Gerrard

Lourenço, isso é tudo muito bonito (o golo, admito, é esplendoroso), mas não estou sequer convencido que possamos considerar o Gerrard como um jogador do Liverpool.

Gerrard não joga contra os adversários do Liverpool mas contra a ansiedade da influência: o inevitável receio de poder ser confundido com um jogador do Liverpool, apenas porque veste o equipamento da Carlsberg, ou porque chuta para a mesma baliza do que os verdadeiros jogadores do Liverpool.

Gerrard é um "narcisista box to box", ou seja, um narcisista abnegado (como a Madre Teresa de Calcutá) que, por qualquer dispositivo que a mecânica quântica um dia explicará, epitomiza (um verbo, para todos os efeitos) no seu corpo o futebol que em circunstâncias normais seria espraiado -- desigualmente, mas seria -- pelo 11 do Liverpool.

Creio que Gerrard poderá ser melhor descrito como um parasita energético com grande capacidade de adaptação às raras condições mitológicas de Liverpool. Benitez é inteligente e conseguiu criar um ecossistema capaz de acolher uma tão violenta concentração de génio. O Liverpool assenta num equilíbrio sensível entre Steven Gerrard, Alex Curran (a mulher do Gerrard), a impossibilidade de ganhar a Premier League e uma agência de viagens com excursões low cost à cidade onde anualmente se joga a final da Liga dos Campeões.



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