Bento XVI

A minha concepção da virgindade pré-matrimonial ou do celibato compulsivo está muito próxima da que é sugerida em O Esplendor à Flor da Relva (1961): a relação entre o amor e a repressão da carne tanto pode representar a abnegação e a entrega como, mais provavelmente, constitui a semente para o mais completo desvario.

O confronto perdido com expectativas impossíveis de cumprir -- que entretanto se incorporaram como culpa -- e o consequente sentimento de irredimível queda moral (perdido por 100 perdido por mil), não deixam de retratar o quanto o excessivo rigor dos princípios pode aplanar o caminho para a implosão de quaisquer princípios.

Ao contrário de muitos, não consegui ficar particularmente comovido ao ver o Papa pedir desculpa pelas situações de pedofilia dos padres americanos. Primeiro, porque há ali uma ardilosa "estratégia localizante" no pedido de desculpas. Bento XVI quer fazer supor que as situações pedofilia episcopal são uma excentricidade americana, assim pôde reforçar o estatuto de excepção desses casos no mesmo momento em que deles se retractava.

Segundo, porque as "condições de possibilidade" para a elevada prevalência de pedofilia entre os padres não estão, a meu ver, nas práticas pérfidas de uns poucos como nas regras austeras que a todos regulam. Na maior parte dos casos a pedofilia acontece não tanto porque os padres sejam pedófilos undercover, acontece, isso sim, porque são sujeitos sexualmente descompensados que vão tirar partido, ora da vulnerabilidade de menores como hipótese sexual, ora da vergonha que neles se gera como garantia de silêncio. Não querer perceber isto é assobiar para o lado.



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