good Luck por lhe entrever o rosto capaz de representar a gravidade de alguém que traz sobre si o peso do mundo. E traz. Em My Blueberry Nights ele é o alcoólatra que noite após noite se senta dobrado ao balcão -- tal como a famosa figura no quadro de Hopper -- como que tentando enganar a partida da mulher (Rachel Weisz) sob o olhar piedoso dos empregados.

Mas, no fundo, ao escolher para se embebedar o exacto café em que se enamorou da mulher, a personagem de David Strathairn desactivava o efeito paliativo que supostamente procura no álcool. A questão, quero arriscar, é que ele não bebia para esquecer, ele bebia como pretexto para estar sentado, horas a fio, no lugar de todas as esperanças. Sendo um alcoólatra, de algum modo serve-se da capa do alcoolismo para para poder pousar longamente e assim esperar um recontro com a mulher naquele que era sítio do costume. Enquanto um filme como uma dmensão de On the Road a mensagem é muito a voracidade com que se muda de lugar (Norah Jones, Rachel Weizs, Natalie Portman), mas é exactamente contra essa voracidade viajante que ganha dimensão lírica a persistência de quem, por esperar, jamais se move (David Strathairn, Jude Law) .

Na passagem entre a história de Norah Jones e a de David Strathairn, cantam Cat Power (The Greatest) e Otis Redding (Try a Little Tenderness), músicas que dão, respectivamente, o tom a duas idades do desencanto, duas idades que no caso são também duas intensidades. Cat Power canta algo próximo da desilusão iniciática, o doloroso calibrar ao voo destrutivo do tempo, Otis Redding canta a intensidade, ali mórbida, de quem, contra tudo, continuará a tentar: não é nostalgia, não é esperança inquebrantável, é um manifesto contra a tranquilidade do desapego.

P.S. Sim, aquele beijo merece ir para a galeria.



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