Piercings de iniciativa legislativa

A sociedade portuguesa volta a mergulhar nas trevas com a interdição da colocação de piercings em regiões corporais escolhidas pelo governo. Mais uma vez somos vergados por uma lei que além de ser atentatória das liberdades individuais irá afectar de forma desproporcionada as classes menos privilegiadas. Sendo uma matéria que diz respeito a toda a sociedade, independentemente de sexo ou confissão religiosa, é natural que quem, como eu, tem pelo menos um brinco na orelha se sinta mais autorizado a emitir uma opinião.
Mesmo antes do Rui Oliveira e Costa começar dar-lhe na análise co-variada, não custa imaginar os milhares de adolescentes e strippers que nas próximas décadas terão que rumar a Espanha para poderem furar a língua e os genitais em condições de higiene e segurança. E depois há o caso do José Luís Peixoto que passa a depender dos prémios literários para se poder continuar a furar em liberdade.

Para muitos restará, uma vez mais, mergulhar nesse perigoso mundo do piercing clandestino, um mundo putrescível que irá galgar terreno à sombra da nova lei. Os vãos de escada, prevejo sem dificuldade, passarão a ser ocupados por piercers sem escrúpulos dispostos a extorquir dinheiro a pessoas que se encontram numa particular situação de vulnerabilidade (os não apreciadores de Tom Waits também poderão ser afectados).

Mais, em condições de clandestinidade, já se sabe, do piercing genital à excisão acidental do clitóris será um um pulinho (a sociedade civil portuguesa sempre assentou muito na carolice). Preocupante, também, é a ausência de uma legislação que regule o uso de piercings nos mamilos em função do tamanho da copa -- divergências estéticas no conselho de ministros terão impedido um acordo nesta matéria; vazio legal igualmente no que concerne à comercialização de piercings magnéticos (vulgo: ímanes) que venham a permitir, na estreiteza das filas do supermercado, um reconhecimento entre camaradas de clandestinidade.

A tutela do governo sobre os corpos até pode ser uma ideia bem achada para conter eventuais repentes dos membros do governo, assim travando, desde logo, esse anseio antigo de Manuel Pinho. Tudo o que vá além disso é, manifestamente, gentileza a mais.



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