O Protegido



A transposição de Unbreakable para O Protegido constitui um dos raros momentos felizes na "história da tradução de títulos de filmes" (a única remissão possível é a pujante "criatividade" da distribuição brasileira). Tanto assim que me dou a preferir o título que ficou para consumo pátrio ao original.

É que enquanto "Unbreakable" remete para a omnipotência e para a invulnerabilidade do herói, sugerindo-o detentor de uma espécie de virtude imanente, "O Protegido" sublinha uma dimensão de dádiva cujo reconhecimento insere o herói nas obrigações de reciprocidade próprias de um potlatch. O protegido é-o porque foi agraciado com um poder que ao mesmo tempo se constitui como um mandato. Por isso Bruce Willis foge das balas com que o filho procura confirmar a sua imortalidade: não é o medo de morrer, é o medo de ter que viver com um propósito. A partir do momento em que é o único escapar a um acidente ferroviário, Bruce Willis fica desapossado da sua vida. É já a sobrevida que sai dos escombros: a vida que não lhe pertence.

Não há enredo infantil que escape inteiramente à genialidade de Shyamalan. Com o insuspeito beneplácito da tradução portuguesa, com estranhos episódios de privança que insistem em assinalar o insólito de estarmos vivos, devo reconhecer que O Protegido está a envelhecer com alguma elegância.



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